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a lanterna dos afogados #arquivos da foice 3

Idosos estão aparecendo mortos nos trilhos do trem, afogados no seco com os corpos repletos de feridas e arranhões. Um símbolo de peixe espiral chama a atenção da Foice para a possível atividade de uma Bruxa. Os idosos afogados, contudo, não são exatamente o que aparentam. Duas Ceifeiras são enviadas para investigar, Diana e uma estrangeira novata que veio fazer intercâmbio na Academia do Rio de Janeiro. Pela estranheza do caso, Isa também é convocada para ajudá-las e logo outras Ceifeiras se juntam à investigação quando novas mortes acontecem e o responsável se mostra difícil de capturar. O misterioso assassino apelidado de Pescador conduz as Ceifeiras da Central do Brasil até o fim da linha férrea em uma caçada sangrenta contra forças sobrenaturais antigas e mortíferas.

O conto completo tem 117 páginas e está publicado na Amazon.

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A Lanterna dos Afogados


- Uma pequena amostra do Caso 3 -

Viagem Longa

Órfão, o pobre. Perdeu os pais muito cedo, um para as vicissitudes da vida, ataque cardíaco fulminante dois dias antes de ele nascer; a mãe, para a crueldade do mundo dois anos depois. Cresceu aos cuidados precários de uma tia, mais preocupada com as puladas de cerca do marido do que com as necessidades de um infante abandonado à própria sorte. O marido, grosseirão, doido varrido cheirando eterno à álcool, durou pouco na convivência; um dia pulou a cerca e nunca mais voltou. A tia, amargurada, pouco quis saber do órfão, um coitado. Desde cedo, correu sozinho atrás de sustento, no seio igualmente inóspito da cidade. Na Central do Brasil, onde trilhos e caminhos entroncavam e se cruzavam, ainda muito novo, descobriu um ganha-pão: engraxate. Zanzava de um lado a outro na vasta estação, carregando os instrumentos que arranjou ao custo das muitas esmolas pedidas aqui e acolá. De vez em quando, ainda pedia uma ou outra esmola para inteirar no almoço. Nem sempre a graxa nos sapatos alheios garantiam. E era só o que via: sapatos, descarnados e por ele empretecidos, dia após dia, sem cessar, por anos a fio, anos cada vez mais longos, cada vez mais demorados a passar. E então, já não fazia mais diferença, engraxar, engraxar, um dia igual ao outro, corre-corre, entra e sai de trens e passageiros, o fervilhar imparável da Central. Um dia, seus olhos para os sapatos dos outros, um sapato diferente o atraiu, um Mocassim marrom feito à mão com tiras de couro de crocodilo, antiquado, porém de requinte, meio descarnado pelo uso, mas ainda chamativo como se recém-comprado. O homem usava chapéu panamá e vestia um terno preto bem alinhado. Muitos na Central vestiam ternos pretos bem alinhados, lugar de advogados e pessoas de negócios, além da gente trabalhadora que compunha a maioria. Mas mesmo com o tanto de passos que via todos os dias, ainda não tinha visto com aquele charme, aquele brilho apesar do amarronzado fosco. O homem queria uma engraxada e seria a primeira vez que usaria sua graxa para sapatos marrons. Ficou estranhamente animado. O homem se sentou no banco e pôs sua maleta ao lado. O engraxate ganhou um doce além dos trocados enquanto engraxava, saboroso, de gosto engraçado, meio açucarado meio cítrico, um leve alaranjado no paladar, um sutil comichão elétrico no pescoço a cada mastigada. Engraxou o sapato com um vigor diferente, como se renovado, empolgado. Sorria. O homem conversava, era gentil e cortês. Perguntou ao engraxate sobre ele, sobre seus pais, sobre sua vida trabalhando na Central e por que estava ali exercendo aquele ofício desde tão novinho. Ele respondeu, sorridente. Contou suas desventuras e correrias, algo que nunca fazia. Mas sentiu-se estranhamente à vontade e confortável e apenas falou, desembuchou, o que lhe deu uma sensação agradável de tranquilidade no peito. Seus ombros estavam relaxados. O homem perguntou se ele já tinha jantado. Era noite de sexta-feira, fria, muito movimento, mas poucas moedas, ainda não tinha comido desde o café da manhã. O homem convidou para jantar, disse que pagaria o que o engraxate quisesse comer e que não fizesse cerimônia. O convite foi aceito de pronto. Não se negava uma chance de matar a fome. Foram para um restaurante de esquina, do lado de fora da Central, próximo dali. E ele comeu como não se lembrava de já ter feito antes. Comeu com um prazer indescritível. O homem comeu menos, mais educado nos modos, no jeito de segurar os talheres e o copo de cerveja. O engraxate era mais afobado, desprendido, comia, mastigava, engolia, comia, bebia, engolia, mastigava, comia mais, misturava tudo na boca, mastigava, engolia, nem pensava. O copo de refrigerante durou pouco e foi enchido novamente algumas vezes. Ele mal conversava. Quando falava, às vezes o fazia de boca cheia. Estava feliz, satisfeito por poder, pela primeira vez na vida, ter uma refeição farta. Faltava pouco para o horário de saída do último trem quando terminaram. Eles voltaram para a estação. O engraxate precisava pegar o último trem para voltar para sua casa. O homem também o faria. Descobriram a coincidência de pegarem o mesmo trem, Ramal Japeri. Viagem longa. O homem contou que costumava pegar aquele trem. O engraxate achou curioso nunca tê-lo visto. Ele teria reparado naqueles sapatos Mocassim. No meio do vagão, por trás da conversa dos dois e do burburinho da conversa de outros passageiros, às vezes sobressaía as preces de um senhor que pregava suas crenças para ninguém, os olhos fechados, uma bíblia encardida apertada num abraço. O engraxate ouvia as preces, então o vozerio, então a voz do homem, alternavam-se, embaralhando sua atenção, mal conseguia se concentrar no homem. Sentiu uma pontada de dor no estômago, enjoo, achou que ia vomitar. Olhou para o homem e percebeu que estava prestando tanta atenção aos sapatos, às roupas bem vestidas, à comida, a todos os outros detalhes, que sequer prestara atenção de verdade no rosto embaixo do chapéu. Já tinha olhado para o rosto algumas vezes, mas sem realmente enxergá-lo. Quando finalmente o fez, só viu borrões. O trem chiou ensurdecedor sua parada numa estação. Só havia borrões e passos, seus passos, incontroláveis, cambaleantes, entorpecidos. O engraxate esfregou as mãos, mas não pareciam suas mãos; estavam enrugadas, ossudas, a pele translúcida e repuxada, brotando pintas e manchas. Seus ossos doíam. Suas costas pesavam toneladas. Engasgou-se com um suspiro, e tossiu, engasgou-se de novo e de novo, tossiu sem parar, violentamente. Não respirava. Tentou gritar, o grito um gorgolejo asfixiado por água traqueia abaixo. Um pano úmido envolvia sua cabeça, olhos, nariz e boca. Inalava água, engolia água. A água jorrava incessante para dentro dele e de dentro dele. Lutava para respirar, os braços fracos se debatiam para o nada, em vão. Respirava, engolia água, enchia seus pulmões, tossia no pano úmido, tossia, engolia, inundava, vomitava, engolia tudo de novo. Dores lancinantes de picadas de agulhas espetaram sua pele e seus nervos, cortes minúsculos rasgando violentamente seus músculos, a água consumindo sua vida e esvaindo seus sentidos, até que, numa última lembrança de uma foto de seus pais, afogou-se na escuridão.


