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Cancela Raul!

Esta semana surgiu a história de que Raul Seixas teria delatado Paulo Coelho ao regime militar no ano de 1974. O jornalista Jotabe Medeiros, autor de Raul Seixas: Não Diga Que A Canção Está Perdida, uma biografia de Raul que será lançada em novembro deste ano, teve acesso a documentos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), o órgão responsável pela repressão aos prisioneiros políticos do regime, e verificou que Raul esteve lá por diversas vezes prestando depoimento, a última delas pouco antes de Paulo Coelho ser detido. Coelho ficou preso por duas semanas, onde foi submetido a tortura, episódio que contou com detalhes em seu livro Hippie. De posse desses documentos, o jornalista conclui que foi Raul quem delatou o parceiro de composições para a ditadura.

A primeira reação do autor de O Alquimista foi postar no Twitter que havia ficado quieto por 45 anos, achando que levaria o segredo para o túmulo. Isso foi o suficiente para gerar todo tipo de reação nas redes sociais. Houve quem desse os parabéns a Raul por ter sido o responsável pelo colega ter sido torturado, quem acusasse Coelho de inventar essa história por inveja, e até mesmo quem afirmasse que Raul era um canalha por ter feito isso.

Posteriormente, Paulo Coelho apagou tal mensagem, dizendo que o que ele sempre teve foi uma suspeita, que o que aconteceu entre ele e Raul ficaria entre eles, e disse ter dúvidas sobre os documentos apresentados pelo jornalista, chegando a afirmar que este “só quer vender a porra do livro”.

O curioso disso tudo é que, de tudo narrado, não há mesmo nenhuma prova do que realmente aconteceu. A única certeza é que Paulo Coelho foi torturado, mas isso já era público há muitos anos. A reação das pessoas ao episódio mostra o nível de falta de sensibilidade a que chegamos. Precisou o próprio escritor se manifestar no sentido de que Raul não deveria ser “cancelado”. Partimos de verdades prontas e pré-concebidas para julgar quem nem conhecemos, com informações que não se comprovam, e, o pior, criando juízos definitivos sem ao menos pensar nas consequências.

Vamos parar pra pensar e supor que é mesmo verdade que Raul fez isso ao colega. É um ato que não condiz com tudo sobre o que conhecemos do cantor, então ele não foi simplesmente um dedo duro. O Brasil vivia sob um regime ditatorial, que buscava impor pela força suas verdades. Matou e torturou muitos opositores. Daí um sujeito é levado ao principal órgão de repressão por várias vezes até delatar alguém de livre e espontânea vontade? Se não foi torturado psicologicamente, ao menos ameaçado Raul teria sido. Vamos lembrar que ele mesmo já contou em entrevistas que foi “convidado a se retirar” do país em 1974, período em que morou em Nova York. Entre o final dos anos 70 e início dos 80 se afundou no alcoolismo e na autodestruição. Se foi ele mesmo o delator, isso teve um custo muito alto para o cantor.

Mas isso não parece ser levado em conta para quem deu os parabéns, como se Raul de alguma forma endossasse o regime. Só alguém muito imbecil ou de má-fé poderia afirmar algo assim. Por outro lado, a ideia de “cancelar” Raul também não é das mais inteligentes, uma vez que pressupõe o mesmo: Raul era colaborador do regime.

Regimes de exceção não afetam apenas quem está na oposição, mas a vida de qualquer um que, por um motivo qualquer, desagrade alguém com poder suficiente para agir impunimente. Paulo Coelho nunca foi militante político, era um artista com uma visão de mundo que os agentes da repressão não conseguiam entender, e isso foi suficiente para que o escritor se tornasse um alvo e sofresse por isso. A verdade é que não importa quem o delatou, pois este também foi uma vítima. Que a esta altura da história do país isso ainda precise ser afirmado diz muito sobre como não sabemos lidar com nosso próprio passado e não queremos lidar com nossos próprios problemas. O Brasil precisa parar de tentar negar a si mesmo.

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