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O Brasil não é para amadores

O Brasil não é para amadores

Começo este post pedindo desculpas aos leitores do Nível Épico. Esta coluna era para sair no domingo mas, por conta das atribuições do dia a dia, só pude sentar para escrever agora há pouco. Confesso que estava sem ideia alguma para o tema, entretanto, eis que o noticiário da semana acabou gerando a pauta.

A semana onde comemoramos 196 anos da Independência do Brasil já começa com uma tremenda voadora no peito da população: o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista é consumido quase que em sua totalidade por um incêndio de grandes proporções. No exato momento em que as chamas estavam em seu auge, eu estava dirigindo pela Linha Vermelha e, bem na altura do Campo de São Cristóvão, consegui ver não só a fumaça, cuja cor estava avermelhada por conta da iluminação que recebia do fogaréu, como também as labaredas propriamente ditas. A cena, que durou pouquíssimos segundos para mim, pois tinha que prestar atenção no trânsito, obviamente, me causou um grande aperto no coração e o mesmo estado catatônico em que fiquei no dia 11 de setembro de 2001, quando tinha acabado de chegar em casa vindo da faculdade e me preparava para seguir rumo ao estágio até que a TV me faz esquecer de meu itinerário ao ver as duas torres do World Trade Center em chamas. Tudo isto porque, oito anos antes, os arranha-céus da Ilha de Manhattan foram umas das coisas que mais me impressionaram na viagem que fiz com a família para Nova York. Eu não conseguia acreditar que aqueles edifícios colossais viravam pó diante dos olhos do mundo e não havia absolutamente nada que pudéssemos fazer. Por uma incrível ironia do destino, no exato dia em que visitei as Torres Gêmeas, os funcionários tinham isolado uma área entre os edifícios e estavam dando uma senhora festa em comemoração à conclusão das obras de recuperação do atentado acontecido em Fevereiro de 1993.

É claro que as comparações com o que aconteceu em Nova York, no ano de 2001, e o que aconteceu ao Museu Nacional no último domingo param por aí. O Palácio da Quinta da Boa Vista tinha uma importância cultural tremenda não só para o Brasil, mas como para o mundo. Em seu acervo, tinham peças de valor inestimável para a Humanidade e que vários de seus itens foram adquiridos pelo próprio Imperador D. Pedro II, que não só era fascinado por ciência e tecnologia, como tentava trazer tudo isso para desenvolver o país, ou seja, D. Pedro II tinha sangue nerd correndo em suas veias antes mesmo do termo nerd surgir em nosso vocabulário!

Creio que todo carioca até pouco tempo atrás já foi ao museu, pelo menos, uma vez na vida. Cheguei a visitar o Museu Nacional duas vezes na minha vida: uma vez com minha mãe e meu irmão e outra vez em uma visita com o colégio. Posso dizer que curti muito estas duas visitas, pois, sempre aprendíamos algo, sempre tinha uma nova descoberta sobre algum fato de nossa História. Fico triste por não ter conhecido Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, que “só” fez a comunidade científica mundial repensar toda a teoria de migração de povos para o continente americano. Assim como não consegui ver o dinoprata, fóssil de um espécime de dinossauro encontrado na cidade de Prata, no Estado de Minas Gerais. O Museu também abrigava uma das maiores coleções de insetos do mundo, assim como, uma coleção interessantíssima de artefatos da América pré-colombiana, uma seção totalmente dedicada à cultura africana e por aí vai. Sem contar todo o aspecto histórico do prédio que, não só abrigou a família Real como também foi palco de eventos históricos importantes como, por exemplo, a assinatura da Constituição de 1824, a primeira Constituição do Brasil. Tudo isso virou cinza e, ao contrário do caso do World Trade Center, cuja comparação como já adiantei não vale aqui, poderia ter sido evitado. Desde 2004, existem registros na internet de alertas para o estado de conservação precário do museu. Os alertas que os funcionários davam à administração de que o prédio poderia pegar fogo a qualquer momento não são de hoje. Inclusive, existem boatos de que, uma semana antes do incidente, um dos funcionários do museu saiu de uma reunião com os administradores gritando justamente sobre o perigo iminente de um incêndio acontecer no Palácio, que completava 200 anos neste ano. E, antes que apareça alguém aqui, culpando o governo X ou Y por não ter destinado verbas para a conservação do museu, vamos esclarecer que a instituição esteve sob a administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro até o momento, ou seja, independente da quantia repassada pela União, quem decide a destinação deste repasse é a própria administração da UFRJ. O que nos faz concluir que o maior problema do Brasil não é falta de recursos, mas sim o quão mal eles são administrados e, como Roberto Justus já disse na sala de reunião do sexto episódio da terceira edição do programa O Aprendiz, logo após um dos participantes “demiti-lo” de sua vida, o empresário diz que o Brasil é um exemplo de como as cidades são mal administradas. Não só as cidades, Roberto, mas é um exemplo do quão a Administração Pública, de um modo geral, é pessimamente administrada.

A “cereja do bolo” foi ver que a destruição do museu foi tanto comemorada por alguns como desdenhada por outros com justificativas tão estúpidas que nem valem mencionar aqui. Para estas pessoas, deixo o vídeo abaixo de uma visita mediada ao museu e a frase do ativista jamaicano Marcus Garvey: “um povo sem conhecimento de sua história, origem e cultura é como uma árvore sem raízes.”

Creio que se quisermos mudar esse quadro, se quisermos realmente um Brasil melhor, a chance que temos de mudar algo é agora. As eleições de 2018 estão aí. Portanto, vamos analisar as propostas de cada candidato, vamos votar certo. Pelo bem do nosso futuro e do nosso país porque, diante de tudo isso, definitivamente, o Brasil não é um país para amadores.

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