Multiverso

Filmes demais… mas com amor (parte 2)

Filmes Demais Com Amor 2

Alguém precisa parar a Netflix.

No meu último texto por aqui, falei sobre os “traumas” que a representação do amor romântico nos filmes causou na minha vida e citei a pá de cal que foi A Barraca do Beijo, que me fez relembrar, no auge dos meus 35 anos, o que é ter um “crush”.

Achei que estava tudo bem até aí. Mas a Netflix não achou suficiente. E de repente, surge em minha vida Para Todos os Garotos que Já Amei e um tal de Peter Kavinsky, personagem que representa o namorado que toda menina gostaria de ter na adolescência. O plot é simples e bobo demais: garoto e garota se envolvem num namoro fake por conta de circunstâncias externas (só um pouquinho de spoiler, tá?!) e acabam se apaixonando de verdade e blá blá blá. Fato é que toda e qualquer mulher que parou pra ver essa “obra-prima” não fala em outra coisa nos últimos tempos. Todo mundo apaixonado, bastava procurar pelo ator Noah Centineo na busca de filmes e se deparar com um outro hit adolescente, SPF 18, filme ruim de dar dó, mas que certamente ganhou certa audiência por conta da presença do rapaz. E justo quando se achou que a moda estava passando, a Netflix, esta incansável romântica, soltou Sierra Burgess is a Loser, que trazia o mesmo “colírio Capricho” dos filmes anteriores como o mocinho que fica com a protagonista fora dos padrões, quebrando todo o estigma do atleta popular da escola e mais blá blá blá.

Nasce uma estrela. Noah Centineo, que já era conhecido pelo público mais novo seguidor de Disney Channel e pela horda teenager que acompanha a série The Fosters, agora povoa também a imaginação de jovens senhoras beirando os 40. O ator de 22 anos já teve nudes vazados, aparece bem louco no stories do Instagram e já tem um discurso prontinho de “boyfriend material” a cada entrevista que dá. Quer um exemplo? Ele anda dizendo por aí que, em um dos primeiros encontros que teve com uma garota, levou livros pra trocar e passaram todo o tempo lendo, até o beijo final na hora da despedida. Aí eu te pergunto, querido leitor: livros no encontro? Sério mesmo que ele quer que a gente compre essa ideia? Só que a gente compra, compra tudo. Porque ele sabiamente dá essa informação olhando pra câmera com o olho meio fechado, a voz rouca e grossa meio rasgadinha e um sorriso de canto de boca. Taí a Netflix milionária e um monte de moleque agoniado correndo pra livraria pra fazer igual.

O fenômeno ainda tem outros desdobramentos como permitir que eu tenha um papo de igual pra igual com a minha irmã mais nova e me causar uma reflexão antropológica sobre os galãs de hoje em dia. Na minha adolescência, o padrão de beleza era Brad Pitt, Tom Cruise, Johnny Depp ou Leonardo DiCaprio, homens totalmente perfeitos sem um micro defeito. Mas Noah tá lá do jeitão dele, alto demais, desengonçado demais, com uma cicatriz do lado da boca e um carisma meio bobão que rouba a cena de todas as entrevistas.

Mas o mais importante de observar em todo esse movimento da Netflix é o resgate do clima de “Sessão da Tarde” que eles tem feito com essas produções. O fato de eu, na casa dos 30, estar encantada com esses filmes, se deve muito às referências oitentistas que estão rolando soltas, como uma dica de filme que a personagem de Lana Condor dá em Para Todos os Garotos (…), quando ela diz ao personagem de Noah Centineo que ele precisa assistir Gatinhas e Gatões e se surpreende por ele não conhecer a obra de John Hughes, o mestre dos filmes adolescentes da década de 80. O mesmo acontece em Sierra Burgess, mas de um jeito mais easter egg: a mãe de Sierra é Lea Thompson, a mãe de Marty McFly em De Volta para o Futuro, e o pai, o ator Alan Ruck, o Cameron de Curtindo a Vida Adoidado. Já em SPF 18, a mãe da protagonista é Molly Ringwald, a Garota de Rosa Shocking, que também aparece em A Barraca do Beijo como mãe do protagonista. Ainda em SPF 18, a mãe do galãzinho é Rosanna Arquette, de Procura-se Susan Desesperadamente e no final do filme surge um Keanu Reeves surfistão desavisado, lembrando muito Caçadores de Emoção.

E assim, a Netflix agradou jovens e coroas, fórmula que já estava ensaiando com Stranger Things e o resgate de Winona Ryder. O diferencial dos filmes em relação à série, é que esses de fato se passam nos tempos atuais, o que traz uma modernização das histórias de John Hughes e insere elementos como as mensagens de celular e as ligações via face time.

Então, se você quiser voltar um pouquinho no tempo e experimentar de novo a sensação de dar uma relaxada vendo um filme depois de Vamp, a Netflix te entende e tá na missão pra ajudar a realizar esses sonhos e manter o nosso espírito jovem.

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