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Strange Angel

Strange Angel

Nível Exemplar

Primeira Temporada

(Strange Angel) – Drama. Estados Unidos, 2018. De Mark Heyman. Jack Reynor, Rupert Friend, Bella Heathcote, Peter Mark Kendall, Michael Gaston, Greg Wise, Rade Šerbedžija, Zack Pearlman e Keye Chen. CBS All Acess. 10 episódios. 50 min.

Strange Angel, a nova série do CBS All Access, é uma aposta ousada. A série pretende contar a história real de Jack Parsons, figura central em dois movimentos aparentemente contraditórios: os avanços científicos no desenvolvimento de foguetes espaciais e as mudanças de comportamento promovidas por certo segmento esotérico. O novo drama da CBS All Access tem início nos anos 1930, com Jack Parsons e seu parceiro na ciência de foguetes, Richard Onsted, tentando obter fundos da CalTech (California Institute of Technology) para seus experimentos. Jack, convencido de seu próprio brilhantismo e frustrado em seu trabalho diário em indústrias químicas, não consegue entender por que as pessoas se recusam a reconhecer que tanto ele quanto os foguetes (seus dois maiores amores) são o futuro. Sua esposa Susan Parsons acredita nele, mas está inquieta por seus planos como casal, há muito prometidos, não se concretizarem. Enquanto isso, seu irritante vizinho Ernest Donovan insinua de que pode ser o único a saber de um modo para que Jack Parsons realize a sua Verdadeira Vontade.

Parsons é reconhecidamente o cientista pioneiro e autodidata no que se refere à criação de foguetes espaciais. Ávido leitor de ficção científica e literatura pulp, que lhe deixaram enorme influência, seu grande sonho era permitir que o homem chegasse à lua. E, historicamente, é bem possível que tal feito teria demorado mais a acontecer sem a sua contribuição. Ou mesmo nem tivesse acontecido. Sua empresa, originalmente conhecida como Aerojet Engineering, foi criada ao lado dos colaboradores à época, e, apesar da compra e venda com outras empresas ao longo das décadas, ainda hoje continua em atividade e é conhecida como Aerojet Rocketdyne, possuindo várias subdivisões e empresas filiais. Mesmo após todo esse tempo, a empresa fundada por Parsons é das mais importantes fornecedoras voltadas à venda e manutenção de motores para foguetes movidos a combustíveis sólidos e combustíveis líquidos.

No cenário ocultista e cultural, a importância de Parsons também não é pouca. E também passa um pouco pela revisão necessária em torno dos trabalhos do mago Aleister Crowley, como dito em meu texto Thelma – magia e sexo em Aleister Crowley. Crowley foi um importante nome na primeira metade do século XX para que se surgisse a revolução sexual dos anos 1960 e 1970, a época do sexo, drogas e rock and roll; a influência de Crowley em nomes da música como David Bowie, Raul Seixas, Led Zeppelin, entre vários outros, também mereceria texto à parte. E toda penetração de Aleister Crowley no imaginário popular deve-se em muito à Loja Agape, loja da O.T.O. (Ordo Templi Orientis) situada em Califórnia, Estados Unidos. Fundada em 1935, a Loja Agape foi a única loja da O.T.O. a estar aberta mundialmente após o fim da 2ª Guerra Mundial, tornando-se resistência mundial dos ensinamentos de Crowley. Passou pela morte da Grande Besta em 1947 e, num momento ainda mais denso para a ordem, passou pela morte de Karl Johannes Germer, nomeado pelo próprio Crowley como seu sucessor direito, em 1962. A partir da morte de Germer, diversos nomes de vários países (inclusive do Brasil) entraram em uma disputa judicial para serem legítimos representes e líderes da O.T.O. Foi apenas em 1969 que Grady McMurtry conseguiu resolver a confusão em torno da sucessão, tornando-se líder da O.T.O. e a incorporando às leis da Califórnia como entidade religiosa; o gesto mágico de McMurtry, integrante descoberto e introduzido na ordem por Parsons, é reconhecidamente o que manteve o legado de Crowley vivo e afastado de uma provável extinção.

