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a mulher do buraco de bala na cabeça #arquivos da foice 2

O fantasma de uma mulher volta para se vingar dos responsáveis pelas balas perdidas que frequentemente fazem vítimas no Rio de Janeiro. Ela carrega um revólver, mata sem piedade e tem um buraco na cabeça onde levou um tiro. Karen e Isa são convocadas para investigar a aparição por uma Ceifeira aposentada, uma condição rara dentro da Foice. Neste caso, são acompanhadas por Filipe, um buscador especializado em captar informações através de padrões e linhas de energia. É um dos poucos homens da ordem, constantemente monitorado por causa da corrupção entranhada na magia do mundo. Os três seguem uma pista até o alto do Morro da Providência, onde descobrem que a Mulher do Buraco de Bala na Cabeça esconde mais mistérios do que poderiam ter imaginado. Novos membros da Foice são apresentados e novos detalhes sobre a organização são revelados em uma história de tragédia e segredos sombrios.

O conto completo tem 53 páginas e está publicado na Amazon.

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A Mulher do Buraco de Bala na Cabeça


- Uma pequena amostra do Caso 2 -

Bala Perdida

Foi tudo muito rápido, tiros, gritos, um estampido.

Caiu com um baque surdo, o crânio estourado na parte de trás pela bala que atravessou o olho, vermelho vivo derramando-se pelos fios de cabelo desmanchado em uma poça agourenta. Era uma cidadã comum. Morava naquela área afastada do Centro e estava caminhando de volta para casa, apressada e atenta, até que parou, vítima da bala perdida, e não mais se levantou. Cartões de crédito, celular, blush, pertences pessoais espalhados de dentro da bolsa aberta no asfalto. O clarão trêmulo de uma sirene silenciosa a velava. Naquela noite, não chegaria em casa para o descanso merecido. Dadas as circunstâncias, talvez não houvesse descanso algum.

— Vai dá merda, sargento — o sangue começava a tocar na ponta do coturno. O policial deu um passo atrás.

— Lugar errado, hora errada, ela deu azar — o outro, mais velho, acendia um cigarro barato com um isqueiro fajuto.

— O que a gente faz?

— É melhor levarmos o corpo pra outro lugar.

Com o cigarro fumegando nos lábios, o policial mais velho inclinou-se, agarrou os pulsos da mulher morta e olhou para o cabo: — Vamos logo! Não temos a noite toda. — O policial mais novo, promovido à cabo na corporação havia pouco mais de seis meses, segurou os tornozelos, hesitante, e os dois moveram o corpo para longe dali.

Naquele horário, já entrando na primeira hora da madrugada, encontraram ruas fantasmagóricas para realizar o escuso serviço. A Gamboa vivia sob o jugo do medo pelo conflito interminável entre policiais e traficantes nas favelas ao redor. Vez por outra, alguém acabava atingido. A mulher era apenas mais uma vítima da rotina de tiroteios; terminou desovada em um terreno baldio longe do local onde foi baleada.

— Não sei se devíamos ter feito isso, sargento — enquanto caminhavam de volta para a viatura, o policial mais novo olhava de um lado para o outro tentando se certificar de que ninguém os estava observando.

— Se encontrarem o corpo aqui na nossa área vai pegar pra gente.

O mais velho limpava as mãos com um farrapo de pano que tinha encontrado perto da lixeira onde jogou a bolsa e os pertences ensanguentados. Ao terminar, entregou o pano ao cabo, sacou outro cigarro do maço e acendeu.

— Devíamos ter deixado pra vir amanhã com a operação para retirar as barricadas da entrada do morro.

O sargento parou e o encarou com severidade.

— Cabo, nós temos um trato — sombras medonhas deslizaram pelas rugas nas testas e olheiras, os dentes amarelos e descascados. — Eles queriam armas, nós demos as armas. Porra, até parcelamos o pagamento! Eles não pagaram, a gente sentou o dedo neles. É simples. Fizemos o que o capitão mandou. Lide com isso.

— Não imaginei que seria assim quando entrei pra polícia.

— Ninguém imagina — o sargento voltou a andar, um tom mais condescendente, o cigarro quase na guimba —, estou nessa vida há 35 anos, dos quais há pelo menos vinte eu lido com essa merda todo dia. Aprendi a engolir os sapos e fazer o que é preciso pra sobreviver. Daqui a alguns dias vou me aposentar, e no fim, estou aqui, vivo. Sobrevivi. Poucos policiais podem dizer isso no Rio de Janeiro. Minhas mãos estão sujas? Estão! Não me orgulho disso, mas fiz um bom pé de meia que vai garantir uma boa velhice pra mim e pra minha família. E se você quiser sobreviver a essa vida de merda, vai ter que aprender a se virar também. Com o tempo, todos aprendem.

O cabo engoliu em seco. Nada mais falou.

Entraram na viatura, o sargento deu a partida e saíram dali. Seguiam de volta para seu posto, quando um estranho brilho chamou a atenção deles. Vinha de algum lugar na calçada, de um muro de tijolos, e então, de repente, materializou-se na rua. Os faróis iluminaram a coisa, a claridade tornando-se mais intensa, cegante.

— QUE PORRA É ESSA?!!

— Não tô vendo nada! — o cabo levou a mão aos olhos.

Apagando o farol, conseguiram enxergar melhor. A luz diminuiu, tornou-se um brilho pálido, ilusório. Tinha forma de mulher, silhueta translúcida, cavidades negras no lugar dos olhos, rosto esquelético com um buraco rachado no crânio onde havia levado um tiro. Mirava um revólver na direção da viatura.

— Arrependam-se!

A voz surgiu na cabeça dos policiais, distorcida e cheia de raiva. A boca da mulher não se mexia.

