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Era uma vez… Quentin Tarantino

Um bom amigo me disse recentemente que o problema dos últimos roteiros de Quentin Tarantino decorre de como seu Ego determina o desenvolvimento dos seus trabalhos. Bem, é indiscutível que Tarantino tem uma personalidade forte e que seu Ego norteia a maioria de seus trabalhos, seja em menor, seja em maior escala. A partir de Kill Bill: Volume 1 (2003) somos sempre lembrados de que estamos a ver o 4º ou o 5º filme da marca Tarantino. É como se um gênio anunciasse a si mesmo. Porém, tenho a tendência a pensar que muito de uma guinada que Tarantino apresentou nos seus últimos trabalhos, talvez a partir de Bastardos Inglórios (2009), decorre justamente do fato de que Quentin Tarantino está cansado de sustentar o seu Ego, de sustentar a sua persona. Sua aposentadoria após o décimo ou décimo primeiro filme dão indicativos disso.

Estas particularidades pessoais do diretor, apesar de interessantíssimas e pertinentes, foram deixadas de lado quando escrevi minha dissertação, defendida em 2019, sobre os protagonistas negros na obra de Quentin Tarantino. Isso porque, para uma boa compreensão das obras, a vida particular do autor não é levada em conta numa análise acadêmica. Mas este texto é um ensaio livre para um site de cultura pop com objetivo de fazer uma introdução ao universo de Quentin Tarantino, com ênfase em detalhes específicos que norteiam a sua obra e que, pela divulgação e pelo trailer, podem estar presentes em seu novo filme, Era Uma Vez… em Hollywood (2019), o nono em sua carreira. Resolvi dividir o texto em duas partes: Parte 1, com enfoque no diretor, escrito antes de ver seu novo filme; e a Parte 2, o review propriamente dito, após assistir ao filme.

Mas por que Bastardos Inglórios talvez seja um ponto em que a carreira de Quentin Tarantino apresente uma certa guinada?

Primeiro, porque é a partir dele que o período histórico, o ano em que seus personagens vivem, é fator determinante para o desenrolar da trama. Em Bastardos Inglórios, a Segunda Grande Guerra é um cenário essencial; em Django Livre (2012), o cenário é o período anterior à Guerra de Secessão (1865-1869), a guerra civil americana, com a divisão dos norte-americanos entre sulistas e nortistas, entre favoráveis à manutenção da escravidão como força de trabalho essencial ao progresso norte-americano contra os favoráveis a uma substituição do trabalho escravo pela industrialização; Os Oito Odiados (2015), se passa logo após o fim da Guerra de Secessão; Era Uma Vez… em Hollywood se passa em 1969, um ano histórico para os Estados Unidos, com a subida de Richard Nixon ao poder, os primeiros passos de Neil Armstrong na Lua, o primeiro Festival de Woodstock, o surgimento do filme Sem Destino (1969), de Dennis Hopper, e, é claro, infelizmente, o assassinato de Sharon Tate pelos fanáticos da Família Manson, considerado um dos crimes mais bárbaros da história do país. Não por acaso, em entrevistas, Quentin Tarantino chegou a dizer que seu novo filme é sobre 1969 e não sobre a família Manson e seus crimes.

Segundo, porque Bastardos Inglórios é o último filme de umas das mais importantes colaboradas de Quentin Tarantino: Sally Menke. Menke foi a editora de todos os filmes de Quentin Tarantino até sua morte prematura em 2010, decorrente de um possível mal-estar durante uma trilha de caminhada. Ela foi indicada ao Oscar por seu trabalho de edição em Pulp Fiction (1994) e seu último trabalho, Bastardos Inglórios (2009). Mas Menke foi igualmente editora de Cães de Aluguel (1992), Jackie Brown (1997), Kill Bill: Volume 1 (2003), Kill Bill: Volume 2 (2004) e À Prova de Morte (2007), comprovando-se como parceira essencial para a construção de uma assinatura cinematográfica do diretor Tarantino.

Embora haja a hipótese de uma guinada no cinema de Quentin Tarantino em 2009, há alguns temas nos quais o diretor não consegue abandonar em nenhum momento e estão sempre presentes em seus filmes. Um deles é o Western. Vamos deixar esse tema para a Parte 2, o review propriamente dito, porque o personagem de Leonardo DiCaprio é um ator de filmes western, algumas referências certamente serão percebidas. Vamos nos debruçar nesta Parte 1 sobre as questões raciais e as personagens femininas fortes. Pelo que se observa antes de ver o filme Era Uma Vez… em Hollywood, tudo indica, por sua divulgação e trailers, que esses temas estarão presentes também em seu nono filme.

