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Cyber Quixote e Bannon Pança contra os Moinhos do Iluminismo

Cyber Quixote e Bannon Pança Contra os Moinhos do Iluminismo

Quando o realismo já não dá conta da realidade, só o surrealismo salva. O que começou com pequenas rachaduras no tecido da realidade hoje se transformaram em rasgões abertos no céu. Não dá mais para disfarçar que há algo de muito errado, todos sentem isso no íntimo. Mas admitir que se acredita numa mentira é duro de aceitar para o ego, então a aposta passou a ser aumentar a mentira mais e mais, e qualquer questionamento é visto como um ataque inimigo. E assim, cada grupo cria sua narrativa de verdades autoenganosas cujo objetivo principal não é descrever, e sim prescrever, o mundo.

Para uma vida com questões cada vez mais complexas, as pessoas querem respostas cada vez mais simples. Explicações longas e sofisticadas? Sem tempo, irmão. Me dê uma verdade pronta, pré-moldada e embalada que eu possa consumir depois de 30 segundos no micro-ondas.

A extrema direita foi a primeira a perceber isso. Começou então a lançar bombas atômicas semióticas contra seus alvos. Como isótopos de urânio em Hiroshima, as Fake News foram se espalhando e correndo a vida dentro do sistema social e político que, como o Império do Japão, dava sinais de esgotamento, mas se recusava a se render. Utilizando as redes sociais como combustível, ela deu as respostas simples que todos procuravam, e todas elas se poderiam se resumir em: a culpa não é sua, o mundo é que está contra você.

O objetivo é realizar uma paradoxal revolução conservadora onde, como o Dom Fabrizio Salina de O Leopardo de Lampedusa (interpretado por Burt Lancaster na versão de Luchino Visconti), as coisas precisam mudar para continuar as mesmas. Em outras palavras, o capitalismo tal como conhecemos está em crise, provavelmente terminal, mas os donos do capital, o 1% mais rico da população mundial, resolveu não esperar o povo se rebelar e criar os próprios focos de revolta – todos passando longe deles, é claro.

Assim, começam a brotar teorias da conspiração as mais diversas, como terraplanismo, doutrinação comunista nas escolas, mamadeiras eróticas, entre outras. E aqui é importante frisar que o termo “comunismo” é utilizado por já ser como se designava o inimigo na Guerra Fria, mas a preocupação não é efetivamente com a tomada dos meios de produção pelo proletariado. Onde se diz “comunismo”, deve se ouvir “iluminismo”, pois são as ideias iluministas o verdadeiro alvo: as liberdades, o desenvolvimento científico, a separação entre Estado e Religião. Todo um discurso que serviu muito bem à burguesia em ascensão dos Séculos XVIII e XIX, mas que agora no século XXI começou a ser tomado pelas minorais antes esquecidas como negros, mulheres, população LGBTQ.

O ataque à educação é para evitar a disseminação desses conteúdos chamados de progressistas. Ou alguém acha que defender o ensino do criacionismo nas escolas é algo neutro, “sem partido”? E assim vamos: por trás de toda crença em teorias conspiratórias como a de que a Terra é plana ou de que as vacinas não funcionam, existe a convicção inabalável de que todo o conhecimento necessário para a humanidade está contido na Bíblia. Assim, rejeitar a ciência é rejeitar o fruto do conhecimento, evitando assim o pecado de Adão e Eva, e, consequentemente, se tornar mais próximo de alcançar o paraíso. E por que muitos aceitam isso? Porque enxergam nesse discurso uma resposta simples para seus problemas.

O problema é que a situação ganha contornos cada vez mais dramáticos, com regimes autoritários sendo idealizados, a violência sendo aceita como solução para problemas tanto políticos como cotidianos, chegando até mesmo a situações extremas onde se defende que a mulher deve voltar a ser impedida de trabalhar e voltar ao seu “papel natural” de ficar em casa cuidando dos filhos. E cada vez mais vai se normalizando o discurso de exceção, enquanto os discursos inclusivos são tratados como coisa de radicais.

Por outro lado, a resposta não pode ser a de defender um sistema já caduco e prestes a desmoronar. O povo está com raiva, frustrado, e ainda o querem convencer que o sistema antigo tem que ser mantido porque o que vem é pior. Esse discurso não adianta. Quem enfrenta 3 horas para ir e voltar do emprego, isso quando tem emprego, é explorado, não tem acesso a um sistema de saúde decente e mal ganha o suficiente para sobreviver vai mesmo ser convencido que o “Estado Democrático” que garante privilégios para quem tem grana enquanto ele só se fode tem que ser mantido?

O 1% percebeu que a mudança vem e resolveu implodir o sistema para controlar o que vai nascer a seguir. Para combater esse discurso, é preciso recuperar a utopia. Quem não constrói sonhos acaba vivendo em um pesadelo. Sem essa consciência, estaremos todos solitários, nas redes sociais ou nas ruas, combatendo moinhos.

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