Cultura Pop

Magia e anarquismo

Magia e Anarquismo, Foto: Fawkes, de Randal Roberts

O encontro entre magia e anarquismo vem sendo preparado há muito tempo ao longo da história. Embora, nas tribos ditas primitivas, o feiticeiro frequentemente fosse parte integrante da ordem estabelecida, cuja autoridade andava pari passu com a do chefe político, e às vezes ambos os papéis fossem encarnados pela mesma pessoa, o xamã solitário, que vivia à margem da sociedade e era encarado com um misto de reverência e desconfiança pela comunidade, também não era uma figura incomum. À medida que adentramos os tempos históricos, essa dualidade se mantém e continuamos encontrando, lado a lado, o mago da corte, prodigalizando seus conhecimentos em benefício dos reis, e o bruxo antissocial, que persegue suas metas completamente isolado dos negócios políticos.

Individualismo, porém, ainda não é anarquismo. O cultivo da individualidade e o respeito ao espaço pessoal são, na melhor das hipóteses, o terreno psicológico a partir do qual uma atitude anarquista pode se desenvolver. Em termos aristotélicos, é uma condição necessária, mas não suficiente. Para que a atitude de rejeição às coisas do mundo – especialmente as de natureza política – se cristalizasse em uma postura afim do anarquismo, foi preciso que entrasse em cena um outro fator, que atribuísse um significado ontológico à individualidade e estabelecesse, de uma vez por todas, sua oposição às hierarquias e estruturas de poder.

Esse fator foi o gnosticismo. Contemporâneo do cristianismo, mas alcançando seu ápice no século II da nossa era, o movimento gnóstico efetuou uma síntese de todas as religiões e crenças do mundo antigo, reconfigurando-as para adaptá-las a uma nova visão de mundo. No coração do gnosticismo, está a convicção visceral de que o mundo em que vivemos não é a verdadeira realidade, mas um simulacro ilusório criado com o único propósito de escravizar a consciência humana.

Assim, nossa realidade consensual é modelada e atravessada de cabo a rabo por um mesmo sistema de dominação universal, que rege desde as leis naturais – o que hoje denominaríamos de condicionantes biológicos do nosso comportamento – até a esfera metafísica. Nossa própria psicologia é ao mesmo tempo um resultado e um instrumento para a manutenção do sistema. Os gnósticos valentinianos denominavam esse sistema de sístase. E, evidentemente, a autoridade política, em todos os seus níveis, não passa de um representante autorizado da sístase, a encarnação viva dos princípios e leis cujo único propósito é manter o ser humano submisso. Daí que o gnosticismo se caracterize por uma tendência que os especialistas denominam de antinomialismo (do grego nomos, lei), ou seja, uma oposição sistemática a todas as formas de lei e de autoridade.

Não é difícil reconhecer na tendência antinomialista dos gnósticos a raiz do anarquismo. De fato, se estudarmos a história do pensamento anarquista, veremos que ele remonta a movimentos político-religiosos que explodiram na Europa a partir do século XII, a maior parte dos quais era uma revivescência do gnosticismo. Assim, o anarquismo pode ser considerado, sem nenhuma simplificação, como uma espécie de versão laica do gnosticismo, o gnosticismo despojado da moldura metafísica que lhe servia de base.

Acontece que a magia ocidental, da forma como veio a se constituir do século II em diante, também tem seus fundamentos no gnosticismo. Quando os gnósticos promoveram sua síntese de todas as religiões presentes no mundo antigo, atribuíram uma posição de destaque à filosofia neoplatônica, que tinha como principal objetivo entrar em contato com as forças arquetípicas, personificadas sob a forma de deuses. As fórmulas e técnicas desenvolvidas pelo neoplatonismo para invocar esses deuses, e que são chamadas de teurgia, foram incorporadas ao gnosticismo na íntegra, e as imagens arquetípicas eram vistas como um símbolo para a verdadeira realidade, cuja percepção normalmente nos é toldada pelo mundo de sombras que é nossa realidade consensual.

Foi assim que surgiu o que ficou conhecido no esoterismo ocidental como alta magia. A alta magia se distingue da baixa magia (também chamada de feitiçaria) porque, nesta última, o mago invoca as forças arquetípicas com o objetivo de influenciar determinados aspectos da nossa realidade em seu próprio benefício ou em benefício dos que o contrataram: a magia é utilizada para conseguir fama e fortuna, para derrotar inimigos ou atrair amores. É inteiramente voltada para as coisas do mundo, e as forças arquetípicas não passam de instrumento para se conseguir algum ganho material.

Por sua vez, na alta magia, que continua coerente com os pressupostos do gnosticismo, o mago procura invocar as forças arquetípicas com a finalidade de promover uma alteração em sua própria consciência, libertando-a dos padrões cognitivos e comportamentais que alimentam o estado de sístase, na mesma medida em que mantêm a consciência acorrentada ao sistema. Personificadas ou não sob a forma de deuses (isso varia de escola para escola e depende muito do estilo particular do mago), as forças arquetípicas atuam como ácidos que dissolvem as estruturas calcificadas da consciência, liberando suas energias para a percepção de outros níveis da realidade. Com isso em mente, “Fawkes” ilustra esta coluna na arte de Randal Roberts.

É evidente que, em sendo o mago bem-sucedido nessa tarefa, ele inevitavelmente entra em choque com as hierarquias políticas, que atuam como cães de guarda do sistema. Como disse São Paulo, num contexto que só é diferente na aparência, a graça eleva o homem acima das leis deste mundo, tornando-o independente da obediência à autoridade secular. É por esse motivo que, ao longo de toda a era cristã, na maior parte das vezes – com algumas exceções que apenas confirmam a regra –, os magos viram-se impiedosamente combatidos pelos representantes da ortodoxia, estivessem estes travestidos de governos, sacerdotes ou cientistas. A baixa magia pode ser instrumentalizada pelo poder. A alta magia é sempre subversiva.

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Aperte o Play