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Todas as pessoas da Terra: os dez anos de The Egg, de Andy Weir

Todas as Pessoas da Terra: Os Dez Anos de The Egg, de Andy Weir

“A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem de destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas.”

–– Hermann Hesse, Demian.

Andy Weir é mais conhecido como autor de O Marciano (O Marciano), romance que ele autopublicou pela Amazon, e lhe valeu um contrato e a reedição do livro pela prestigiosa Random House, bem como uma adaptação cinematográfica capitaneada por Ridley Scott em 2015, num de seus raros acertos como diretor na última década, com Matt Damon no papel principal.

Mas o primeiro grande sucesso de Weir foi o conto “The Egg”, publicado em setembro de 2009 no site do autor e que, com sua intrigante premissa, viralizou pelo mundo todo, ganhando traduções para mais de trinta línguas, inclusive o português.

O conto acaba de completar dez anos e, para comemorar, a equipe do estúdio alemão Kurzgesagt, adaptou o conto no charmoso estilo das animações de divulgação científica periodicamente postados em seu canal no Youtube:

Sugiro que você leia o conto ou veja o vídeo antes de prosseguir, porque daqui para baixo, vamos discutir a história em detalhes que, desnecessário dizer, vão estar cheios de spoilers.

A primeira coisa que chama a atenção em “The Egg” é que seu estilo é não só completamente diferente, mas diametralmente oposto aos dois romances do autor. Tanto The Martian quanto seu segundo livro, Artemis, são obras da mais pura ficção científica hard, com páginas e páginas de explicações técnicas, garantindo a acurácia e a verossimilhança científica de cada elemento.

The Martian é sobre um astronauta terrestre que fica preso na superfície de Marte, e precisa usar sua engenhosidade e conhecimentos científicos para sobreviver até chegar uma missão de resgate. E Artemis é uma história de golpe (heist) na primeira colônia humana na Lua.

Já “The Egg” é um conto místico-filosófico sobre um homem que morre e encontra Deus.

Mais ou menos.

O conto é, inclusive, narrado na segunda pessoa, pelo próprio Deus.

Mais ou menos.

Você olhou em volta. Não havia nada. Só eu e você. “Que lugar é esse?”, você perguntou. “Isso é o além?”

“Mais ou menos”, eu disse.

“Você é Deus?”, você perguntou.

“Isso aí”, respondi. “Eu sou Deus.”[1]

Mais tarde, descobriremos que seria mais adequado dizer que o narrador é um Deus:

“Eu venho de algum lugar. Um lugar diferente. Existem outros como eu. Sei que você quer saber como é lá mas, honestamente, você não ia entender.”

E mais tarde ainda, descobriremos que o destino do narrador é evoluir até eventualmente se tornar um ser como o Deus que fala com ele, e com o qual ele descobre ter um tipo muito especial de relação:

“Porque algum dia, você será como eu. Porque é isso que você é. Você é um dos meus. Você é meu filho.”

“Nossa”, você disse, incrédulo. “Quer dizer que sou um Deus?”

“Não, ainda não. Você um feto. Ainda está crescendo. Quando tiver vivido todas as vidas humanas em todas as eras, você terá crescido o suficiente para nascer.”

Mas não é isso que torna o conto tão fantástico, no pun intended, e sim a visão extremamente original que ele apresenta sobre o sentido da vida e, nas palavras do próprio Deus, o “motivo pelo qual eu criei todo o (…) universo”. Como escreveu Shana E. Hadi no The Stanford Daily:

O mais sutilmente brilhante neste trabalho parece ser sua capacidade de alicerçar uma visão tão interessante para uma questão profunda. Em sua limitada quantidade de espaço, Weir aponta para a retenção de uma identidade própria, mesmo ao longo de diferentes vidas, bem como um comentário sobre as regras arbitrárias da realidade. Ele realiza várias tarefas ao mesmo tempo, inspirando os leitores a considerar a visão assumidamente solipsista de que talvez todas as suas ações altruístas tenham beneficiado tecnicamente uma versão delas mesmas.