— Vou acelerar! O que quer que seja, vou passar por cima — o sargento pisou fundo.

O cabo enrijeceu, espremendo-se no banco, olhos arregalados e dentes trincados. Suor escorrendo na testa.

À medida que se aproximavam, o cabo gritava.

O sargento gritava também.

Com um disparo oco, a mulher estourou a cabeça do motorista. Estilhaços do para-brisa uma nuvem de poeira branca e sangue. Subiu o odor nauseabundo de borracha queimada, o atrito dos pneus no asfalto arranhando o silêncio. Mais gritos alastrando o pavor. O carro se chocou com um muro, tijolos explodindo sobre o capô e o para-brisa, estraçalhando carne e lataria. O jorro vermelho encharcou as calças do cabo, já sujas de urina. Ao ver o corpo do parceiro pendendo para cima do seu, o couro cabeludo aberto escorrendo pedaços de cérebro sobre seu braço, assustou-se, se remexeu, tentou sair desesperado do banco e abrir a porta, mas estava preso. Gritou por ajuda, socorro, piedade, por Deus ou qualquer santo que o escutasse. Nas ruas etéreas daquela madrugada escura, ninguém o escutaria. E se alguém escutasse, nada faria, acreditando ser apenas mais um episódio da corriqueira violência da cidade. Quem morava ali estava acostumado a fechar os olhos e os ouvidos para o medo se quisesse viver mais um dia. Assim como ninguém se importou com a mulher que tinham acabado de desovar, o cabo sabia que ninguém se importaria com ele.

Pelo retrovisor quebrado, a coisa se aproximava. Não andava, deslizava flutuante em sua direção.

O estômago embrulhou. Desabou a chorar. O nariz escorrendo em lágrimas. Fungou, fungou, e veio o vômito incontrolável cuspido no para-brisa destruído. O vulto mais perto, ofuscava o espelho. O cabo olhava e gemia, tossiu pedaços mal cheirosos do jantar, engasgou, implorou por piedade.

— Não quero morr…

Mais um disparo.

Sangue e cérebro um espirro macabro a pintar a noite.

Ao lado da viatura, a mulher fantasmagórica apontava o revólver fumegante pelo tiro certeiro. Desfez-se devagar em um vapor branco bruxuleante até desaparecer completamente, deixando para trás o rastro sanguinolento de sua ira.


***

Menos de cinco minutos depois, os dois retornam.

— Descobriu alguma coisa? — pergunta Isa.

— É uma capela comum — responde Filipe. — Mas quero tentar algo, Isa, e vou precisar da sua magia pra isso.

— O quê?

— Vá para frente da capela — ele aponta a entrada, indicando para que Isa se posicione de frente para a escada. Ela obedece.

Depois faz o mesmo comigo e Ester, mostrando como devemos nos posicionar, cada uma em uma das laterais do Oratório. Por fim, ele fica na parte de trás da capela.

— Norte, sul, leste, oeste, cada um de nós está em um ponto cardeal — Filipe aumenta o tom de voz para todas escutarmos. — Karen, Senhora Ester, concentrem-se em Isa. Vou tentar estabilizar as Linhas de Ley para abrir uma Ponte de Ley. Isa, preciso que você use aquela sua magia de acesso à Interseção.

— Fácil, fácil — Isa agita os braços, sorridente, um brilho meio louco nos olhos esverdeados. Sempre se empolga quando tem oportunidade de usar uma de suas magias necromânticas.

Filipe fecha os olhos e ergue os braços, empenhando-se para abrir a Ponte de Ley, uma tarefa que não exigiria esforço em situações normais: — Vai! — ele dá o comando.

De olhos também fechados, escuto a voz de Isa rasgar o ar como um presságio, distorcendo, ecoando, recitando o encantamento.


# Made the scene, week a week. Day a day, hour a hour. The gate is straight, deep and wide. Break on through to the other side ~I control the Essence: The Doors. #


Filipe complementa, usando ele mesmo uma magia.


# Dança da realidade alterada que suspende as descrenças. Mentes insanas, corpos insanos. Os espíritos se divertem ~Eu controlo o Poder: Manipulação da Trama. #


O Morbo dos dois atua sobre as Linhas de Ley da área, moldando-as e realinhando-as em uma convergência direcionada para o Oratório. Abro os olhos. A capela emite um brilho pálido, uma linha de energia margeando a porta, fechando e abrindo em uma nova porta de pura energia mágica. Uma entrada antes invisível se manifesta para nós. Isa é a primeira: — Sigam-me — sobe as escadas e atravessa o portal.

— Acho que vou precisar de ajuda com isso, filha — Ester pede para mim. Apoio a ex-Ceifeira nos braços e seguimos para a porta. Ao atravessarmos, nos deparamos com uma escadaria de descida. Lá embaixo, do fim do caminho, vem uma claridade mórbida e fria. Descemos. Filipe, logo atrás da gente.

— Onde estamos? — pergunto.

— Na Interseção entre o mundo dos vivos e dos mortos — responde Isa, à frente.

— É assim que vocês, necromantes, enxergam a realidade? — é a vez de Filipe.

— Mais ou menos.

Chegamos à abertura de onde vem a luz, uma caverna cinzenta e incompleta. Parece estar se desfazendo aos poucos, um mero esboço do que foi um dia.

— Isso é ruim! — murmura Isa.

— O quê? — pergunto.

— É uma maldita Cova.

Alguns atos e suas repercussões negativas no ambiente sobrenatural ao redor são tão danosos para um Nimbo que começam realmente a deteriorá-lo. Quando a corrupção do Morbo chega a um ponto crítico e começa a reunir espíritos destrutivos, estas áreas tornam-se Covas. É um processo longo, que pode levar décadas, talvez séculos…


***

Conheça o Caso 3: A Lanterna dos Afogados

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