Filmes

Bonecos malditos do cinema

O horror sempre soube como provocar medo através de objetos pequenos e supostamente inofensivos. Quem nunca sentiu aquele desconforto de dormir com a silhueta de macabra de bonecos e bonecas nos olhando das sombras? Quem nunca se perguntou: o que os bonecos fazem quando ninguém está olhando pra eles?

Muitos cineastas, especialmente do terror, já tentaram imaginar respostas para esta pergunta. Eles tentam brincar com a ideia de que os brinquedos são parte de um passado distante, uma época ultrapassada, que continua parte do imaginário, assombrando-nos, mexendo com nossa nostalgia, com nossos apegos às tradições. Os bonecos já não têm o mesmo apelo popular ou infantil de décadas atrás. Mas eles ainda servem para nos lembrar que não devemos ser tão indiferentes àquilo que passou, porque o que está no passado sempre tem alguma história pra contar. Pensando nisso, deixo abaixo sete filmes de bonecos malditos que merecem ser vistos.


Um Passe de Mágica

Bonecos Malditos

Baseado no livro homônimo de William Goldman, é dirigido por Richard Attenborough, que vinha de três filmes de guerra ~e que anos depois veríamos como Hammond em Jurassic Park. Attenborough escolheu para sua quarta obra um terror psicológico e trouxe um jovem Anthony Hopkins como personagem principal. Goldman escreveu o roteiro sobre um ventríloquo tímido e talentoso chamado Corky, que tenta recuperar o amor de sua vida, mas esconde sua personalidade atrás de seu boneco, Fats. Aos poucos, o boneco vai assumindo o controle, levando o ventríloquo à loucura. A trama é bem absurda, mas é esse clima de alucinação que torna o filme arrepiante. Fats é um boneco bizarro, com um visual desagradável, bem aquela estética de terror dos anos 1970, e ajuda o fato de que o próprio Hopkins faz a voz dele. Uma curiosidade é que a construção de Fats é tão perturbadora que, na época da estreia do filme, o trailer foi retirado do ar na televisão norte-americana, logo após ser lançado, porque estava causando pesadelos nas crianças. Um boneco maldito, sem dúvidas.

(Magic, 1978)


Bonecas Macabras

Bonecos Malditos

É um filme razoavelmente curto, com 1 horinha e 17 minutos. E mesmo com esse pouco de tempo, Stuart Gordon faz mais do que muitos cineastas de terror por aí. A história é basicona: uma tempestade deixa um grupo de estranhos preso na casa de um casal de fabricantes de brinquedos, que, obviamente, têm uma horda de bonecos macabros prontos pra matar todo mundo. O filme é rápido, mas cria seu clima de suspense tranquilamente, de uma maneira até alegre por seu pano de fundo de “brincadeira com bonecos”, o que é curioso considerando que se trata de um filme de terror. Gordon constrói tensão com momentos de silêncio e diálogos pontuais e, aos poucos, as mortes vão acontecendo. Mas ele não fica focado na questão de matar as vítimas, como muitos filmes do gênero. É um filme estranho e sanguinolento, com um tipo de terror mais baseado em efeitos práticos, algo que era mais comum nos anos 1980 e que às vezes sinto falta nos filmes de hoje em dia, inclusive nesses filmes da Annabelle. Se você quer ver um filme raiz de bonecos malditos, esse é o filme! E de bônus ainda tem um monte de mortes bizarras pra quem gosta de um gore.

(Dolls, 1987)


