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The Rocky Horror Picture Show

The Rocky Horror Picture Show

Um brinde venenoso a um mundo que nasce

(The Rocky Horror Picture Show) – Musical. Estados Unidos, 1975. De Jim Sharman. Com Tim Curry, Susan Sarandon, Barry Bostwick, Richard O’Brien, Patricia Quinn, Nell Campbell e Charles Gray. 1h40min. Distribuidora: Fox Films. Classificação: 14 anos.

Os anos setenta geraram um cinema irado. Disso, ninguém duvida. O cinema comercial americano nunca tinha ousado tanto, questionado com tal intensidade e se mostrado tão violento. Taxi Driver (1976, de Martin Scorsese) e O Massacre da Serra Elétrica (The Texas Chain Saw Massacre, 1974, de Tobe Hopper) são emblemáticos nesse aspecto. A década também foi berço de uma outra classe de filmes, menos consagrados comercialmente, mas que certamente são clássicos cultuados. Ou melhor, clássicos da meia-noite.

Os midnight movies remavam contra a sensibilidade estética de Hollywood e, talvez por isso mesmo, acabavam sendo relegados a sessões quase clandestinas, tradicionalmente realizadas à meia-noite, onde o público quase sempre ia vestido a caráter. Os maiores expoentes deste gênero são: El Topo (1971, de Alejandro Jodorowsky), Eraserhead (1977, de David Lynch), A Noite dos Mortos-Vivos (The Night of the Living Dead, 1968 de George Romero), Pink Flamingos (1972, de John Waters) e o filme que dá origem a este artigo: Rocky Horror Picture Show (1975).

Dirigido por Jim Sharman, que co-escreveu ao lado de Richard O’Brien, autor da peça original em que o filme é baseado, Rocky Horror Picture Show é o mais famoso e celebrado dos filmes da meia-noite, tendo permanecido em cartaz por mais de cinco anos. Os espectadores passavam por um ritual quase religioso durante sua exibição, com o cinema decorado de acordo com os cenários do filme, enquanto o público comparecia vestido como seus personagens prediletos. Os diálogos eram acompanhados como uma oração e as cenas de dança (sim, o filme é um musical!) eram reencenadas por todos os presentes no cinema.

The Rocky Horror Picture Show

Para compreender o fascínio que Rocky Horror Picture Show vem exercendo sobre diferentes públicos nesses mais de quarenta anos, tentarei fazer uma breve análise do filme nas linhas que se seguem. Infelizmente, para isso, vou ter que soltar a besta dos SPOILERS!

Let the show begins!

O filme começa com uma introdução, no mínimo, inusitada. Uma pervertida versão de cabaré da clássica música dos filmes da 20th Century Fox, enormes lábios vermelhos surgem cantando uma estranha música de louvor a filmes clássicos da ficção científica e terror e as sessões-duplas de cinema. Os nomes dos atores surgem seguidos pelos nomes dos personagens e os papéis que eles representam: Frank-N-Furter (o cientista), Janet Weiss (a heroína), Brad Majors (o herói), Riff Raff (o mordomo), Magenta (a doméstica), Columbia (a groupie), Everett Scott (o cientista rival), Rocky Horror (a criatura) e o Criminologista (um especialista – e narrador da história).

Após os créditos cortamos para uma cena de casamento numa linda capela no campo. As pessoas se posicionam para as fotografias e Janet acaba pegando o buquê, para a felicidade de seu noivo, Brad, que a propõe em casamento no que é a primeira cena musical do filme. O casal apaixonado e republicano ignora o fato da capela feliz onde estavam ceder lugar a uma cerimônia mortuária no meio da cantoria no que certamente é a música mais cafona do filme.

The Rocky Horror Picture Show

Eles decidem então viajar para pedir a bênção do mentor de Brad, responsável por apresentá-los um ao outro. O que se segue é o casal viajando na chuva e saindo da estrada, tendo que pedir ajuda numa casa no meio do nada – lá, terão de enfrentar seus piores pesadelos e, se sobreviverem, nada mais será o mesmo.