Mas como a questão racial pode ser importante num filme protagonizado por Leonardo DicCaprio e Brad Pitt, dois homens brancos, e que não apresenta nenhum ator negro em sua divulgação? Algumas pistas podem dar indicativos de como, sempre nos lembrando que o interesse de Tarantino é transportar o público para o período histórico de 1969, para o que ele foi de melhor ou o que ele foi de pior.

A maior de todas as pistas reside exatamente nos crimes cometidos pela Família Manson, um fato histórico real conhecido por todo americano e que culminou na morte da atriz Sharon Tate. Charles Manson mandou seus seguidores Charles “Tex” Watson, Susan Atkins, Patrícia Krenwinkel e Linda Kasabian para uma casa na Cielo Drive em Benedict Canyon. Todos, exceto Krenwinkel, empunhavam uma faca. Watson tinha uma arma. O objetivo de Charles Manson? Causar um banho de sangue, construir uma cena de crime para que a polícia pensasse que o crime havia sido cometido por pessoas negras e, a partir daí, causar uma comoção nacional, uma nova guerra civil norte-americana, agora mais pontualmente entre brancos e negros, com o intuito de, após esse conflito racial, Manson ascender como o novo líder da América.

Sim, parece algo completamente absurdo, mas o promotor Vincent T. Bugliosi, que, à época, contribuiu para a condenação de Manson e seus seguidores, considera que as mortes foram o resultado de uma tese apocalíptica de Manson, que dizia acreditar que brancos e negros travariam uma disputa sem precedentes nos Estados Unidos. Em suas pregações, ele dizia que o White Album (Álbum Branco), dos Beatles, – e em especial a música Helter Skelter – seria uma espécie de quebra-cabeças com revelações codificadas sobre a iminência do confronto racial pelo poder nos EUA. O objetivo de Manson era “acelerar” esta guerra racial, por meio de assassinatos falsamente associados a afro-americanos. Manson prometia proteção aos seguidores e dizia que se tornaria um messias ao fim da guerra. Para o promotor Bugliosi, o objetivo de Charles Manson e seus seguidores era “Dar início ao ‘Helter Skelter’, iniciar um conflito racial entre negros e brancos, fazendo parecer que os negros haviam assassinado Sharon Tate e as demais vítimas. A comunidade branca se voltaria contra o homem negro e finalmente haveria uma guerra civil entre negros e brancos”. Como resultado desse conflito, Manson se tornaria o novo líder político e messiânico da América.

Não menos importante é a presença de Bruce Lee no filme. A questão racial nos filmes de Quentin Tarantino tem um olhar sensível à comunidade negra norte-americana, mas não dispensa pensar em outras raças e em outras fronteiras. Nesse sentido, a presença de Bruce Lee, então amigo pessoal do diretor Roman Polanski e sua esposa Sharon Tate, é importante. Lee e Polanski eram tão amigos que Lee passou um tempo em um chalé de Polanski na Europa durante um certo tempo; momento em que, durante uma ida às compras, adquiriu a icônica roupa de ginástica amarela usada em Jogos da Morte (1978) e que Tarantino viria a citar nos filmes protagonizados por Uma Thurman como A Noiva: Kill Bill: Volume 1 e Kill Bill: Volume 2.

Bruce Lee foi criador não creditado da série Kung Fu (1972-1975). Lee apresentou uma série para a Warner Brothers em que um protagonista chinês, discípulo de um Templo Shaolin, viveria aventuras no Western americano. Lee seria o protagonista. A Warner Brother recusou, afirmando que uma série protagonizada por um chinês não seria sucesso. Em seguida, a Warner Brothers fez a série sem nenhuma referência, sem nenhum crédito e sem nenhum pagamento a Lee. Contratou o ator David Carradine, que futuramente interpretaria o personagem Bill no futuro filme de Tarantino, um ator branco, para viver um mestiço oriundo do Templo Shaolin. A série se tornaria um sucesso por décadas e ainda dialogaria com os negros norte-americanos que, na ausência considerável de protagonistas negros nas séries norte-americanas, se identificariam com o personagem principal, um contraponto aos protagonistas brancos.

