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A Piada Mortal e o mal-estar na civilização

Batman e Coringa, dois lados da mesma moeda. Desde A Piada Mortal, graphic novel de Alan Moore e Brian Bolland, essa dualidade ficou estabelecida. Mas o que exatamente seria essa moeda? A loucura, reagindo cada um à sua maneira? O status quo, que Batman tenta manter a todo custo, enquanto o Coringa tem prazer em bagunçar? O que está em jogo, afinal, cada vez que esses personagens se enfrentam?

Lida isoladamente, A Piada Mortal funciona como o duelo definitivo entra Batman e Coringa. O vilão resolve atacar o Comissário Gordon para enlouquecê-lo, e assim provar que basta um dia ruim para que qualquer um se torne como ele. Gordon, porém, resiste, e no final Batman acaba capturando o Coringa mais uma vez. Contudo, o herói dessa vez oferece a redenção a seu oponente: se ele se entregar, poderia receber um tratamento adequado e quem sabe até ficar curado de sua doença. O Coringa rejeita a oferta, pois sabe que já atingiu um ponto sem volta. Ele conta então uma piada que faz Batman rir, algo extremamente incomum. A câmera então vai se afastando, focando apenas na chuva e na noite, até que as risadas acabam e as luzes se apagam.

Segundo Grant Morrison, esse final significa que Batman, percebendo que o Coringa não tem cura, entende que não há também cura para ele, e por isso mata seu nêmesis. A vitória então seria do vilão, que finalmente faz o Batman desistir de seus princípios e enlouquecer de vez. A DC tratou de incorporar esses acontecimentos à sua continuidade, e por isso essa leitura acabou ficando despercebida, mas, novamente, se fizermos a leitura isolada da hq, ela faz muito sentido.

Mas aqui é que vem a grande questão: o que exatamente é a vitória do Coringa? Transformar o Batman em outro psicopata? Isso seria uma vitória vazia, porque já se trata de um personagem que age à margem da lei, e se utiliza da violência para conseguir seus objetivos. A única linha que ele não cruza é a de que ele não mata, afinal, trata-se de um super-herói. Todo esse esforço do Coringa seria só para fazer o Batman matá-lo, e assim satisfazer algum desejo suicida? Pouco provável.

Batman é o herói porque ele representa a civilização. Em outras palavras, ele contém seus instintos homicidas, abre mão até de seu desejo sexual, em nome da manutenção da ordem. É a encarnação do que Freud chamava de “Mal-Estar na Civilização”: reprime seus instintos que seriam prejudiciais à vida em sociedade para que esta possa funcionar e trazer felicidade à coletividade, mas, ao mesmo tempo, sente-se infeliz por manter a constante repressão desses desejos.

É uma situação paradoxal, e o Coringa apresenta uma chance de encerrar esse paradoxo. Isto porque o vilão simboliza o rompimento com o superego, e com ele varre todo sentimento de culpa ou remorso de se fazer apenas o que lhe dá prazer. O que “enlouquece” o Coringa é perceber que será sempre um “fracassado”, ou seja, por mais que ele siga pelas regras civilizatórias, reprimindo-se, não obterá a felicidade que a civilização promete. Desta forma, deixa fluir sem freio seus instintos e vive apenas para obter prazer, não havendo nenhum ato que seja hediondo o bastante para fazê-lo mudar de ideia.

A vitória do Coringa, então, é fazer com que o Batman abandone o pacto civilizatório e se entregue a seus instintos. E este talvez seja o grande desafio com que todos nós nos deparamos desde sempre, mas especialmente desde os anos 80, justamente a época em que a hq foi publicada pela primeira vez.

Foi nessa época que começou a ascensão de uma certa vertente do capitalismo que prega basicamente a lei do mais forte, onde o darwinismo social e a busca do lucro a qualquer preço encontra defesa no discurso ideológico dominante. Se depois da Segunda Guerra Mundial o pensamento capitalista entendeu que deveria haver certa redistribuição dos lucros por meio dos serviços prestados pelo Estado – o chamado Estado de Bem-estar social – em algum momento tal pretensão foi abandonada, e o que se passou a defender foi uma espécie de cada um por si tanto na economia quanto nas relações sociais.

O desequilíbrio social que tais políticas geraram, com uma concentração de renda cada vez maior em nível mundial, fizeram com que parte da sociedade não visse mais sentido em manter o pacto civilizatório. Por que eles continuariam a reprimir seus instintos, se a prometida felicidade não vem? Por que reprimir seus instintos homicidas se são vítimas de violência? Por que reprimir seus instintos sexuais se não vão conseguir “arranjar uma namorada”?

Olhando pro mundo ao redor, parece que todo mundo enlouqueceu. Ninguém tem mais vergonha de falar coisas repulsivas ou preconceituosas? De defender tortura e violência indiscriminada? Dos líderes políticos ao guarda da esquina, passando pelos almoços de família que nunca mais foram os mesmos, ninguém parece mais se entender. O superego parece ter aberto mão de gerar culpa e remorso, e, aos poucos, o ego vai se sentindo cada vez mais à vontade para agir como uma criança sem freios. E todo tipo de crueldade vai virando piada ou gozo para quem não a sofre.

O custo para viver em civilização é esse eterno mal-estar. Se todos decidem romper com o paradoxo civilizatório, a própria existência de uma civilização corre risco, e com ela a própria sobrevivência da humanidade. Literalmente. À medida que nos destruímos e destruímos o meio ambiente, nossas chances de se perpetuar como espécie diminuem. Mas se há dúvidas quanto ao nosso futuro, há também certeza de que, no nosso presente, quem está lucrando com essa situação está rindo disso tudo. E uma boa parte dos que não lucram estão rindo também, achando que fazem parte da plateia. Será que um dia perceberão que sua morte é a verdadeira piada?

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