O narrador faz então sua primeira aparição nesse momento. Inglês, fumando de sua piteira e versando sobre a “noitada” que Brad e Janet estavam prestes a encarar, ele reclama da inconsequência de Brad e Janet, que saem de casa sem estepe e com um pneu precisando de calibragem. É quando vemos que a noitada de Janet e Brad se resume a um passeio noturno de carro, com ela lendo jornal e ele dirigindo ao som do discurso de renúncia de Richard Nixon e, finalmente o filme se entrega a toda sua acidez. Depois que o pneu do carro fura, os dois caminham pela chuva até o castelo pelo qual tinham acabado de passar. Se há um momento no filme em que podemos observar um equilíbrio entre os dois mundos (republicanos encontram liberais), está aqui. Enquanto Brad e Janet cantam uma música esperançosa e entediante, o mordomo (corcunda, é claro), Riff Raff, é visto na janela, dando sua própria visão acerca da esperança.

Brad e Janet são recepcionados pelo próprio Riff Raff, que os convida a entrar no castelo, onde, aparentemente, uma festa está para começar à meia-noite.

A música, cantada por Riff Raff, Magenta, Columbia e os outros convidados da festa, apresenta o ponto de virada da trama, onde os personagens de Brad e Janet começam a se situar num novo mundo, onde as frágeis paredes de sua própria realidade começam a desmoronar. “It’s Time Warp Again” é a música mais emblemática e lembrada do filme. Não só por sua coreografia, mas também porque parece emitir um sonido único, um desejo desesperado de poder ser diferente e, dessa forma, completamente livre.

The Rocky Horror Picture Show

É quando surge o anfitrião, vestido como um Conde Drácula travestido, o Dr. Frank’N Furter é a atração principal do show. Todos vieram para vê-lo. Só nesse momento é que eles percebem estar no meio de uma Convenção Anual da Transilvânia. O mundo sobrenatural, estranho e alienígena é empurrado para cima de dois jovens e puros republicanos e as consequências serão enormes.

A ironia é certeira e contínua. Brad e Janet, agora usando apenas suas roupas de baixo, são convidados para ver a nova invenção do cientista Frank’n Furter. Talvez eu esteja vendo pelo em ovo, meus camaradas, mas o fato dos dois protagonistas terem de ficar seminus durante um trecho do filme, é demais para passar em branco. Despir os pacientes (nos hospitais) ou as vítimas (nos casos de tortura) é o primeiro passo para a cura ou para a completa desmoralização. Do ponto de vista antropológico, as roupas são sua proteção social, a maneira como você se apresenta. Mais ainda, as roupas mostram para o mundo a forma como você se identifica. O aviso sinistro de Frank’N Furter (enquanto seus empregados arrancam as vestes de Brad e Jane) corrobora essa interpretação:

Vejo que tremem com a expectativa

Mas talvez a chuva seja a culpada

Então vou tirar a causa

Mas não o sintoma

Brad e Jane seguem na companhia de Riff Raff, Columbia e Magenta para o laboratório de Frank. E o inferno poderia ser cor-de-rosa nesse momento.

Frank pode ser visto como uma espécie de Frankestein, dando vida a seu próprio monstro particular. Antes de qualquer coisa, garante que Brad e Janet vistam algo, macacões brancos, desprovidos de identidade, para que se sintam “menos vulneráveis”. Então, anuncia sua nova “descoberta”.

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O monstro de Frankestein de Frank’N Furter emerge de um poço contendo todas as cores do arco-íris e, quando nasce, logo canta sobre a miséria da própria vida (que não é dele, mas de outro). A música cantada por Rocky, a criatura, fala sobre a “Espada de Dâmocles”, um mito grego sobre um cortesão de Dionísio que sempre almejou ter poder e autoridade. Dionísio troca de lugar com ele por um dia e, no fim das festividades, Dâmocles nota sobre sua cabeça uma espada pendurada um fio de cabelo prestes a se romper.

Frank’N Furter agora parece um papa do LSD, despreocupado com a destruição dos super-homens que eles esperava surgir, enquanto Rocky canta sobre sua desafortunada vida que surge e os membros da convenção lhe acalmam, dizendo que “não há crime algum”. Não é crime ser diferente, querer algo diferente.

Nesse ponto já é claro sobre o que o filme fala. O status quo prefere a entropia antes de aceitar o novo mundo que se apresenta. Se há um chute nas bolas dos republicanos e de seu conservadorismo, também há um grito de alerta para os hippies que sobraram: as coisas mudaram, é melhor que mudem com elas.

A história continua transitando por sequências inspiradas. O cantor Meatloaf surge como um James Dean zumbi e motoqueiro, perdido duas décadas adiante da própria morte, descobrimos que a grande revelação bioquímica nada mais é que um brinquedinho sexual e Frank logo é marcado com o estigma dos loucos devoradores de alma que sustentavam o imaginário popular da época. Com a partida dos membros da convenção e sem perspectiva de usar o telefone, Brad e Janet são convidados a dormir no castelo.