O resultado disso é o fato da cultura oriental do Kung Fu ser constitutiva do Rap norte-americano, seja na formação de nomes como o grupo Wu Tang Clan e seus diversos integrantes, sua sonoridade repleta de diálogos de filmes de Kung Fu, seus samples de sons de luta, esquivas, espadas e diversos outros elementos desse gênero fílmico. Todo rapper tem consciência dessa influência oriental na cultura Rap e podemos evidenciar isso até mesmo em rappers brasileiros como Emicida, como a alusão a esse diálogo do Rap com o Kung Fu presente no videoclipe Zica, Vai Lá (2012).

Bruce Lee é um personagem caro a Tarantino, que afirmou que, se estivesse vivo, o mestre do Kung Fu viveria Pai Mei em Kill Bill: Volume 2. Quanto à representação racial de Bruce Lee no filme Era Uma Vez… em Hollywood, não me surpreenderia se Quentin Tarantino optasse por fazer com que Bruce Lee fosse representado a parecer alguém arrogante e, até mesmo, um lutador inferior. Porque para Tarantino, o essencial possa vir a ser não apenas reproduzir um filme de 1969, mas, sim, transportar o expectador para o ano de 1969. Em tempos de valorização de obras audiovisuais que possuam uma estética cultural que remeta à nostalgia de décadas anteriores, décadas em que as conquistas raciais e identitárias não imperavam, tal possível recurso de Tarantino pode ser um golpe mais poderoso e um desvelamento mais duro contra o que foi 1969 para os negros, os orientais e as mulheres.

E entramos em outro tema caro e controverso em seus trabalhos: o universo feminino. Há um conjunto de textos acadêmicos que se debruçam bastante sobre a construção de personagens femininos em seus filmes. Para a Parte 2, o review do filme propriamente dito, em que o universo dos produtores e atores hollywoodianos terá destaque, assim como a violência contra a mulher, o fator Harvey Weinstein provavelmente será levantado.

Mas, aproveitando este ensaio livre, considero interessante para a compreensão da obra de Tarantino destacar um elemento de sua vida pessoal.

Quentin Tarantino nasceu em Knoxville, Tennessee em 27 de março de 1963. Sua mãe, Connie McHugh-Zastoupil, uma mulher descendente de irlandeses e índios Cherokees, tinha 16 anos quando engravidou dele. Seu pai, Tony Tarantino, cantor fracassado descendente de italianos, abandonou a mulher à própria sorte antes mesmo do filho nascer. Quando Tarantino completou quatro anos, ele e sua mãe se mudaram para Califórnia, onde ela conheceu Curt Zastoupil, que se tornou padrasto (stepfather) de Tarantino. Curt e Connie tiveram mais filhos e deram uma família a Quentin Tarantino.

Tony Tarantino, seu pai, nunca entrou em contato com o filho. Uma tentativa de reaproximação com o diretor por parte de seu pai só surgiu quando o filho começou a se destacar em sua carreira cinematográfica; Tarantino rechaçou e se recusou a ter qualquer tipo de contato com o pai. O que até faz surpreender a escalação de Al Pacino no elenco de Era Uma Vez… em Hollywood, isso porque, nas tentativas de surfar na trajetória de sucesso do filho, Tony Tarantino desenvolveu uma grande amizade com Al Pacino.

Considero que reside em sua jornada pessoal a necessidade de Quentin Tarantino em retratar mulheres fortes como Jackie Brown ou Beatrix Kiddo. Falar de Sharon Tate, uma mulher grávida quando foi assassinada, não poderia ser mais forte, simbólico e significativo nesse sentido.

Com esses elementos dispostos, já podemos partir para assistir a Era Uma Vez… em Hollywood ao menos tendo em mente possíveis intenções do diretor. Se serão confirmadas ou não, só o próprio filme dirá. Aguardem a segunda parte do texto.

To be continued…

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  • http://legendas.tv/usuario/thomazcomthez thomazcomthez

    Filme foda demais!

    • Dell Freire

      Ótimo mesmo! Belo filme!

  • Jana Cruz

    Sensacional!

    • Dell Freire

      Quentin Tarantino acertou muito em seu nono filme!

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