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A Primeira Noite de Crime

A Primeira Noite de Crime

Nível Exemplar

O racismo é a causa de tudo

(The First Purge) – Horror. Estados Unidos, 2018. De Gerard McMurray. Com Y’lan Noel, Lex Scott Davis, Marisa Tomei e Patch Darragh. 1h38min. Distribuidora: Universal. Classificação: 18 anos.

Confesso que ando meio reticente quando se trata de prequels. Na maioria das vezes, as prequels buscam mais capitalizar em cima de uma franquia de sucesso do que acrescentar realmente algo que já não saibamos. A vantagem da série Uma Noite de Crime é o fato de ela ter uma “história de origem” ainda nebulosa, sem grandes aprofundamentos, mesmo depois de três filmes. Por isso, uma prequel para mostrar como nasceu a “Noite de Crime” poderia dar certo. O filme tem a intenção de capitalizar em cima da franquia de sucesso, claro!, mas a grande sacada é a forma como o faz.

A história conta que a ideia nasceu do interesse por fazer um “experimento” psicológico e social encabeçado pela Dra. May Updale (Marisa Tomei), mas o projeto é distorcido pelo chefe de gabinete dos fundadores da Nova Direita, Arlo Sabian (Patch Darragh), que o transforma em uma noite de limpeza étnica sancionada. Quando suas intenções não saem exatamente como planejado, Sabian institui esquadrões de morte mascarados que saem pelas ruas fazendo esta limpeza em nome do “bem-estar social”. Assim, surge a Noite de Crime: anualmente, por um período de 12 horas, qualquer tipo de crime, incluindo assassinatos, é permitido pela lei, sem que haja quaisquer implicações aos criminosos.

A série Uma Noite de Crime – The Purge, no original – sempre teve um viés sociológico embutido em sua narrativa: sobre como a Noite de Crime é usada para conduzir verdadeiros extermínios da população que vive nas periferias; mas esta prequel vai além, e por isso ganha pontos valiosos por existir. James DeMonaco, criador da franquia e escritor desta prequel, apresenta em seu enredo as motivações nitidamente racistas por trás da noite em que tudo é permitido. Como já ficava claro nos filmes anteriores, o ódio é a razão! E o ódio disfarçado de boas intenções traz apenas violência e morte.

O diretor Gerard McMurray conduz a premissa com mãos firmes, ao lado de um elenco afiado, com destaque para Nya (Lex Scott Davis) e seu namorado, Dmitri (Y’lan Noel), que tentam sobreviver à Noite de Crime. Enquanto isso, é interessante ver como a população lida com esta primeira noite de “experimento”. Ao invés de se matarem, eles tentam fortalecer a união e o espírito de comunidade. São contrapontos bem estabelecidos, que mantêm certo equilíbrio entre a tragédia da matança e a esperança de se manter algum resquício de humanidade em meio a tanto horror.

A Primeira Noite de Crime é essencialmente um filme de monstros. Só que os monstros são as pessoas. O sangue que escorre pelas sarjetas é o sangue de filme B regado à ultraviolência, como é o restante da franquia – e qualquer filme B que se preze. – Mas diferente da maioria das prequels, tenta acrescentar algo relevante à série como um todo, levantando questões sociais e humanas justamente para criticar as razões de toda a sua violência. Nem sempre o roteiro é eficiente em sua abordagem, mas, no geral, ele o faz com sabedoria. Só por isso, já vale a pena.

A Primeira Noite de Crime Alan Barcelos
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