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Durante a noite, em diferentes momentos, os dois são seduzidos por Frank’N Furter e transam com o cientista. Em duas cenas idênticas, que reproduzem até os diálogos uma da outra, Brad e Janet perdem a virgindade com o mesmo homem. Um novo ciclo se inicia na vida dos dois. E temos a segunda virada do filme.

A trama se acelera. Riff Raff e Magenta armam um complô para fazer com que Rocky fuja dos seus aposentos, enquanto Frank e Brad transam. Janet sente-se culpada por ter traído Brad e vai atrás do noivo, apenas para descobri-lo, através de uma câmera de segurança, deitado ao lado de Frank. E é quando a mudança de Janet acontece.

Ela deixa de ser uma mocinha precisando de ajuda dos filmes dos anos cinquenta e passa a ser uma heroína consciente da própria sexualidade. Brad, por outro lado, ainda não compreende o iminente desabrochar que se anuncia com a chegada repentina do Doutor Everest Scott.

Frank’N Furter e Brad descobrem que Janet dormiu com Rocky e logo temos outra cena clássica de filmes de terror do período: o jantar, que de tão caótica, parece lembrar aquela vista um ano antes em O Massacre da Serra Elétrica. O jantar aqui também é canibal.

The Rocky Horror Picture Show

À mesa, com o cérebro do Meatloaf como prato principal, os doutores Scott e Frank trocam acusações, com o primeiro sendo acusado de ser um espião alemão e o segundo, um alienígena. Everet, tão tradicional, só poderia ver a vida de Frank como algo de outro mundo, uma força espacial invasiva. Como o comunismo.

O jantar acaba com uma briga e Frank congela todos que estão na casa, com exceção dele mesmo, Magenta e Riff Raff. Sim, ele congela. Com a sua máquina Medusa. Pô, como assim esse filme não é legal?

Quando despertam, Brad, Janet, Rocky e Columbia estão vestidos como dançarinas, de rostos pintados, cinta-liga e espartilho. Um a um, apresenta através de suas canções.

Columbia é a primeira, canta sobre a dor de ter amado e traída e como agora sua única compensação são as drogas que lhe afastam “da dor e do sofrimento”.

Rocky é o próximo. Sua canção fala o pouco tempo de vida e de como a única satisfação que pode encontrar é a luxúria. Então, Brad, desajeitado e timidamente andando sobre saltos altos, chama pela mãe e aceita que gosta de estar vestido assim. Janet canta sobre estar bem consigo mesma agora que não é mais reprimida.

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Finalmente, é a vez de Frank cantar. Ele mostra toda a sua admiração pelo cinema e participa de uma pequena orgia com Brad, Janet, Rocky e Columbia enquanto o Dr. Everet Scott desperta, desesperado para fugir dali antes que sua mente “seja dominada e sua vida seja vivida pelas emoções”.

No meio da festa, Riff Raff e Magenta surgem, vestidos como se tivessem saído de um episódio de Flash Gordon, avisando a Frank que tomaram o controle da missão e que seus excessos não serão mais suportados. Frank parece assumir o papel de um Rasputin, que depois de chegar ao poder através de uma série de manipulações, é alcançado por seus pecados, e condenado a uma morte rápida pela mão daqueles que ofendeu. O fato de Riff Raff e Magenta serem serviçais também é muito relevante, a tomada do poder pelas mãos da classe operária, talvez.

Após mais um belo número musical, Columbia, Frank e Rocky são assassinados por Riff Raff. Rocky, aliás, é morto enquanto sobe uma torre de metal, com o corpo de Frank em suas costas, numa clara alusão a King Kong.

Riff Raff e Magenta avisam que Brad, Janet e o Dr. Everet Scott devem deixar o castelo porque ele voltará para seu planeta natal, Transexual, na galáxia de Transilvânia. E é a primeira vez que fica completamente claro de onde vêm os invasores.

O filme se encerra com pequenas considerações sobre Brad e Janet. Ele, completamente perdido, sem se reconhecer. Ela, renovada, pronta para o mundo. E o público, com sorte, querendo ver o filme de novo. Menos quem não gosta do Tim Curry.

Trailer

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  • Ricardo

    Quero

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