Brinquedo Assassino

Bonecos Malditos

Esse é clássico! Chucky é um dos ícones do terror. O filme, que depois se tornou uma longa franquia, transformou o boneco em um personagem cultuado pelos fãs do gênero. O primeirão, de 1988, lançou Chucky para o mundo: o boneco possuído pelo espírito do assassino em série conhecido como o “Estrangulador de Lakeshore”. O boneco ganha vida e logo se torna um psicopata no melhor estilo slasher. O primeiro filme tem um tom mais sombrio e é o pontapé na lenda. É no segundo filme, de 1990, que Chucky assume o tom mais cômico pelo qual acabou ficando conhecido, carregado de humor negro, apesar de ser mais violento que o primeiro. Brinquedo Assassino 2 não leva os clichês do terror muito à sério e dá um tom mais caricato à história, focando-se na guerra entre Chucky e Andy. Na verdade, somos sempre lembrados de que estamos numa brincadeira maléfica. Talvez por isso, Chucky tenha se tornado um dos bonecos mais assustadores do cinema. Assim como aconteceu com vários personagens do gênero, como Jason e Freddy Krueger, ele apareceu em várias continuações e foi ficando mais e mais absurdo em cada uma delas. E assim como os outros, ganhou um remake/reboot que substituiu o tom sobrenatural de Chucky por questões tecnológicas – o Brinquedo Assassino de 2019 lembra mais um episódio de Black Mirror do que um filme do Chucky; é legalzinho, mas se puder, procure também os dois primeiros originais e veja, porque sempre vale a pena conhecer a obra original.

(Child’s Play, 1988)


Bonecos Malditos

Uma curiosidade: se você cresceu nos anos 1980 e começo dos 1990, você certamente se lembra de uma das lendas urbanas mais sensacionais da época e que até hoje muita gente ainda discute: a lenda do boneco Fofão. Se você não viveu esta época, pelo menos já deve ter ouvido falar a respeito. Há três razões para a chamada “maldição do Fofão” ter crescido tanto: um homem chamado Deusenir Pietro, a já famosa boneca da Xuxa e o filme Brinquedo Assassino. Pietro conta em uma matéria da Superinteressante que o boneco era preenchido com isopor e precisava de algo para dar estabilidade; por isso, ele colocou uma haste preta que fixava a cabeça ao corpo, que se parecia com uma faca. A haste era pontiaguda, mas não era perigosa nem cortante. Só que vista de relance, ou no escuro, ou em situações de se ver apenas a silhueta, dava a impressão de que era uma faca. O Fofão fez muito sucesso na época e uma rádio do Norte ou Nordeste comentou sobre “a faca dentro do Fofão”, associando a outra história que já existia: da boneca da Xuxa que era amaldiçoada (porque a Xuxa tinha pacto com o Diabo). Aí, pronto, a “maldição do Fofão” caiu na boca do povo, especialmente da criançada. Pais começaram a abrir o boneco, muitas crianças (e adultos) ficaram impressionados, e muita gente jogou o boneco fora achando que era um “boneco do demônio”. Eu me lembro bem dessa época e das conversas divertidas nas rodas de amiguinhos por causa disso. Além de todas estas lendas, você ainda tinha os filmes do Chucky segurando uma faca passando livremente na TV aberta. O resultado? Pessoas histéricas e enlouquecidas.


Puppet Master

Bonecos Malditos

Esse filme fez muito parte da minha infância! Não é um filme espetacular, mas é um filme que eu particularmente adoro. Chama-se originalmente Puppet Master, e aqui no Brasil você encontra com o nome Bonecos da Morte; mas quando eu era criança, passava com o nome de Mestre das Marionetes, o que às vezes causava confusão porque existiam outros filmes com esse nome na época ~anos 90, né! Passava muito no Cinema em Casa do SBT. O filme é sobre um grupo de paranormais que investigam a história de um cientista louco nazista e acabam deparando-se com as criações macabras dele: um bando de bonecos maníacos. É tão tosco quanto parece, um filme B, bastante B, com um jeitão trash de filme feito para homevideo, o que provavelmente ajudou a tornar a galhofa maior. É divertido acompanhar a matança desses bonecos bizarros. Há uma boneca que cospe sanguessuga pela boca; outro que sempre anda com facas e lâminas, chamado Blade; e outro que tem uma cabeça minúscula chamado Pinhead (sim, o mesmo nome do Hellraiser). O criador, Charles Band, transformou Puppet Master em uma longa franquia que continua sendo produzida até hoje, com mais de dez filmes, incluindo prequels, spinoffs e até um reboot que saiu em 2018 (e passou batido). Toda a franquia tem um clima de filme B de terror com boas doses de terrir, mas o primeiro filme ainda é o que mais vale a pena.

