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22 de Julho

22 de Julho

Nível Heroico

As consequências do extremismo político

(July 22) – Drama. Estados Unidos, 2018. De Paul Greengrass. Com Anders Danielsen Lie, Jon Øigarden e Jonas Strand Gravli. 2h24min. Distribuidora: Netflix. Classificação: 16 anos.

O diretor Paul Greengrass é famoso por seu estilo documental, de cinema verdade, que sabe colocar o espectador no meio de envolventes e tensas cenas de ação. Seja em filmes inspirados em fatos reais (Capitão Phillips) ou ficcionais (como os da franquia Bourne), essa parece ser a marca registrada do diretor: um senso de urgência e realismo que dispensa efeitos especiais e toca o âmago do espectador. Quando ele utiliza isto para mostrar as consequências da violência do extremismo político, o resultado é o impactante 22 de Julho, produzido e já incluído no catálogo da Netflix.

No longa, vemos as ações de Anders Behring Breivik (Anders Danielsen Lie), um fanático de extrema direita que resolve cometer um atentado à bomba na cidade de Oslo, Noruega, e em seguida se dirige à convenção anual da juventude do Partido Trabalhista norueguês, realizado na ilha de Utoya, onde abre fogo contra inocentes, com um resultado final de 77 mortos e mais de 200 feridos. Depois, acompanhamos seu julgamento em paralelo com a recuperação de Viljar (Jonas Strand Gravli), uma das vítimas sobreviventes.

Dividido em 3 atos, o primeiro deles se dedica a mostrar o atentado em si. E o estilo de Greengrass torna tudo muito forte e difícil. Embora tenha cuidado em não mostrar violência gráfica, o realismo do que é retratado em tela não deixa incólume o espectador, que sente pela morte de cada uma das vítimas. É bom assistir com um certo preparo emocional (eu mesmo tive que parar o filme, respirar um pouco, pra depois voltar). E para isso não é preciso apelar para a violência como espetáculo, como muitas vezes é o padrão no cinema comercial. Aqui, tudo é humanizado, e por isso é tão difícil.

O segundo ato se preocupa em mostrar o momento imediatamente posterior ao atentando, com a prisão do terrorista, a reação do governo, a tentativa dos médicos em salvar a vida de Viljar. O terceiro ato, por fim, centra-se na recuperação de Viljar e no julgamento de Breivik. Nesta parte, ganha destaque também o advogado de Breivik (Jon Øigarden), obrigado legalmente a defender um cliente que representa tudo em que ele não acredita, e ainda assim não foge ao cumprimento de seu dever, fazendo investigações e tentando encontrar a melhor maneira de fazer uma defesa ética de quem cometeu um crime tão bárbaro.

Depois de um primeiro ato extremamente ágil, os dois seguintes sofrem um pouco com o ritmo, e na verdade poderiam ter sido retiradas algumas cenas para fazer a trama fluir melhor. Ainda assim, o produto final é forte o bastante. A atuação dos atores principais está excelente, conseguindo passar humanidade tanto do algoz quanto da vítima.

O clímax do filme se dá quando Viljar dá seu depoimento no tribunal, encarando de frente Breivik. E aqui o estilo documental do diretor funciona mais uma vez muito bem, passando ao espectador a dor do personagem que tem que encarar seus piores medos para conseguir prosseguir.

Talvez esteja nessa cena final a grande importância do filme. A ascensão do extremismo político da extrema direita traz consequências nefastas, com a violência e o medo tentando dominar a sociedade e paralisá-la. Assusta a frieza com que Breivik apresenta seu ponto de vista, pois o que ele defende é o mesmo que muitos políticos também defendem: ódio aos imigrantes, intolerância religiosa e a defesa da morte de quem discorda de seu ideal conservador, como se a vida de um “liberal” ou “marxista” valesse menos e tivesse que ser removida em nome de uma pureza e da volta a um passado idealizado que na verdade nunca existiu.

No lugar do diálogo, o extremista quer impor pela força sua visão de mundo. Contudo, apesar de todo o estrago que seus seguidores possam causar, é apenas o encarando de frente (e reafirmando que o medo não pode superar o amor e os sonhos) que é possível resistir. Ao aceitar depor no tribunal, Viljar pretende afirmar que ele é o vitorioso, pois sobreviveu ao ódio de Breivik. É um processo doloroso e a batalha não é fácil. Mas combatê-lo é a única opção possível.

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