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Manto & Adaga

Manto & Adaga

Nível Exemplar

Primeira Temporada

(Cloak & Dagger) – Ação. Estados Unidos, 2018. De Joe Pokaski. Com Olivia Holt, Aubrey Joseph, Gloria Reuben, J.D. Evermore, Miles Mussenden, Andrea Roth, Emma Lahana, Carl Lundstedt e Ally Maki. Freeform Channel. 10 episódios. 45 min.

Talvez uma das grandes surpresas em termos de filmes e/ou séries de super-heróis em 2018, Manto & Adaga é uma trama enxuta que tem tudo para agradar o público infanto-juvenil ou mesmo o público satisfeito com as séries da parceria Marvel TV e Netflix. Seu estilo de narrativa aproxima-se de seriados como Demolidor, Luke Cage ou Jessica Jones. Não lembra em nada a desastrosa primeira temporada de Punho de Ferro (também da Netflix), a insossa e desperdiçada trama de Fugitivos (Hulu) ou ainda o fracasso dos Inumanos (ABC).

A série, curiosamente, apresenta-se mais como um sucesso de crítica do que de público. Talvez o pouco público se explique por pertencer a um canal pouco conhecido, o Freeform. Ainda assim, Manto & Adaga conecta-se ao universo da Marvel TV, ao apresentar uma personagem que cita sua amizade com Misty Knight. No site Rotten Tomatoes, a série aparece numa lista que compara todas as séries da Marvel TV feitas até hoje e se posiciona em segundo lugar, segundo a crítica, em termos de qualidade. Ganharia de todas as outras séries do Universo Marvel e apenas perderia para Agents of S.H.I.E.L.D.

Ainda que pareça um pouco exagerada essa posição de segunda melhor série da Marvel TV, atualmente, são compreensíveis os elogios da crítica. Mas também incompreensível porque o grande público não conhece muito a série.

O grande mérito da série é sua narrativa enxuta em apenas 10 episódios. Nada de 22 episódios, como os seriados de super-heróis do CW Channel, ou mesmo os seriados em 13 episódios da Netflix. Tal economia de episódios, que ficam na média de 45 minutos cada um, permite que o público acompanhe seus dois personagens principais sem se cansar ou ver uma trama que empurre com a barriga os acontecimentos.

Outra boa sacada, que alguns fãs mais radicais não gostaram, foram algumas alterações quanto à HQ original criada por Bill Mantlo e Ed Hannigan em 1982. Ou melhor, algumas alterações em torno da vida dos personagens principais. A jovem branca Tandy Bowen (Adaga) originalmente era uma adolescente rica, filha de um multimilionário e de uma supermodelo. O jovem negro Tyrone Johnson (Manto) cresceu em Massachusetts, em um de seus bairros mais pobres, com problemas de articulação de fala, dificuldades econômicas, vivendo como um sem-teto e usando-se do roubo para sobreviver. A grande sacada do seriado é exatamente inverter a classe social dos personagens: a jovem loura nasce, sim, em berço multimilionário, mas na infância já perde tudo com o assassinato do pai, tornando-se, ela, uma sem-teto e uma hábil ladra; o jovem negro, no seriado, vem de uma classe média alta norte-americana, com ótimas condições de vida, ótima educação e não faz parte de uma classe social economicamente desfavorável. Porém, a perda de seu irmão se dá em um recorte claro de preconceito racial.

O primeiro encontro entre os dois, que no original se daria apenas na adolescência, se dá, ainda que rapidamente, num evento traumático que os dois personagens compartilham na infância e em que ganham seus poderes. Um evento traumático desencadeado pelo grande vilão: a Roxxon Energy Corporation. Em sua louca disputa de mercado, Peter Scarborough, CEO da Roxxon, justifica suas ações, no seriado, pela competividade com a Stark Industries e a Rand Enterprises.

A partir dessa reconstrução, Manto & Adaga aproveita para discutir, de forma descompromissada, algumas questões relacionadas à violência contra a mulher (no grande plot envolvendo Adaga) e o racismo (no grande plot envolvendo Manto). São duas questões que, aparentemente, não são compreendidas pelos próprios personagens, mas que, ao longo do seriado, são bem trabalhadas.

Há alguns episódios temáticos, como o metalinguístico, que apresenta o conceito de Jornada do Herói ao longo de toda sua narrativa, fazendo um paralelo com a própria jornada dos dois personagens principais. Mas, talvez, o melhor episódio da primeira temporada de Manto & Adaga seja o episódio de looping temporal. Nele, Manto e Adaga conseguem se conectar a um cientista em coma e, dentro do seu cérebro, travam uma luta para não se verem presos naquela realidade aparentemente confortável.

Sobre os atores principais e seus personagens, a bela e talentosa atriz Olivia Holt rouba a cena como Adaga sempre que aparece. Sua personagem é forte, determinada e em luta contra a depressão e o vício em drogas. Os grandes momentos do seriado são com ela. Mas a construção de Aubrey Joseph em torno de Manto também é muito boa, especialmente pela forma mais do que acertada com a qual os roteiristas trabalharam a problemática da questão racial em torno dele. É algo presente em todo momento, ainda que de forma sutil. O fato do personagem também se relacionar com práticas do Vodu e com a tradição do Mardi Gras, em Saint Louis, é ótima. Até porque o manto que o personagem usa surge como uma fantasia de carnaval do Mardi Gras, tudo muito simbólico, tudo muito assertivo em termos de consciência racial do personagem.

Tendo uma empresa como vilã central, não há muito espaço para vilões ou casos da semana. A trama corrida ao longo dos 10 episódios não perde tempo em criar inimigos superpoderosos do nada. O que pode desagradar alguns. Porém, o showrunner já afirmou que vilões mais superpoderosos estão sendo preparados para a segunda temporada. O seriado só tem a ganhar com isso, especialmente se não perderem de vista os acertos até aqui. Não é uma série revolucionária, deve ser vista sem compromisso, mas a tendência é agradar bastante ao público dos personagens da Marvel Studios e ao público infanto-juvenil em geral.

Manto & Adaga Dell Freire
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