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Era uma vez… Quentin Tarantino. Parte 2

Reticências: 1. Omissão voluntária do que se podia dizer. 2. Atitude de hesitação ou reserva em relação a algo. 3. Conjunto de três pontos seguidos que constituem um sinal de pontuação que indica suspensão do discurso ou do pensamento.

Vamos para a segunda parte do texto sobre Era uma Vez… em Hollywood (2019), agora com um review propriamente dito. A primeira parte do texto era um ensaio livre, um preâmbulo a respeito de Quentin Tarantino e dos temas mais recorrentes em seus filmes. Ainda que muito do que se tenha discutido na primeira parte se mantenha, o diretor não deixa de surpreender. O que me leva a crer que, na verdade, um review que seja mais uma mesa redonda entre alguns autores é mais interessante do que um review de uma única pessoa. Assim, vou chamar alguns autores e mediar uma conversa entre eles nesse review. Em algum momento, farei intervenções, de forma a manter o texto em sua linha guia de cultura pop.

Roger Ebert, em seu livro A Magia do Cinema (2004), quando se refere ao cineasta Douglas Sirk, afirma que, para apreciar seus filmes, é necessário certa sofisticação, até maior do que a necessária, para compreender os filmes realizados por Ingmar Bergman. Douglas Sirk, em pleno anos 1950, realizava em seus filmes uma crítica à sociedade norte-americana e os transformava em sucessos de bilheteria para a Universal Pictures. Tal resultado se dava porque, para Ebert, Sirk era um mestre em camuflar a mensagem através do seu estilo. Da mesma forma, assim opera Quentin Tarantino em Era uma Vez… em Hollywood, que entrega até o momento sua terceira melhor bilheteria em solo americano, atrás apenas de Django Livre (2012) e Bastardos Inglórios (2009).

O filme se passa em 1969, centrando sua atenção, em termos aparentes, no astro de TV Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e seu dublê Cliff Bott (Brad Pitt). Rick Dalton tenta acompanhar as mudanças em sua carreira em Hollywood, especialmente decorrentes pelo crescimento da TV em lares norte-americanos, que o obrigam a realizar participações especiais como o vilão em séries de Westerns. Bott é seu braço-direito, dublê, motorista e faz-tudo. Praticamente uma babá de Dalton, com DiCaprio entregando uma bela atuação que satiriza os homens infantilizados que se recusam a crescer e enxergar uma mulher como uma igual. Tanto o é que a única pessoa do sexo feminino com quem Dalton trava um diálogo mínimo, de igual para igual, demonstrando compreensão mútua, é com uma jovem colega de set, Trudi, de 10 anos.

Mas, se Rick Dalton é uma crítica suave, Cliff Bott é uma crítica ácida ao macho adulto branco, um personagem frio, perverso, racista, misógino e que se mantém livre da lei, apesar da suspeição sobre um crime. Não gostaria de entrar em detalhes, mas é importante, para compreender melhor a mensagem desse nono filme de Quentin Tarantino, prestar atenção às rimas visuais. Em especial as rimas existentes entre as cenas de lutas. Elas dizem muito sobre as motivações dos personagens, sobre como enxergam o outro, sobre quem são na realidade. E uma importante cena de luta, de um filme dentro de outro filme, está presente naquele que é o momento síntese do filme. Um momento que demonstra como Hollywood se perpetuou por anos e anos através do rebaixamento das figuras femininas e de outras etnias que não sejam as brancas.

A cena se dá quando Sharon Tate (Margot Robbie) vai assistir ao seu filme mais recente, The Wrecking Crew (1968) nos cinemas. Você tem três ações acontecendo ao mesmo tempo: a ação metalinguística do filme dentro de outro filme, a reação da plateia ao filme e a ação de Tate, em meio a esse diálogo entre o público e o filme. A um certo envaidecimento de Tate diante das risadas e do aceitamento do que é visto em tela. Nesse filme assistido por Tate, em que ela mesma participa, vemos uma figura feminina valorizada por sua beleza, subalternizada, até mesmo ridicularizada diante do protagonista masculino principal. Vemos também cenas de uma luta entre uma mulher branca, a própria Tate, contra uma mulher oriental aparentemente vilanizada e estereotipada. Ironicamente, descobrimos em flashback, como se deu o preparo de Tate para a cena em questão. São elementos dispostos por Quentin Tarantino de forma a demonstrar como Holllywood é uma indústria com base nesses estereótipos e preconceitos raciais e de gênero. E como a plateia norte-americana se deleita e ri desses mesmos estereótipos.