(Puppet Master, 1989)


Jogos Mortais

Bonecos Malditos

Como em um bom quebra-cabeça, somos enganados desde o início pela estranha figura do um boneco maligno chamado Jigsaw. Ele aparece em um vídeo gravado para as vítimas de seu jogo, mas é, na verdade, um avatar para o assassino chamado de “Jigsaw Killer” interpretado por Tobin Bell. O boneco, inevitavelmente, tornou-se o símbolo de Jogos Mortais e de toda a franquia de filmes que se seguiu após o sucesso do primeiro. Já é um dos grandes ícones do cinema de terror! O nome “Jigsaw” foi dado pelos meios de comunicação ao assassino por causa da forma como ele mata: cortando as pessoas que falham em seus testes como peças de quebra-cabeça. Com o passar do tempo e das continuações, o boneco foi perdendo tempo de tela, uma vez que o próprio Tobin Bell começou a ganhar mais destaque nos filmes.

(Saw, 2004)


Gritos Mortais

Bonecos Malditos

“Cuidado ao olhar para Mary Shaw. Ela não tinha filhos, apenas bonecas. Se você a encontrar em seus sonhos, certifique-se de nunca gritar, pois ela pode cortar a sua língua.” Essa é a premissa do filme de boneco maldito que é dirigido por ninguém menos que James Wan pouco depois de seu sucesso com Jogos Mortais e pouco antes de seu sucesso com Invocação do Mal. A história é sobre uma mulher, Mary Shaw, que fica obcecada com bonecas e tenta criar o modelo perfeito de um boneco de ventriloquismo. Ela acaba se tornando uma espécie de pária na cidade de Raven’s Fair, de onde vem esse poema sombrio que dá início ao texto e é citado no filme. São vários bonecos bizarros, mas a obsessão de Mary Shaw dá origem a Billy, que é o boneco principal e que mostra certa semelhança com o Fats do supracitado Um Passe de Mágica (certamente Wan usou de inspiração). Mas também há muitas coisas de Gritos Mortais que, anos depois, James Wan viria a aproveitar para sua Annabelle ~sim, James Wan tem uma coisa com bonecos! Billy já faz sua aparição na primeira cena, com uma apresentação sinistra para o que virá a seguir. Apesar de ser um bom terror, é um filme pouco falado ou lembrado do diretor. Mas se você procura por uma história de bonecos malditos, você precisa conhecer Billy e sua estranha criadora, Mary Shaw. Só certifique-se de nunca gritar.

(Dead Silence, 2007)


Annabelle: A Criação do Mal

Bonecos Malditos

Em 2013, com Invocação do Mal, James Wan deu novo fôlego ao mito da boneca amaldiçoada com a história da Annabelle. Baseado nas investigações paranormais até então obscuras do casal Ed e Lorraine Warren, o diretor nos apresentou a boneca, sem explorá-la tão a fundo, porque o objetivo do primeiro filme era outro. A franquia acabou fazendo um sucesso estrondoso, meio inesperado até, visto que na época da estreia do primeiro filme grande parte da publicidade veio do boca a boca dos fãs, e Annabelle ganhou um destaque especial no imaginário popular. De lá pra cá, três filmes derivados saíram focados na boneca: sendo o segundo, Annabelle: A Criação do Mal, o melhor até agora. Lançado em 2017, conta a origem de Annabelle e como ela se tornou essa entidade demoníaca e mal-assombrada. A boneca continua aparecendo nos filmes de Invocação do Mal ~cara, ela apareceu até em Aquaman hahaha e é certamente uma das responsáveis por ter trazido “sangue novo” para o cinema de terror, já que muita gente começou a gostar de terror com a onda que veio depois de Invocação do Mal e Annabelle (até então, o terror era mais de nicho, não tinha o alcance que tem hoje, e digo isso pelo minha experiência mesmo com prés de terror: elas sempre têm um nível frenético de empolgação). Se for parar pra ver (ou rever) os filmes da franquia, recomendo Annabelle: A Criação do Mal ~e os Invocação do Mal também, claro. Mas como isso aqui é sobre bonecos malditos, fiquemos com a Annabelle.

(Annabelle: Creation, 2017)

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