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The Deuce

The Deuce

Nível Épico

Primeira Temporada

(The Deuce) – Drama. Estados Unidos, 2017. De David Simon. Com James Franco, Maggie Gyllenhaal, Gbenga Akinnagbe, Chris Bauer, Gary Carr, Chris Coy, Dominique Fishback, Lawrence Gilliard Jr., Margarita Levieva, Emily Meade, Natalie Paul e Michael Rispoli. HBO. 08 episódios. 60 min.

O que impressiona na primeira temporada de The Deuce é o domínio de narrativa de David Simon. Porque ele consegue em poucos episódios estabelecer um universo tão rico quanto a sua série premiada The Wire, sempre lembrada ao lado de outras (Sopranos, The Shield, Breaking Bad) quando se pensa nas maiores séries já feitas. O trabalho de Simon pode ser melhor compreendido com a leitura do livro Homens Difíceis (2014; Aleph), de Brett Martim, que esmiúça com detalhes como se dá o trabalho do jornalista e roteirista em sua série de sucesso.

O olhar sobre a vida de Nova York dos anos 1970 e, posteriormente, anos 1980, enfocando a transição da prostituição das ruas de Manhattan para os cinemas pornôs, obedece a mesma estrutura de The Wire; ou seja, se você curtiu a outra série, certamente aproveitará bastante dessa que também possui diversos personagens, todos protagonistas, através de uma divisão em diversos núcleos bem estruturados e que permite que os holofotes recaiam sobre praticamente todos os personagens. E o cenário guarda semelhanças, pois tanto a Baltimore de The Wire quanto a Nova York de The Deuce são igualmente celeiros de pessoas marginalizadas, excluídas da sociedade e que escolhem um determinado símbolo para gerir poder e riqueza. Se em The Wire o poder simbólico residia nas drogas, em The Deuce o poder está no sexo e naqueles que comandam a cadeia de venda de corpos nos calçadões.

Por isso, é interessante como o seriado se preocupa em demonstrar como minorias marginalizadas buscam a sobrevivência. Mulheres, negros e homossexuais que não tiveram escolha a não ser cair na marginalidade são ao mesmo tempo retratados com uma ótica crua, mas também sensível. Destaque absoluto, nesse sentido, para a construção da personagem Eileen “Candy” Merrell, vivida por Maggie Gyllenhaal. Se há uma coisa que se sobressai no seriado é a interpretação de Gyllenhaal, mostrando uma mulher forte, a única das ruas que não depende de um homem para traficar seu corpo, que ainda tem um filho para cuidar e tem um profundo fascínio pelo mundo cinematográfico. Gyllenhaal é o coração da série e, se as próximas temporadas mantiverem o nível, ela continuará a ser.

As personagens femininas são importantíssimas e Simon consegue, apesar da dificuldade do tema, não trazer nenhuma cena gratuita, ou seja, nenhuma nudez feminina é mostrada para uma simples excitação do público e sim para que se possa compreender melhor aquelas personagens e aquele universo. A própria cena de sexo de Gyllenhaal com um homem que não é seu cliente é emblemática nesse sentido.

Mas todo o elenco é ótimo, com destaque para a seleção de atores e atrizes negros, algo pelo qual David Simon sempre teve um enorme cuidado em seus seriados, descobrindo grandes atores, como Idris Elba, entre outros. Aqui o destaque fica para os atores que vivem os cafetões negros, os chamados pimps, de roupas coloridas e chapeis de abas largas, que exercem um poder quase magnético sobre as mulheres que estão sob suas asas. Rappers como Method Man e Tariq Trotter, entre outros, conseguem interpretações que demonstram o machismo, a violência e a falta de preparo desses profissionais para a inevitável queda com o surgimento da indústria pornô.

Ainda que em menor escala, mas também presentes, alguns personagens homossexuais surgem, especialmente demonstrando como o simples fato de irem para as ruas à noite poderia fazer com que eles fossem presos. Esse enfoque surge especialmente no personagem vivido por Chris Coy, dono de um bar que inicialmente possuía uma clientela gay, mas remaneja seus negócios para Vincent Martino, personagem vivido por James Franco.

São os dois personagens de Franco, irmãos gêmeos, que conduzem a trama principal. Vincent Martino está em decadência, mas um chefe mafioso simpatiza com sua obstinação e lealdade e lhe oferece seguidos trabalhos. Primeiro, na gerência de um bar e depois na gerência de uma casa de prostituição. Seu irmão, Frank, é viciado em jogos, problemático e dependente do irmão para que lhe pague as dívidas com a Máfia. É a partir desses dois personagens e desse bar que outros personagens vão surgindo, numa construção narrativa bem lenta e gradual. A primeira temporada é importante para estabelecer o chão dos personagens, ou seja, a vivência de cada um deles das ruas e como eles irão se afastar delas. Ao longo do seriado, momentos relacionados ao cinema pornô dão indícios de como esse tema irá crescer na trama.

Ainda assim, a quantidade de cenas de sexo, de nudez, é acima da média, como todo bom seriado da HBO, o que levantou algumas polêmicas em torno do seriado na mídia norte-americana. Mas todas as cenas são importantes para a compreensão desse universo e para estabelecer o drama vivido por seus personagens, para reconstruir uma época em que o corpo humano era mercadoria do mais baixo valor. A direção de arte é cuidadosa, a trilha sonora, com muita música dos anos 1970, é impecável e a fotografia é sensacional. Junte isso ao esmero literário e jornalístico do texto de David Simon e temos aquela que é considerada uma das melhores séries em exibição da HBO. The Deuce retorna em 09 de setembro de 2018 para sua segunda temporada.

The Deuce Dell Freire
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