Cultura Pop

A ascensão de Trump e o retorno do Deus-Sapo

Kali Kills Kek

A vitória de Donald Trump no dia 08 de novembro de 2016 pegou o mundo inteiro de surpresa. Até pelo menos metade das apurações, todos estavam certos de que Hillary venceria. Mesmo porque a própria candidatura de Trump era o tipo de coisa que só poderia acontecer nas proximidades de um Gerador de Probabilidade Infinita. Vencer as primárias do Partido Republicano, onde desde o início despontou como um azarão, já era mais do que se poderia esperar de um narcisista antipático, boquirroto e completamente desconectado da realidade.

E no entanto, Trump venceu.

Muitas fatores contribuíram para explicar essa zebra. Não ser levado a sério pelos adversários foi um deles. O surgimento da alt-right nos porões 4chânicos da Internet, com uma postura agressivamente racista, misógina e homofóbica, a cara do novo presidente, foi outro. E, como é cada vez mais evidente, a intervenção russa nas eleições desempenhou um papel decisivo. Mas o elemento que nenhum analista político seria capaz de considerar foi a influência de uma obscura divindade egípcia que escolheu reencarnar no século XXI como um igualmente obscuro personagem dos quadrinhos.

Senhoras e senhores, conheçam Kek, o deus do caos, e seu avatar, Pepe the Frog.

Originalmente, a Magia do Caos quase sempre esteve associada a uma postura radicalmente progressista. Se o esoterismo tradicional ainda “explicava” o homossexualismo como um desequilíbrio energético entre as polaridades, quando não o associava pura e simplesmente à magia negra, caoístas abriram espaço para o desenvolvimento de técnicas tântricas com uma orientação assumidamente gay. Se o mago tradicional era geralmente um homem, que via a mulher como altar ou ferramenta, e usava a magia sexual sobretudo como desculpa para uma forma de assédio ritualizado, a Magia do Caos abraçou o empoderamento feminino e se aproximou da Wicca, que sempre foi ridicularizada pelos adeptos das correntes mais “sérias” da Magia Hermética. E se a Tradição Esotérica Ocidental olhava para as práticas mágicas e religiosas dos povos não-ocidentais com o desprezo etnocêntrico que os supostos “civilizados” tinham para os alegados “bárbaros”, caoístas se abriram para ouvir e aprender com o Vodu, a Santería e a Quimbanda, sem nenhuma hierarquia de valor. Finalmente, no espectro político, uma parcela significativa de caoístas se posicionava à esquerda, a maioria abraçando alguma forma de anarquismo, numa época em que o libertarianismo ainda não tinha sido cooptado pelo sistema, gerando essa aberração contemporânea que é o anarco-capitalismo.

Para pessoas como eu, que se aproximaram da Magia do Caos por causa desse radicalismo político, ver seus conceitos e ferramentas serem usados para empoderar não só a direita, mas a extrema direita, não pode deixar de ser uma fonte de frustração. E no entanto, o Culto de Kek está aí, e seus seguidores alegam que a influência mágica de Kek foi determinante para levar Trump ao poder. De fato, os kekistas acreditam que a eleição de Trump foi apenas o primeiro passo para o início de uma Nova Era, em que a visão da alt-right vai se espalhar por todo o mundo.

O que, havemos de convir, parece estar acontecendo mesmo.

Mas vamos por partes.


Smug Pepe

Em 2005, o cartunista americano Matt Furie criou um personagem chamado Pepe the Frog, como uma espécie de sátira à mentalidade dos millenials.

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Originalmente, Pepe não tinha relação nenhuma com a direita, muito menos com a alt-right, tanto que mesmo celebridades como Kate Perry e Nicki Minaj compartilharam memes com o até então simpático sapinho. O próprio Furie, um democrata convicto, que em 2016 apoiou fervorosamente a campanha de Hillary Clinton, ficou passado quando descobriu que seu personagem tinha sido apropriado por grupos no lado oposto do espectro político.

A apropriação começou por volta de 2008, quando alguém postou uma versão de Pepe conhecida como Smug Pepe (Pepe Arrogante) no site 4chan, a meca dos trolls da Internet e, por isso mesmo, o berço da alt-right, que um dos integrantes, A. T. L. Carver, descreve nos seguintes termos: “Aqui você vai encontrar os solitários e deprimidos, os socialmente ineptos, os excluídos geracionais e todas as formas de juventude desempoderada – todos unidos pela mesma mentalidade viralata que permeia cada kilobyte do fórum.”

