Cultura Pop

O livro da minha infância e o não contentamento na vida

Lolo Barnabé

Comecei a ler quando eu tinha pouco mais de três anos. Aos cinco, já estava no antigo C.A., também conhecido na época como classe de alfabetização. Agora mudou toda essa nomenclatura e confesso que me sinto meio arcaica já nos meus 20 e poucos anos quando falo disso com alguém mais novo.

Mas o que aconteceu quando eu entrei na escola aos cinco anos: eu descobri a biblioteca. E pra quem acha que seria que nem uma cena do filme Matilda onde eu começaria a carregar livros e mais livros em carrinhos pra ler, desculpa, mas não foi o que aconteceu. Eu fiquei bem uns três anos pegando o mesmo livro. O MESMO LIVRO.

Nesse momento, peço perdão aos coleguinhas do meu primeiro colégio que nunca puderam ler essa obra-prima porque eu renovava o empréstimo dele com frequência.

O livro era Lolo Barnabé, de Eva Furnari.

Não sei se você já chegou a ler. Mas a história é assim: tinha o Lolo Barnabé, sua esposa Brisa e o Finfo, o filhinho deles. Eles moravam na melhor caverna da região e, toda noite, sentavam-se ao redor de uma fogueira, comiam, cantavam e agradeciam à Deus pela vida e pelo que tinham.

E eram muito felizes… mas nem tanto.

A caverna era muito úmida e fria. E aquilo era muito desconfortável. Eles, como seres muito criativos, começaram a pensar e criar maneiras de tornar a vida mais confortável. Então, construíram uma casinha no topo de uma montanha.

E ficaram muito felizes… mas nem tanto.

Eles viviam numa casa linda e não podiam mais ficar se vestindo com aquelas peles de animal. Então, fizeram roupas.

E ficaram muito felizes… mas nem tanto.

Porque quando eles começaram a ter muitas roupas, eles tinham que ter um lugar para guardá-las. Fizeram um guarda-roupa. E não podiam dormir com elas no chão. Fizeram então, uma casa. Mas não podiam comer nela. Criaram a mesa e, para não ficar em pé, criaram também as cadeiras.

No fim do livro, eles têm de tudo. Eles moravam numa casa toda completa com tudo o que tem direito. Por necessidade, eles foram criando os pratos, os talheres, os copos, a escova de dente, o pente de cabelo e tudo mais que pudéssemos imaginar que era preciso ter.

Mas eles nunca estavam felizes. E quando eles já tinham tudo, sentiam falta daquela caverna e perceberam que não agradeciam mais por cada coisinha que tinham.

Este foi meu livro favorito dos cinco até uns oito anos de idade. Eu dizia que era um absurdo os adultos serem tão Lolo Barnabé. Sempre correndo e nunca aproveitando nada. Mas adivinha? Quase 20 anos depois, percebo que todos somos um pouco do Lolo Barnabé e da família dele.

Quando queremos muito uma coisa, batalhamos para consegui-la, mas acabamos nunca aproveitando o caminho que traçamos para chegar ao nosso objetivo. E mais que isso, não aproveitamos também o que conseguimos porque logo depois já queremos mais.

É assim pra todo mundo. Acho que acaba sendo algo involuntário do ser humano. Nunca estar contente, sempre querer mais, esquecer de agradecer o que tem. Nesse caminho de vitórias e mais vitórias para serem alcançadas, deixamos de comemorar as pequenas coisas porque sempre parecerão menores que as grandes coisas.

Eu não estou dizendo que não devemos buscar voar mais alto e conquistar mais sonhos. Eu sou uma pessoa que acredito muito na frase que Fernando Pessoa disse: “o homem é do tamanho do seu sonho”. Porque é. E só você pode sonhar os seus sonhos, que nem a música.

O “enjoy the ride” faz muito sentido agora que eu lembrei o nome daquele livro que era meu fiel companheiro quando eu era criança. Espero que possamos realizar nossos desejos e crescer, mas sem nunca esquecer de onde viemos e, é claro, poder sentar numa fogueira para agradecer. À Deus ou à quem você acreditar.

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