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Tropa de Elite, o filme que botou a política no saco

Tropa de Elite

Tropa de Elite foi um filme ao qual ninguém passou incólume. Numa época em que a rede social favorita dos brasileiros era o Orkut, onde todos queriam ser amigos, o longa dirigido por José Padilha gerou uma polarização inédita no público, ao menos nas proporções em que tomou. Dizer sua opinião sobre o filme era quase se posicionar politicamente sobre o que achava do Brasil. Essa polarização antecipou o que viria posteriormente com o Facebook e a política nacional após as Jornadas de Junho de 2013. O que não percebemos é como o filme iria moldar a vida do país uma década depois de ser exibido nos cinemas.

O filme gerou tanta polêmica porque é contraditório, de maneira que cada um acaba conseguindo enxergá-lo de maneira diferente, de acordo com sua própria visão de mundo. O roteiro original tinha como intenção mostrar a trajetória de Matias (André Ramiro), um jovem idealista que aos poucos vai se desumanizando dentro da Polícia Militar, a partir do treinamento para o Bope, os crimes que vê sem solução, a frustração de combater o tráfico de drogas sem resultados efetivos, a incompreensão da sociedade com seus sentimentos, tudo isso vai sendo construído até chegar ao ápice onde ele assassina a sangue frio, com um tiro no rosto, o chefe do crime local de uma comunidade.

Se o filme seguisse apenas nessa trajetória, estaria muito clara a crítica social embutida. Contudo, em certo momento, foi decidido que o protagonista seria o Capitão Nascimento, que com seus bordões e a atuação estupenda de Wagner Moura, acaba roubando a cena. Nascimento é o policial incorruptível com que a sociedade sonha. No entanto, é capaz de cometer sem pensar duas vezes as maiores atrocidades, tudo em nome do combate ao crime. Ele começa o filme já desumanizado. Em alguns momentos, a trajetória é até o contrário da de Matias. É preciso mostrar que ele é humano, sofre, ama sua família.

O filme tem essa dubiedade de ter um herói trágico que perde sua humanidade e um herói tradicional de blockbuster, que resolve tudo na porrada e no tiro. A plateia então, no lugar de lamentar a perda da humanidade de Matias, passa a torcer para que ela ocorra, para que possa impor pela violência a paz social tão almejada. Nascimento, que deveria ser visto com desconfiança, acaba se tornando o herói com o qual o público se identifica.

Veio então Tropa de Elite 2, no qual Padilha tentou passar uma mensagem mais clara, mas a emenda saiu pior que o soneto. Na continuação, há a preocupação de mostrar que o crime não ocorre só nas favelas, mas dentro da política e das próprias forças de segurança. É um ponto de vista bem válido, mas o filme se perde porque Nascimento novamente aplica a violência como solução. Há uma cena catártica onde ele faz com um político o que fazia com os bandidos do primeiro filme: tortura. A cena final, com o depoimento do ex-capitão e agora secretário na Assembleia Legislativa, aponta o dedo para todos e indica a necessidade de mudança na política. O público, contudo, já está anestesiado com a violência, e vê somente nela a esperança de salvação.

Padilha passou a usar então o mote do policial incorruptível e violento em suas obras. Em Narcos, mostra a operação da DEA americana na Colômbia, sem questionar o que é que agentes americanos faziam em território estrangeiro. No piloto, conta até a história de que Pinochet foi um ditador que ao menos expulsou os traficantes do Chile, algo que, além de não ter base histórica, contraria as notícias de que militares chilenos de alto escalão estavam envolvidos com o crime organizado.

Depois, apresentou a série O Mecanismo, em que romantiza a Operação Lava Jato como obra de policiais idealistas que se sacrificam pelo bem do país, mas não enxergam nenhum problema em praticar tortura psicológica nos presos para conseguir seus objetivos.

Sem perceber, Padilha ajudava a criar o clima político que anos depois resultaria na polarização política do país. A população procurava um Capitão Nascimento da vida real, que prometesse resolver os problemas do país na base da porrada, passando por cima das leis e das garantias constitucionais porque elas só serviriam para proteger criminosos. Isso acabou gerando candidatos e campanhas que buscavam afirmar não serem políticos, sendo que o que mais faziam era justamente política.

Na última eleição, tivemos uma renovação sem precedentes nos quadros políticos do país. Movidos por um sentimento genuíno de mudança, a população votou em peso em candidatos que prometeram soluções drásticas para o combate o crime. Um candidato parecia querer dizer mais atrocidades que o outro em busca de votos. Contudo, não se pode esquecer que os crimes violentos que sofremos nas ruas não ocorrem isoladamente do resto da sociedade. O tráfico de drogas e armas mexe com vultosas quantias de dinheiro, alimentando o sistema financeiro e político do país. E há experiências como a do México, onde simplesmente aumentar a repressão sobre o crime, sem outras medidas sociais, acabou por reforçar as estruturas criminosas dentro do próprio Estado.

Não sabemos até que ponto tais políticas serão realmente implementadas no país, e quais serão os resultados. Inclusive o custo delas em vidas humanas, e não só a dos bandidos. Super-heróis violentos e com boas frases de efeito podem funcionar bem na ficção, mas na vida real, tentar resolver problemas complexos com soluções mágicas costuma resultar em finais trágicos. E devemos nos lembrar de que política não é futebol, onde cada um “torce” pro seu time ganhar, idolatrando políticos e juízes acriticamente. A política é algo que deve ser feito no dia a dia, por cada um de nós, e não apenas teclando uns números numa urna a cada quatro anos.

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