Com essa auto-imagem, não é difícil entender porque os 4chaners se identificaram com Smug Pepe, que acabou se tornando, nas palavras de Carver, uma espécie de mascote não-oficial, especialmente entre os membros de um fórum de discussão cujo nome já diz muito sobre a mentalidade de seus integrantes: Politically Incorrect (/pol/).

Nesse meio tempo, veio a corrida presidencial, e Trump despontou com um discurso em que se declarava o representante do homem comum, lesado pelo establishment e desempoderado pelos movimentos sociais, especialmente o feminismo e a diversidade. Não tinha como essas palavras não calarem fundo nos fóruns do 4chan. Se Pepe era o mascote do grupo, Trump tornou-se seu candidato, e inevitavelmente a imagem dos dois acabou se fundindo:

Trumpepe Nulificado.001

É onde a magia começa a entrar na história.


Kek

Ao ser publicado no fórum, cada post recebia um número, designado aleatoriamente pelo sistema. Os participantes costumavam atribuir um significado especial aos números nos quais apareciam dígitos duplos, triplos ou quádruplos, que, no jargão do 4chan, eram conhecidos respectivamente como dubs, trips e quads (por exemplo, 564321799, 312666873 ou 633339278), e apostar quais posts receberiam um número com dígitos repetidos tornou-se uma espécie de hobby.

Foi assim que eles notaram que a numeração dos posts com Trump e/ou Pepe pareciam conter uma quantidade maior de dígitos repetidos do que seria possível atribuir apenas ao acaso. E isso os convenceu de que havia um fator sobrenatural em ação. De novo nas palavras de Carver:

“Logo virou moda no /pol/ saudar Trump como nada menos do que o candidato escolhido por deus.

Mas o candidato escolhido por qual deus exatamente?”

Para entender como eles chegaram à resposta, é preciso voltar um pouco no tempo e acompanhar um desenvolvimento paralelo.

Depois que a expressão LOL se difundiu na Internet para representar risadas, os 4chaners, querendo pagar de diferentões, decidiram abandoná-la e substituí-la por uma onomatopeia coreana, KEK (que, incidentalmente, é de onde vem também o infame kkk das postagens brasileiras), que alguns dizem não ser nada mais do que a “tradução” de LOL em coreano.

E quando o uso da onomatopeia já estava amplamente difundido dentro do 4chan, eis que alguém descobre que Kek também era não só o nome de um deus, mas de um deus com cabeça de sapo.

Kek_God

Mais exatamente, Kek era uma das oito divindades que formavam a Ogodade, um panteão egípcio adorado por volta de 1300 a.C. Deus do caos e da escuridão que precede o amanhecer, Kek fazia par com Kauket, uma deusa com cabeça de serpente que simbolizava a alvorada, de modo que os dois juntos representavam o nascer do dia.

Era uma coincidência boa demais para ser verdade, e para os trolls alt-right do 4chan, isso só podia significar uma coisa: “Pepe the Frog é, de fato, o avatar contemporâneo de uma antiga divindade egípcia acidentalmente ressuscitada pela cultura online dos fóruns de imagens.”

A trama se complica ainda mais graças a um erro de identificação.

Kek estava muito longe de ser o único deus egípcio com cabeça de sapo. Havia inúmeros outros, dentre eles uma deusa chamada Heqet, cujo nome quer dizer “rã” em egípcio. Um dos membros do 4chan tropeçou por acaso com uma estátua de Heqet vendida erroneamente em um antiquário online como se fosse uma imagem de Kek. E quase caiu da cadeira quando viu, na base da estátua, os hieróglifos que escrevem o nome da deusa em egípcio:

Heqt (pseudo-Kek)

Para ele, a imagem representava um sujeito sentado diante de um computador, e a dupla espiral por trás do computador era uma cadeia de DNA, que ele interpretou como um gene. Do gene, o raciocínio saltou para os memes, que são os equivalentes culturais dos genes e, voilá, na cabeça dele, o nome de Heqet em egípcio se transformou em um símbolo representando uma forma de magia praticada por meio da difusão de memes via Internet.

Em outras palavras, magia memética.


P.E.P.E.

Agora, quase todas as peças estavam no lugar. Na cabeça da alt-right, Trump era o candidato escolhido por Kek, uma antiga divindade caótica, que estava retornando ao mundo usando Pepe the Frog como avatar virtual, e a maneira de ajudar Trump a ser eleito era difundir maciçamente memes de Pepe, fortalecendo a magia memética que levaria o candidato à Casa Branca.

“Com milhares de alt-righters e 4chaners postando imagens de Pepe, saturando a internet com elas”, escreve Gary Lachman, “a ideia era que seu desejo concentrado de que Trump devia vencer estava destinada a ter um efeito. E de acordo com eles, teve.”

