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All News is Fake News

All News is Fake News Meme 6 ou 9

De mamadeira de piroca a agentes comunistas explodindo a barragem de Brumadinho, a realidade sociopolítica dos últimos anos foi soterrada por uma avalanche de fake news. Não começou no Brasil ou nas últimas eleições, nem dá sinais de que vai parar tão cedo. A indústria de boatos e notícias falsas, veiculadas principalmente através de redes sociais como Facebook e WhatsApp, vem alavancando a ascensão da direita em todo o mundo, alimentando uma horripilante agenda conservadora, desenterrando aberrações cognitivas como a crença na Terra Plana e ajudando a eleger mais de um líder neo-fascista em países onde, até bem pouco tempo atrás, essa perspectiva parecia para lá de impossível. O mergulho na irrealidade quotidiana se tornou tão difundido que, em 2016, mesmo ano em que Trump foi levado até a Casa Branca na esteira de uma série de boatos contra sua adversária, o Oxford Dictionary escolheu pós-verdade (post-truth) como a palavra do ano.

Para quem andou perdido em Marte nos últimos três anos, pós-verdade, na definição do Oxford Dictionary, se refere a “circunstâncias nas quais os fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e à crença pessoal”. Para dar um exemplo bem próximo, num contexto de pós-verdade, não faz a menor diferença se Haddad de fato mandou distribuir um kit gay nas escolas quando era ministro da educação do Lula. O que importa é a indignação que isso vai causar no público-alvo, uma indignação que não desaparece nem diante de evidências concretas de que a “notícia” é mentirosa.

Diante desse quadro assustador – que, no limite, ameaça solapar de vez qualquer distinção entre verdade e mentira, realidade e ilusão –, Facebook e Google correram a tomar providências, nem que fosse para inglês ver. O Facebook derrubou algumas páginas que eram fontes notórias da indústria de boataria (mas não todas, e muitas voltaram logo depois com outro nome), ao mesmo tempo em que passou a marcar com um selo os sites de notícias aprovados em uma verificação de idoneidade. Postagens e artigos ecoavam o que todo mundo supõe ser o mais puro senso comum: checar as fontes e confiar apenas em informações vindas de veículos da imprensa fidedignos e abalizados.

Mas a verdade é que, mesmo se todo mundo, inclusive o cunhado reaça que não sabe o que quer dizer fidedigno, o tiozão do pavê que nunca ouviu a expressão abalizado e o primo tarado em teorias conspiratórias, seguisse essas recomendações, o problema das fake news continuaria existindo, ainda que não chegasse ao extremo da mamadeira de piroca. E talvez fosse ainda pior, porque qualquer pessoa com pelo menos dois neurônios funcionais sabe que o Kit Gay é uma sandice, mas como reconhecer uma fake news quando ela tem focinho de notícia, orelha de notícia, rabo de notícia e, ainda por cima, é veiculada pela mídia tradicional, em horário nobre ou na primeira página?

Lançado em 1988, alguns anos antes da explosão da Internet, quando Facebook, WhatsApp e Google ainda não eram sequer um brilho ávido no fundo do olho dos futuros tubarões do capitalismo digital, o livro Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media, de Edward S. Herman e Noam Chomsky, deitava por terra o retrato romântico que a imprensa até hoje faz de si mesma como guardiã da verdade. Longe de ser o Quarto Poder que protege o cidadão comum dos desmandos dos poderosos, os autores mostram, com uma quantidade avassaladora de dados concretos, que a mídia é composta por “instituições ideológicas eficazes e poderosas que realizam uma função de propaganda em apoio ao sistema, dependente das forças de mercado, de pressupostos internalizados e da autocensura”, e que desempenha esse papel voluntariamente, mesmo “sem coerção aberta” por parte dos Powers That Be.

Os grandes veículos da mídia são propriedade direta de membros da elite econômica e, como tal, necessariamente refletem os interesses de seus proprietários. Todo editor recebe rotineiramente ligações “de cima” derrubando matérias que não agradam aos patrões ou promovendo tópicos que os donos da notícia querem viralizar. Além disso, a mídia vive de anúncios, e os anunciantes são empresas que também pertencem à elite econômica, e que podem simplesmente parar de investir em publicidade se não gostarem de alguma coisa que o veículo publicou ou deixou de publicar.

É claro que, pelo menos em circunstâncias normais, um jornal não pode simplesmente inventar uma notícia do nada e, nesse ponto, está numa situação diferente da indústria de fake news, que pode espalhar qualquer absurdo livremente pelas redes sociais. Mas a mídia conta com outros recursos, mais sutis, mas não menos eficazes.