Narrada com simplicidade – é, essencialmente, um diálogo entre o morto e Deus, ou melhor, entre Deus e o morto, com praticamente nenhuma descrição além de dizer que não havia nada no lugar, e que Deus parece, em Suas próprias palavras, “um homem qualquer. Possivelmente uma mulher. Uma vaga figura de autoridade, talvez” –, a história acertadamente aposta todas as suas fichas na premissa. Nesse sentido, sim, tem algo em comum com os dois romances de Weir e com toda boa ficção científica que, afinal, é fundamentalmente uma literatura de ideias. A diferença é que a ideia aqui não é de cunho científico, mas metafísico. E nesse âmbito, ela é nada menos que extraordinária:

“Eu fiz todo esse universo para você. Para que em cada nova vida você cresça, amadureça e se torne um intelecto maior.”

“Só eu? E as outras pessoas?”

“Não há mais ninguém,” disse eu. “Nesse universo, só existem você e eu.”

Você me olhou com um olhar vazio. “Mas e todas as pessoas da Terra…”

“Todos são você. Diferentes encarnações de você.”

À medida que a ficha cai para o protagonista, ele se dá conta de que isso significa que foi Abraham Lincoln, mas também o assassino de Lincoln, foi Hitler, bem como cada uma dos milhões de vítimas de Hitler, foi Jesus e seus seguidores, e assim por diante.

O conto é uma variação engenhosa de uma premissa comum à maioria das religiões, apesar de mais destacada nas orientais (como o próprio Deus admite, “[t]odas as religiões estão certas de alguma forma”) – a de que, fundamentalmente, somos todos Um. Em apenas duas páginas, escritas em pouco mais de uma hora, Weir apresenta um argumento capaz de justificar essa premissa de um modo simples, que soa verossímil e, ao mesmo tempo, é de pirar o cabeção quando paramos para pensar nas implicações.

De quebra, se levarmos o argumento a sério, ele tem o potencial para amarrar várias pontas que os modelos tradicionais de reencarnação não conseguem. Por exemplo, por que tantas pessoas “lembram” ter sido Helena de Tróia, Napoleão ou Jesus Cristo em outras vidas? Se o Deus de Weir estiver falando a verdade, é porque elas são. Todas elas. Afinal, cada uma delas é a diferente iteração de uma mesma consciência. Ao mesmo tempo, nenhuma delas é capaz de conter a totalidade dessa consciência:

Sua alma é mais magnífica, linda e gigantesca do que você pode imaginar. Sua mente humana consegue entender apenas uma pequena fração do que você é. É como colocar o seu dedo em um copo de vidro e ver se está quente ou frio. Você coloca uma pequena parte de você em jogo, e quando tira, você percebe que aprendeu tudo que podia por lá.

Isso porque, o conto deixa implícito, a consciência totalmente amadurecida existe fora do tempo linear. Afinal, e disse Deus: “Tempo, da forma como você conhece, só existe no seu universo. As coisas funcionam de outro jeito de onde eu venho.” Podemos presumir, ainda que o conto não o afirme com todas as letras, que a consciência total é a soma, e talvez mais do que a soma, de todos os aspectos parciais que se expressam em cada uma de suas encarnações individuais.

Mas, por mais sedutora e plausível que seja essa visão, ela teria alguma verossimilhança, para além das páginas de um conto curto? Digamos que algum leitor queira adotá-la como parte de sua visão de mundo, haveria alguma base para isso?

Sim e não.

Para início de conversa, claro, no que se refere a visões de mundo, ela não é mais absurda do que outras que as pessoas aceitam rotineiramente e é, de fato, menos absurda do que várias que circulam pelo mercado de pulgas das crenças – taí o terraplanismo, que não me deixa mentir.

O fato de uma ideia metafísica ter se originado em um conto não deveria, em princípio, ser um impedimento para considerá-la seriamente. O poeta inglês William Blake dizia, inclusive, que todas as religiões começaram como arte, como poesia, e se perderam quando esqueceram que as ideias religiosas são simplesmente o resultado da imaginação explorando suas próprias possibilidades. E temos cada vez mais certeza de pelo menos um dos elementos sobre os quais a premissa se apoia, a saber, de que o tempo não existe exatamente da maneira como o percebemos.