Outro ponto interessante, adentrando na caracterização de Tate por Tarantino, é que The Wrecking Crew (1968) estreou nos cinemas mundiais em fevereiro de 1969. Sharon Tate foi assassinada em agosto de 1969, grávida de pouco mais de 8 meses. Ou seja, na cena em questão, com ela se vendo em tela, Sharon Tate estava grávida. O olhar de Tarantino não é de um diretor voyeur sobre Sharon Tate. A câmera opta por enxergá-la como uma mãe durante todo o filme. Reduzir a personagem a um apelo sexual seria um equívoco ao qual o diretor ousa não cair. O corpo da personagem Sharon Tate não é objeto de desejo. O que interessa a Tarantino é a maternidade em Sharon Tate. A maternidade vilipendiada pela indústria americana e por Charles Manson e seus seguidores. E a maternidade é um tema caro a Quentin Tarantino. Kill Bill: Volume 1 (2003) e Kill Bill: Volume 2 (2004) são filmes sobre uma mãe e sua luta por salvar sua filha das garras do ardiloso Bill, que se apresenta sádico logo na cena inicial do primeiro filme, deixando uma mãe grávida, abatida, à beira da morte. Além disso, um dos episódios da série de TV ER / Plantão Médico (1994-2009), dirigido por Quentin Tarantino, chama-se exatamente “Motherhood”.

Tarantino foi convidado para dirigir o episódio através de George Clooney quando ambos trabalharam juntos em Um Drink no Inferno (1996) como os irmãos Gecko. O episódio tem o roteiro escrito por outra pessoa, Lydia Woodward, porém, em sua direção, ele imprime suas características habituais relacionadas a estética da violência, ainda que para uma audiência em TV aberta, e, pela primeira vez, tem a oportunidade de trabalhar com a temática da maternidade, ainda que diluída por todo episódio, mas que viria a se repetir tanto em Kill Bill: Volume 1 e Kill Bill: Volume 2 quanto em Era uma Vez… em Hollywood.

Outro autor que chamo para a conversa é o próprio diretor. Quentin Tarantino mantém um cinema chamado New Beverly Cinema. Um cinema histórico da região de Los Angeles, que remonta aos anos 1920, mas adquirido por Tarantino nos anos 2000 para impedir que o funcionamento do cinema fosse descontinuado; desde então, ele é geralmente responsável por sua programação e, além do cinema, há um blog para divulgação do espaço e de textos a respeito de cinema. Alguns textos de Tarantino sobre cinema estão disponíveis para quem se interessar. Um dos mais interessantes dele, e que pode nos ajudar a compreender suas intenções em Era uma Vez… em Hollywood, diz respeito ao filme Ulzana’s Raid (1972). O link para esse texto estará nas referências.

Tarantino, nesse artigo, demonstra a importância de um olhar mais crítico sobre a velha guarda cinematográfica que ganhou o status de autor graças à revista francesa Cahiers du Cinema. O artigo aponta para um não endeusamento de diretores como John Ford e Alfred Hitchcock, pondo em cheque que certos grupos de diretores os sigam sem questionamentos, como feito pelo grupo de diretores conhecidos como Movie Brats (Coppola, Bogdanovich, Scorsese, Spielberg, Lucas, Milius e Schrader).

Tarantino, ao contrário, valoriza diretores antissistema, conhecidos como The Post Sixties Anti-Establishment Auteurs: Altman, Rafelson, Penn, Perry, Ashby, Schatzberg e Cassavetes. Para ele, esses diretores, ao verem uma obra de John Ford, “não viam um homem em conflito tentando encontrar seu lugar na sociedade em que tinha vivido sua juventude. Eles assistiam a um filme sobre um bastardo racista que odeia índios e que, por fim, é absolvido pela comunidade grata (isto é, a Sociedade Branca).” Para Tarantino, os filmes de John Ford não são apenas sobre o “modo de vida americano” ou sobre uma sociedade civilizada. Esses termos escamoteiam a valorização apenas de uma Sociedade Branca. Segundo ele, o público americano (branco) não apenas não se importava, como, na maior parte do tempo, concordava com esse preconceito racial.

Dessa forma, o filme Era uma Vez… em Hollywood, por ter consciência do racismo de protagonistas brancos e do racismo de boa parte do público de cinema, tenta subverter esse protagonismo branco e pode ser compreendido como uma crítica à indústria Hollywood como um todo. Não apenas uma crítica à Hollywood de 1969, mas entendendo 1969 como um ponto de efervescência de preconceito racial e misoginia que continuou nas décadas seguintes e se perpetua até os dias atuais. Reparem nas formas como os mexicanos e os asiáticos são citados e compreendidos pelos personagens brancos, em especial Rick Dalton ou Cliff Bott. Sempre à margem, sempre condicionados a um entendimento branco, sempre enxergados com desrespeito ou como subcultura pelos personagens de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt. A ausência de negros durante todo o filme rima diretamente com a ausência de negros na indústria durante esse período. Essa ausência de atores e personagens negros não é um endosso. É uma crítica.