Não que os 4chaners acreditassem piamente nessa mitologia, entre outras coisas porque 4chaners se orgulhavam de não acreditar piamente em nada. Kekismo, ou Kekismo Esotérico, o culto moderno de Kek, era a paródia de uma religião ou, melhor ainda, uma religião em forma de paródia, na qual eles acreditavam sem acreditar.

Mas, como qualquer praticante da magia do caos vai poder te dizer – e, infelizmente, muitos deles eram praticantes da magia do caos –, essa auto-ironia que se leva a sério sem se levar a sério é o estado de espírito ideal para abordar qualquer conjunto de crenças que, assim, em vez de dogmas rígidos, se tornam ferramentas mágicas, maleáveis e flexíveis.

Para os kekistas, a prova disso está em três eventos que ocorreram simultaneamente durante a campanha, na data já por si fatídica de 11 de setembro de 2016.

Nesse dia, depois que seu comitê chamou a atenção de Hillary Clinton para os memes da alt-right associando Pepe e Trump, a candidata denunciou o personagem como um dos símbolos de ódio dos supremacistas brancos. Mais tarde, durante a celebração dos quinze anos do 11-09, em Nova York, Clinton quase desmaiou em público, supostamente por causa de uma pneumonia diagnosticada em seguida. Mas, para os kekistas, o desmaio ou quase desmaio foi uma retaliação de sua divindade contra a candidata democrata que tinha ousado criticá-lo publicamente:

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O leitor atento vai notar que esta postagem em particular recebeu um número não com um, mas com dois dubs, um no começo (88) e outro no final (33). E obviamente, o “stop please” não é para ser tomado ao pé-da-letra, sendo só mais um exemplo da auto-ironia típica dos kekistas, que de fato querem “nos memetizar para fora da existência” (meme us all out of existence).

O terceiro acontecimento que tornou a data significativa para o Kekismo Esotérico foi muito mais discreto. Fuçando nos labirintos internéticos do Youtube, um dos devotos do deus-sapo acabou deparando por acaso com uma obscura gravação da década de 80, uma música chamada “Shadilay”, de um artista que assinava como… P.E.P.E. Mais, o disco era ilustrado por um sapo segurando uma varinha mágica, com as palavras Magic Sound por cima. Completando o agouro, o selo do disco informava que as letras P.E.P.E. eram na verdade uma sigla, significando “Point-Emerging-Probably-Entering”. E a década de 1980 foi justamente quando Donald Trump despontou para a celebridade.

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Para os kekistas, essas coincidências equivaliam a uma verdadeira mensagem divina, dizendo que Pepe e Trump eram o ponto de emersão por onde o deus Kek entraria em nossa realidade, através da magia probabilística dos memes, para inaugurar uma nova era na história da humanidade. E a vitória de Trump, contra todas as probabilidades, só serviu para confirmar essa crença.


A Contraforça

O que o Kekismo Esotérico entende por essa nova era não está muito longe dos – e de fato foi parcialmente alimentada pelos – delírios de tradicionalistas como René Guénon e Julius Évola, o segundo dos quais chegou inclusive a flertar abertamente com o nazifascismo e é uma das fontes de inspiração de Steve Bannon, o principal mentor intelectual da alt-right, e que foi conselheiro de Trump, até ser defenestrado pelo ungido de Kek. Quanto a Guénon, é o guru de ninguém menos do que Olavo de Carvalho.

Horrorizados com o progresso político, com a ciência e com a tecnologia, Guénon e Évola sonhavam com a destruição do mundo moderno, e com uma volta a uma Idade Média idealizada, quando a sociedade era dividida em castas hierárquicas determinadas por Deus (hierarquia significa, etimologicamente “ordem sagrada”), em que cada um sabia qual era o seu lugar. Da mesma forma, seus sucessores modernos da alt-right se sentem ameaçados pela ascensão do feminismo, pelo movimento negro, o combate à homofobia, e pelas forças progressistas que cada vez mais vêm colocando em xeque os valores do Patriarcado.

Para a alt-right, a sobrevivência da civilização ocidental depende de esmagar essas forças progressistas, e fazer voltar um mundo em que o homem branco é rei e senhor, servido pelas outras raças e idolatrado por mulheres que só existem para satisfazê-los sexualmente e parir filhos que vão levar adiante o legado patriarcal. Não é por nada que a alt-right adotou como um de seus mentores intelectuais Jordan Peterson, o psicólogo canadense que é um crítico feroz ao politicamente correto, e os kekistas tiveram verdadeiros orgasmos quando Peterson apareceu em um vídeo usando um boné em forma de sapo. Para eles, era a prova de que, se Kek era deus e Trump o ungido de deus, então Peterson era seu profeta, ou pelo menos um de seus profetas.