No conto de Weir, é a natureza não-linear do tempo que permite ao protagonista encarnar primeiro como um homem nos dias de hoje, que morre num acidente aos 48 anos, e depois reencarnar como uma chinesa que viveu no ano 540 d.C. E a natureza não linear do tempo é uma das consequências diretas da Teoria da Relatividade Geral de Einstein, segundo o qual “a linha divisória entre passado, presente e futuro é uma ilusão”. Esse conceito é conhecido entre os físicos como Tempo Blocado e, em resumo, significa que todos os pontos do continuum existem simultaneamente no tempo e no espaço.

Claro que vai uma grande distância entre o Tempo Blocado e a noção de que todos nós somos diferentes formas de uma consciência única reencarnando para a frente e para trás no tempo. Mas mesmo para isso, existe uma analogia direta na física e, embora eu não tenha encontrado nenhuma citação confirmando isso, tenho certeza absoluta que foi essa analogia que inspirou o conto de Weir.

É um modelo proposto na década de 1940 pelo físico John Wheeler, um dos pioneiros da Mecânica Quântica, durante uma conversa telefônica com outro gigante da física, Richard Feynman, criador da Eletrodinâmica Quântica. O modelo é conhecido entre os físicos como “One-Electron Universe“, o Universo de Um Só Elétron. Feynman recorda:

Um dia, na faculdade de graduação de Princeton, eu recebi um telefonema do Professor Wheeler que dizia: “Feynman, eu sei por que todos os elétrons têm a mesma carga e a mesma massa.” “Por quê?” “Porque eles são todos o mesmo elétron!”

O ponto de partida da hipótese é a distinção entre matéria e antimatéria. Cada partícula tem sua antipartícula, com a mesma massa e carga elétrica oposta, e a antipartícula do elétron é o pósitron (aquele que Asimov usou como a base dos cérebros positrônicos em seus contos sobre robôs). Acontece que, matematicamente, não existe diferença entre dizer que um pósitron é um elétron com carga positiva e dizer que um pósitron é um elétron que se desloca para trás no tempo. A partir daí, Wheeler especulou que talvez todos os elétrons e pósitrons do universo sejam um único elétron, indo e voltando no tempo, e interagindo consigo mesmo, exatamente como a consciência em “The Egg”.

Não que Wheeler (ou Feynman) acreditassem realmente no One-Electron Universe. Ambos faziam parte de uma cepa de cientistas cada vez mais rara, visionários que sentem um prazer especial em pegar um conceito e levá-lo às últimas consequências, a mesma coisa que Blake dizia que era a função poética das religiões antes de se calcificarem. E é isso que o conto de Andy Weir nos convida a fazer.

Mesmo se a visão de mundo que ele apresenta não for literalmente verdadeira, é uma alegoria danada de boa para algo de que precisamos desesperadamente, hoje ainda mais do que quando o conto foi publicado, dez anos atrás: empatia. A percepção de que, de uma forma ou de outra, tudo o que fazemos de bom e de ruim para os demais, é como se fizéssemos a nós mesmos. Ou, para citar uma tradução alternativa, mais fiel, da frase mais importante de uma das encarnações do protagonista do conto: “Amar a Deus em todas as coisas, e ao próximo que é tu mesmo.”

Philip K. Dick, o grande mestre das história de pirar o cabeção, ficaria orgulhoso com “The Egg” – e, ao mesmo tempo, morreria de inveja por não ter pensado nisso primeiro.

Eu fiquei.

Mas até aí, Philip K. Dick é Andy Weir, que sou eu, assim como cada um de nós é cada pessoa que já existiu, existe ou existirá dentro deste ovo, até que consigamos romper sua casca.

E nascer.

[1] Cito a tradução do próprio site do autor, feita por Carlos Buosi, mas ligeiramente modificada para corrigir pequenos erros ou por razões de eufonia.

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