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Tudo que é sólido desmancha na tela

No final do século XX, os cinemas foram tomados de assalto por uma enxurrada de filmes que questionavam a natureza daquilo que percebemos como realidade. Talvez o primeiro dessa leva tenha sido O Show de Truman, de 1998, em que o personagem vivido por Jim Carrey descobria que o mundo ao seu redor não passava do cenário de um programa de TV do qual ele era o protagonista involuntário. Mas foi no ano seguinte que essa tendência atingiu o auge, com 13º Andar, eXistenZ de David Cronenberg e, claro, Matrix, que está prestes a gerar sua terceira continuação.

Com direção de Peter Weir e roteiro de Andrew Niccol, que depois teria uma carreira irregular como diretor, O Show de Truman acompanha a vida de Truman Burbank, um pacato cidadão que mora em uma pequena cidade litorânea onde todos se conhecem e cuja vida beira a mais absoluta mediocridade. Até o dia em que o céu literalmente cai sobre sua cabeça, sob a forma de um holofote com o nome de uma estrela escrito numa etiqueta. A partir daí, Truman começa a notar pequenas estranhezas ao seu redor, incongruências que antes passavam despercebidas, e que aos poucos se somam numa grande revelação: a pequena cidade litorânea onde Truman cresceu e viveu toda sua vida é um estúdio de TV construído no interior de um domo, com céus e mar artificiais, e todas as pessoas que convivem com ele, inclusive sua esposa, são atores contratados para desempenhar um papel no reality show definitivo: a vida do homem comum, enfim.

Baseado em Simulacron-3, romance de Daniel F. Galouye publicado originalmente em 1964, 13º Andar talvez seja o único verdadeiro acerto da carreira de Roland Emmerich, mais famoso por filmes-catástrofe espetaculosos e sem substância, como O Dia Depois de Amanhã, Independence Day ou o infame 2012. Talvez porque 13º Andar tenha sido apenas produzido por ele, com a direção a cargo do alemão Josef Rusnak, que adaptou o livro a quatro mãos com Ravel Centeno-Rodriguez. Como no romance original de Galouye, a trama gira em torno do assassinato de um milionário cuja companhia estava desenvolvendo uma realidade simulada por computador. Investigando o assassinato, o protagonista descobre que o mundo em que ele vive, e que supostamente é o nosso, também é uma simulação.

O primeiro Matrix é, naturalmente, o filme que jogou as Irmãs Wachowski, na época ainda Irmãos Wachowski, sob os holofotes. Como em O Show de Truman, o protagonista, Thomas Anderson, é um homem comum, neste caso um programador, que descobre a natureza simulada do que considera ser seu mundo. Mas, diferente de Truman que, como seu nome indica (true man, homem honesto ou verdadeiro), é exatamente o que aparenta ser, Anderson é um hacker, codinome Neo, que encontra um outro grupo de hackers, liderados por Morpheus, que lhe revela que o suposto mundo real é uma matriz ciberespacial gerada por máquinas inteligentes que destruíram o mundo numa guerra contra a humanidade, cujos sobreviventes acabaram escravizados pelos vencedores. E ele, Neo, é o messias que pode derrotar as máquinas e libertar a humanidade.

Esses três filmes são variações da mesma premissa: começam no que supomos ser o mundo real, para depois mostrar que não era. Mas eventualmente, o protagonista de cada um deles acaba encontrando a verdadeira realidade, do lado de fora da simulação.

eXistenZ segue um caminho um pouco diferente. Aqui, começamos no mundo real, um mundo onde game designers são celebridades, terminais de realidade virtual são artefatos biomecânicos, com a característica assinatura de Cronenberg em body horror – de fato, até agora, é o último filme do diretor a exibir essa assinatura –, e existem terroristas que querem barrar essa tecnologia. Allegra Geller está prestes a lançar seu jogo mais recente, eXistenZ, quando o lançamento é invadido por um terrorista que tenta matá-la. Geller escapa, protegida por um segurança, e é só mais tarde que os dois entram no mundo virtual de eXistenZ. Mas, à medida que o filme avança, as barreiras entre os dois mundos começam a ficar cada vez mais confusas e permeáveis, até que, no final, já não sabemos qual é o mundo real e qual o simulado. É por esse motivo que, dos quatro, eXistenZ talvez seja o mais radical. Os outros três colocam em dúvida a realidade do nosso mundo, mas em nenhum momento questionam a existência de uma verdadeira realidade, em algum lugar. Com eXistenZ, é a própria noção de realidade que é colocada em xeque.

De certa forma, o que esses filmes fazem é traduzir, sob a forma de imagens e narrativas, alguns conceitos-chave da filosofia que remontam pelo menos à Alegoria da Caverna platônica, além de ecoar noções como o Véu de Maya no Hinduísmo e no Budismo. Apesar das muitas e importantes diferenças entre essas várias escolas e abordagens, o que elas têm em comum é essa premissa, a de que o mundo das aparências não é o mundo real.

Não foi a primeira vez que essas ideias chegaram ao cinema, muito menos às artes em geral, e autores como Philip K. Dick construíram carreiras inteiras explorando justamente esse tipo de questionamento. De fato, seria possível até definir um subgênero, composto apenas por obras que exploram experiências de desrealização e sensações de irrealidade. Mas nunca tantos filmes sobre a irrealidade do mundo estrearam ao mesmo tempo quanto na virada do século. Havia alguma coisa no ar, uma inquietação no espírito da época, que o cinema captou e projetou na tela.

E por alguma coisa, eu quero dizer a erosão do princípio de realidade, hoje tão evidente que até os memes do Facebook brincam rotineiramente com a Hipótese da Simulação, em alguma de suas muitas formas. Assistimos ao colapso do Patriarcado, que foi a força-motriz da civilização pelo menos desde o final do Neolítico, assim como testemunhamos o colapso do capitalismo, que é seu rebento mais recente e, ao longo dos últimos trezentos anos, colonizou praticamente todos os aspectos da vida, da cultura e da sociedade.

Com esse colapso, desmoronam também os filtros cognitivos através dos quais as pessoas são condicionadas a enxergar e interpretar a realidade. É uma exacerbação ainda mais vertiginosa da situação descrita por Marx e Engels numa das frases mais célebres do Manifesto Comunista: “Todas as relações fixas e cristalizadas, com seu séquito de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são dissolvidas, todas as relações novas tornam-se antiquadas antes de se consolidar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens são por fim forçados a confrontar com sobriedade suas reais condições de vida e suas relações uns com os outros.”

É o que esses quatro filmes têm em comum: de uma forma ou de outra, todos eles retratam um momento em que tudo o que é sólido literalmente desmancha no ar, obrigando seus protagonistas a confrontarem suas reais condições de vida, muito diferentes das que eles imaginavam ser.

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