O que pode ser importante para compreender a opção de Quentin Tarantino na forma como retrata Charles Manson e seus seguidores. O que posso apenas afirmar é que são personagens que, definitivamente, não entrarão na galeria de maiores personagens da filmografia de Tarantino. O que é ótimo. Porque o diretor se preocupa em não reificar esses personagens e nem suas atitudes. Nem mesmo suas motivações reais. Porque toda a motivação real da Família Manson encontra outra abordagem em Quentin Tarantino. Gosto de compreender esse filme como uma visão do diretor comprometida em respeitar os alvos diretos do crime: a figura feminina e a comunidade negra.

Melancólico, Anti-Tarantino e Político. Assim é Era uma Vez… em Hollywood. Melancólico porque se ao mesmo tempo que o diretor fala de Hollywood como celeiro de sonhos, também a reconhece como espaço de perpetuação de preconceitos raciais e de gênero. Anti-Tarantino porque, por mais que o diretor preserve sua estética habitual, ele a trabalha com mais cuidado, não deixando seus diálogos sobrepujarem a interpretação dos atores e nem a violência se apoderar de toda a história. Político porque o ano em que se passa o filme, 1969, rima diretamente com o momento de recrudescimento da extrema-direita mundialmente em 2019.

Propositadamente ou não, 1969 também é o ano de lançamento de Sem Destino (1969), filme dirigido por Dennis Hopper. Em Hollywood, há dois momentos em que a indústria cinematográfica enxerga o cinema independente como fonte de lucro ou de ideias: 1969, com o filme de Hopper, que alimenta os diretores-autores do Movie Brat. E, em um segundo momento, em 1994, com o grande sucesso de Pulp Fiction (1994), parceria de Quentin Tarantino com o produtor Harvey Weinstein. Para uma melhor compreensão desse dois momentos em que a indústria hollywoodiana, lanço um olhar sobre o cinema independente como fonte de lucro, e deixarei a dica, nas referências, de dois livros de Peter Biskind: Easy Riders, Raging Bulls How the Sex-Drugs-And-Rock-N-Roll Generation Saved Hollywood (1998) e Down and Dirty Pictures: Miramax, Sundance, and the Rise of Independent Film (2004). O primeiro focando na fase de 1969 em diante e o segundo já se debruçando na fase independente dos anos 1990.

Peter Biskind, embora tenha ganhado inimizade de Harvey Weistein por sua visão desmitificadora do produtor como um cinéfilo e por investigar suas artimanhas para legitimar sua empresa no mercado, em nenhum momento de seu livro cita o produtor como um perpetuador de assédio e abuso sexual contra atrizes. O cita como um produtor que usa do recurso da violência nas negociações como no trecho em que afirma que negociar com Weinstein “era como temer ser atropelado por um caminhão de dez toneladas que seguia avançando e poderia te passar por cima.”

A exceção desse seu novo filme, realizado em parceria com a Sony Pictures Entertainment, a parceria entre o diretor e o produtor ao longo de décadas, é uma parceria que se mostrou uma grande mancha para os filmes de Tarantino. Seus filmes estão com a logo ou da Miramax ou da Weinstein Company, ambas empresas de Harvey Weinstein. Tarantino se omitiu no caso Weinstein, afirmando: “Havia algo mais que os tradicionais boatos e as fofocas habituais. Não era (informação) de segunda mão. Sabia o suficiente para ter feito mais do que fiz.”

Segundo Biskind, Harvey Weinstein afirmava que Tarantino era o filho que nunca teve, especialmente por Pulp Fiction (1994) ter sido a pedra angular de seu então império cinematográfico.

Definitivamente, figuras paternas, figuras de macho adulto branco, são os grandes adversários de Quentin Tarantino.


Referências:

- EBERT, Roger. A magia do cinema: os 100 melhores filmes de todos os tempos analisados pelo único crítico ganhador do prêmio Pulitzer; tradução de Miguel Cohn. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.

- TARANTINO, Quentin. Ulzana’s Raid. Disponível em http://thenewbev.com/blog/2019/03/ulzanas-raid/ – Acesso em 23/08/2019.

- BISKIND, Peter. Como a geração sexo drogas e rock’n’roll salvou Hollywood. Editora Intrinseca, 2009.

- BISKIND, Peter. Down and dirty pictures: Miramax, Sundance and the rise of independent film. Simon & Schusterm, 2004.

- PRESSE, France. https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/quentin-tarantino-admite-que-sabia-de-abusos-sexuais-de-harvey-weinstein.ghtml – Acesso em 23/08/2019.

- FERNANDEZ, Laura. https://cronicaglobal.elespanol.com/letra-global/cronicas/harvey-weinstein-peter-biskind_96437_102.html – Acesso em 23/08/2019.

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