As palavras usadas para descrever um acontecimento influenciam o modo como o leitor vai interpretar o próprio acontecimento, e são elas que determinam boa parte da reação emocional do leitor. Se você prestar atenção, vai notar que um homem branco da classe média preso com cocaína geralmente é citado como “rapaz envolvido com drogas”. Se ele for negro e/ou morador das comunidades periféricas, porém, a manchete provavelmente vai chamá-lo de traficante. Dois pesos, duas medidas.

Você talvez ache que existe um abismo de distância entre esse enviezamento e a completa falsificação dos fatos que define as fake news. Dois exemplos talvez possam te convencer do contrário.

Em 25 de janeiro de 1984, no auge da campanha pelas Diretas Já, um comício reuniu trezentas mil pessoas na Praça da Sé em São Paulo. Mas quem assistiu à Globo nesse dia ficou sem saber que se tratava de uma manifestação política, porque os jornais da emissora noticiaram o evento como se fosse uma comemoração do aniversário da cidade. É uma notícia, news, e é falsa, fake.

O segundo exemplo, ironicamente, também tem a ver com a Globo, mas não se iluda, são táticas usadas por todos os órgãos da imprensa. Em 26 de novembro de 2011, numa entrevista ao programa Dossiê, da Globo News (que você pode conferir aqui), o próprio Boni confessou, não sem esconder o orgulho, que o debate entre Lula e Collor, que acabou sendo fundamental para a vitória do segundo em 1989, tinha sido inteiramente manipulado: da performance do candidato a seu figurino, tudo foi meticulosamente planejado para mostrar Collor sob uma luz mais favorável do que seu adversário. O ponto alto da manipulação foi a edição do debate no Jornal Nacional, selecionando apenas os momentos em que Collor se sobressaiu, para deixar o espectador com a impressão de que Lula tinha perdido o debate. Uma edição diferente teria criado a impressão oposta. Manipular a informação para provocar uma reação emocional, não é essa a definição de pós-verdade?

Pincei apenas dois exemplos. Seria possível escrever livros inteiros sobre o tema, e de fato, livros foram escritos. Um deles, justamente o Manufacturing Consent, cujo miolo é uma avalanche de dados, tabelas e estatísticas difícil de contestar. Diante desse quadro, é melhor ficar com os dois pés atrás quando os grandes veículos da mídia se apresentam como um antídoto contra a indústria de fake news. Numa sociedade capitalista, credibilidade é moeda de troca, ainda mais no capitalismo tardio, quando tudo o mais já foi vendido.

Mas então, como fazer? Estamos inevitavelmente sujeitos à manipulação da informação? O único poder de decisão que temos é o de escolher como e por quem vamos nos deixar manipular?

Não. Existe uma alternativa, mas ela exige quebrar a oposição simplória e binária real news x fake news.

“Não existem fatos, somente interpretações”, diz Nietzsche em um de seus aforismos mais conhecidos. A frase, que até hoje enfurece fundamentalistas de todos os naipes e estilos, significa que nenhum fato tem um significado inerente, objetivo e incontestável. Fatos só ganham sentido quando interpretados. Diferentes interpretações vão fazer com que o mesmo fato tenha significados diferentes para diferentes pessoas, como no célebre meme do 6 ou 9.

Partindo dessa premissa, devemos nos aproximar de qualquer notícia armados de consciência crítica. Precisamos perguntar a quem interessa que esta notícia seja apresentada sob este ângulo, e não aquele. Que tipo de reação emocional se espera que a notícia produza, e por quê. Comparar diversas versões da mesma notícia, de preferência em veículos opostos ideologicamente (Veja vs. Carta Capital, digamos, ou Globo e Mídia Ninja). Mas atenção, não para escolher qual versão reflete melhor nossas preferências, porque senão caímos no estereótipo cada vez mais comum do sujeito que só grita Fake news! quando não gosta da notícia. O objetivo é ver como o mesmo fato muda completamente de sentido quando visto de ângulos diversos. Com um pouco de sorte, eventualmente isso vai ajudar a nos livrarmos de alguns de nossos próprios vieses. Mas claro, consciência crítica é exatamente o que os Powers That Be não querem que você desenvolva. Para os poderosos de plantão, é sempre mais fácil manipular cachorrinhos de Pavlov condicionados a rosnar sempre que alguém disser “mamadeira de piroca”.

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