***

O cheiro de água corrente disputa com o fedor de lixo e resíduos tóxicos despejados nos inúmeros rios ao redor. Quanto mais para dentro da floresta e para longe do centro residencial, mais o cheiro de água corrente prevalece. E então, vem o odor de barro e sangue. Os sons da natureza vão morrendo. Do alto de um precipício, depois de sairmos da parte mais densa da mata, conseguimos enxergar a chácara abandonada lá embaixo, no ponto mais afastado do açude cercado pela pedreira desativada.

— Finalmente — reclama Diana.

Há uma trilha pedregosa entre as rochas na face do precipício até a parte de baixo. Mas não precisamos usá-la.

— Vamos lá bater na porta.

Canalizo a magia nas solas dos meus pés com um comando mental e ativo o Vento Negro. Diana e Agnes fazem o mesmo, uma leve oscilação de energia mágica fluindo nelas. Saltamos precipício abaixo, percorrendo a distância de quase cinco andares e pousando no chão amortecidas pelo efeito da magia. A água do açude é sossegada e escura; eu diria que sossegada demais. Não é o tipo de lugar onde as pessoas vêm despretensiosamente para nadar. Meus nervos estremecem com a angústia impregnada dos que ali morreram afogados. O lugar em si, com a pedreira de calcário arruinada e esquecida ao redor, não oferece qualquer segurança. Ligada à pedreira, há uma barragem já muito deteriorada com rachaduras manchadas de limo por onde escoam filetes de água. E o próprio caminho na mata até aqui é pouco confiável e sem sinalização. Foi uma sorte não darmos de cara com uma onça-pintada ou algo do tipo ~eu não gostaria de ter que lidar com uma onça-pintada. A mata é mais aberta no entorno da chácara, árvores menores e mais espaçadas umas das outras, muitas delas resumidas a troncos podres e ressequidos. O Pescador sabe como se esconder, não dá pra negar.

Uma coisa sobre a cidade, especialmente a Baixada Fluminense, é que é mais fácil se esconder do que ser encontrado se você não quiser ser encontrado. Ninguém olha realmente pra cá a não ser quem mora aqui. E até quem mora aqui muitas vezes não olha direito. Não é à toa que merdas sobrenaturais são tão comuns e passam facilmente despercebidas.

De frente para a entrada da chácara, uma pequena escada que leva à varanda, nós três avaliamos os arredores. Não ouço uma alma, a natureza não canta, o vento não sopra um zumbido. Há apenas silêncio e expectativa. A pressão do Morbo no ambiente impõe sua vontade contra nós. Meus joelhos se esforçam para não dobrar com o peso sobre meus ombros. Esta pedreira é velha, muito velha. As rochas querem falar e contar suas histórias. As águas do açude estão carregadas de lembranças e dor.

— Eu vou trazê-lo para fora, vocês cobrem os flancos — sussurro para Diana e Agnes e me forço a andar em direção à casa.

Subo as escadas devagar, passo por passo, até a porta. Está fechada. Giro a maçaneta, não está trancada a chave. Empurro devagar para abri-la.


# Le Fanu. #


Invoco a Familiar para minhas mãos, materializando minhas facas gêmeas, os anéis das empunhaduras de soco-inglês envolvendo meus dedos, as lâminas viradas para baixo. Um barulho intermitente de madeira rangendo me recebe como se alfinetes espetassem meus ouvidos. Entro devagar, olhando de relance por trás da proteção da porta. A chácara é compacta. Imediatamente na sala principal, no centro do ambiente sem mobília, me deparo…


***

Arquivos da Foice voltará em breve com o Caso 4.

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