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O anti-herói, o justiceiro e o psicopata

Com o filme do Coringa, voltamos à discussão do quanto devemos ou podemos torcer por personagens que aparentemente são maus, e até que ponto as coisas que acontecem com você podem justificar certos comportamentos.

Sempre houve personagens que nos atiçaram a curiosidade, nos fizeram flertar com o nosso próprio lado negro e torcer pelo “vilão”, personagens que sofreram coisas similares ao que sofremos no nosso dia a dia (em grau maior ou com problemas mais internos), mas mesmo assim, carismáticos o suficiente e com similaridades o suficiente para que pudéssemos entender essa violência e até mesmo aceitá-la.

As questões sociais não mudaram muito com o passar dos tempos: continuamos com a falta de dinheiro, de estabilidade financeira, emocional, as questões raciais, de gênero. Nossa visão sobre elas é que mudou. Hoje, estas questões estão mais fortes do que nunca e os diferentes lados que brigam têm cada vez mais voz.

Mas um fato permanece. Sempre gostamos do vilão, quando ele é bem trabalhado, quando ele é uma força que realmente coloca medo no protagonista. Vilões bem desenvolvidos não são necessariamente vilões que se tornaram vilões porque a “sociedade” os fez assim. Esse é o maior perigo dos dias de hoje.

Quando criamos “desculpas” para o comportamento do outro, seja por uma infância conturbada, por ter sofrido bullying, por não conseguir emprego, pela crise econômica etc., tiramos a responsabilidade do indivíduo. Isso sim pode ser perigoso.

É onde entra nossa visão de uma obra como Coringa, ou Taxi Driver, Um Dia de Cão, Um Dia de Fúria, Desejo de Matar, Dexter, entre outros… são pessoas que enfrentam lutas com as quais conseguimos nos identificar: “vilões” do mundo “real”. Mas o quanto podemos mergulhar dentro da cabeça de um psicopata, de uma assassino, e sair sem nenhuma marca.

O filme A Cela faz essa viagem: coloca você dentro da mente do serial killer Carl Stargher, interpretado por Vincent D’Onofrio. Nós acompanhamos a jornada pela mente perturbada dele e vemos parte do trauma que o leva a ser esse vil assassino, mas não somos colocados na pele dele, não nos identificamos com ele. O filme não abre essa porta para o espectador, então o vilão continua sendo o vilão. Mesmo com as “desculpas” apresentadas, ele não é perdoado.

Atualmente, há uma glamourização do serial killer, com várias séries, filmes, documentários sobre eles. Se antes os vilões eram para o herói enfrentar, agora são os protagonistas. Será que não existem mais vilões? Até a Malévola agora tem um porquê de ser má. Todos têm suas nuances de cinza. Não sobraram muitos vilões que são apenas maus.

O medo que o filme do Coringa está gerando não é o medo do filme, mas de uma sociedade que não cuida daqueles que mais precisam. O filme segue este caminho. Não justifica as atitudes do personagem, não dá razão para ele, mas representa na tela um sentimento que está cada vez mais vivo nas pessoas: o sentimento de viver em um mundo que não se importa com elas.

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