Mas magia é uma faca de dois gumes, memes cortam dos dois lados e, como eu mencionei no início, antes de virar o passatempo dos adolescentes punheteiros do 4chan, a Magia do Caos emergiu em um contexto acentuadamente à esquerda. Não demorou para que uma contraforça se levantasse, e outros magos entrassem no que o historiador cultural francês Théodore Ferréol denominou de memetic warfare.

O primeiro contradisparo veio de um tweet de 18 de novembro de 2016, apenas dez dias após a vitória de Trump, mostrando uma imagem de Pepe degolado por ninguém menos do que Kali, a feroz deusa guerreira que é a divindade suprema do Tantrismo Shakta hindu e representa praticamente tudo a que a alt-right se opõe:

https://twitter.com/theowlhive/status/799530251416141824

Kali Kills Kek

Meses depois, em fevereiro de 2017, surgia a hashtag #magicresistance, conclamando magos e bruxos de todas as vertentes, mas especialmente da Wicca, a realizarem um maciço ritual coletivo, chamado de binding ritual, para impedir Trump e seus seguidores de continuarem prejudicando o mundo, a fim de que ele não pudesse mais “usurpar nossa liberdade ou encher nossas mentes com ódio, confusão, medo ou desespero”.

Centralizado em um grupo do Facebook, o movimento sugeria uma cerimônia usando um baralho de Tarô e alguma imagem não lisonjeira de Trump. E com o mesmo tipo de humor auto-irônico empregado pelos kekistas, sugeria-se que, em vez de encerrar o ritual com as palavras tradicionais das cerimônias wicca, “So mote it be”, os participantes deveriam queimar a imagem de Trump recitando o mesmo bordão que ele usava quando apresentava o programa O Aprendiz: “You’re fired.”

Entre os que aderiram ao movimento, estava ninguém menos que a cantora pop Lana Del Rey que, num tweet de 24 de fevereiro, pediu a seus seguidores que se juntassem a ela para amaldiçoar Trump.

Coincidência ou não, longe de ser um mar de rosas, o governo Trump mergulhou numa espiral de problemas, com Trump impedido de realizar sua grande promessa de campanha, o muro separando o México dos Estados Unidos, enquanto suspeitas de envolvimento russo nas eleições e de fraude no Imposto de Renda do candidato alimentavam uma oposição crescentemente feroz, o que culminou com os republicanos perdendo a maioria do Congresso, deixando Trump ainda mais isolado.

Se Kek quer mesmo implantar a “nova era” com que sonham os kekistas da alt-right, tudo indica que vai ter que rebolar. E talvez não seja coincidência que, assim como Kali, a deusa que degolou Pepe, a deusa egípcia Kauket seja uma deusa-serpente. Na mitologia egípcia, a metade masculina do casal não representava a nova era, mas a escuridão da noite prestes a se dissipar. No final das contas, quem trazia a alvorada do novo dia era a mesma força que tanto apavora a alt-right. A força do feminino, capaz de se levantar contra os avatares de Kek com um grito de guerra inabalável: Ele Não.

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  • anandama

    Saravá!
    Muito interessante a discussão e a coluna como um todo. Como a política envolve tudo e todos. Como a magia no mundo de hoje é cada vez mais relevante, com essa virtualização de tudo, o caos cibernético e psicológico faz necessário um muito ou um pouco de xamanismo para lidar com isso tudo sem enlouquecer (demais). Solve, solve, solve. Tá na hora de coagula, como diz o Alan Moore no documentário sobre ele próprio (Tem no Ytube, The Mindscape of Alan Moore). O mundo vive uma intensa desterritorialização, nossas psiques idem, cada um se vira como pode para curtir um território, curtir uma brisa saudável, achar o tipo de arte que nos ponha em algum contato com a Terra. Com nossos afetos profundos. Pra isso a gente precisa voltar a gostar de gente. Empatia é a palavra de ordem. Que a magia antes de tudo sirva para unir gente com gente, gente que goste de gente. Ressignificar palavras como compaixão e amor. Sem fobia do outro. Poder abraçar de coração aberto e confiante outra pessoa. Isso é um milagre. E é tão frágil. O mundo cheio de traições, psicopatias, falta de ternura básica. A coluna me inspira a não me conformar. O mundo forçosamente exige que sejamos magos, xamãs, tão esotéricos assim. Eu agradeço com as mãos em prece. Como dizia em êxtase São Francisco de Assis: ” O Amor não é amado, o Amor não é amado!”
    Pace e Bene.

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