Assim, a primeira temporada de Strange Angel é uma grande aposta de All Access, o serviço de streaming que lançou no ano passado suas duas primeiras séries originais, The Good Fight e Star Trek: Discovery – ambos baseados em franquias de sucesso do catálogo da CBS. Strange Angel foi originalmente pensada como uma série para o canal AMC, o que caracteriza o seriado como o mais ambicioso tanto em termos de atingir a um grande público como em termos de ser sucesso de crítica. Para showrunnner da série foi escolhido um nome bem apropriado: Mark Heyman. Heyman foi roteirista do filme Cisne Negro, de Darren Aronofsky, além de produtor-executivo de outros filmes do mesmo diretor: Mãe! e O Lutador. Heyman consegue demonstrar bastante familiaridade com os diversos símbolos e significados de Thelema, o trabalho desenvolvido por Aleister Crowley; possivelmente por seu histórico pessoal. Filho de Hippies, Heyman foi criado no Novo México por um grupo religioso ligado à contracultura e à Nova Era.

Heyman também conseguiu reunir um bom elenco, especialmente o trio principal: Jack Reynor (Macbeth), Bella Heathcote (Demônio de Neon) e Rupert Friend (Homeland). Rupert Friend vive o vizinho de Parsons, Ernest Donovan, personagem criado especialmente para a série. É ele quem se torna um misto de Merlin e Lancelot para Parsons, introduzindo-o no reino misterioso de Thelema. A interpretação de Friend é a melhor da série, sempre conseguindo demonstrar a entrega de seu personagem à filosofia de Crowley. Friend leu os roteiros em um final de semana, assinou o contrato e se isolou na Antártida por três semanas. Bella Heathcote tem um dos melhores arcos narrativos da série, com o crescimento de sua personagem, a esposa recatada de Parsons; seu crescimento, envolvendo sua própria sexualidade e sua feminilidade, é importante até para que se possa compreender o papel crucial da mulher em Thelema. Jack Reynor se sai bem ao conferir credibilidade em um personagem tão instável emocionalmente e tão genial; conseguimos torcer por ele, mesmo que seus objetivos possam não parecer especialmente fazer sentido ou quando ele descobre uma solução para um dilema científico através de um insight thelemico.

Com esse cenário formado e com esses personagens dispostos, é hora de responder se a série Strange Angel consegue retratar a vida de Jack Parsons satisfatoriamente. A primeira temporada de Strange Angel faz dialogar ciência e magia, porém, nesse diálogo, não deixa de reproduzir certo estranhamento e certos preconceitos em torno dos personagens. É uma série que, ainda que retrate os anos 1930 e 1940, é voltada para o público do Século XXI, e a série peca ao reproduzir um desconforto positivista dessa época ao se tratar de Thelema. A aposta do showrunner Mark Heyman é tentar encontrar uma narrativa que crie um mito, que retrate como Jack Parsons se enxergava, como um personagem dos livros de ficção científica e fantasia que Parsons tanto adorava.

O que é um desafio difícil de superar porque, a rigor, ao se construir um personagem que seria um Parsons ideal se cria uma amarra criativa que impede do personagem voar mais alto, tornando o show um drama naturalista. E esse voar alto seria exatamente dialogar (apenas esteticamente, não literalmente) com o cenário criado por Aleister Crowley nas décadas seguintes. Daí parte da recepção do público e da crítica, que sentem a ausência de um maior tesão na narrativa para se sentir envolvidos. Ausência à qual o próprio Crowley consideraria imperdoável.

Strange Angel também opta por omitir os nomes reais dos personagens. À exceção dos nomes de Jack Parsons e Aleister Crowley, todos os outros nomes são fictícios, embora tenham se baseado em suas contrapartes reais. Esses são personagens como a esposa de Parsons, sua cunhada (que inevitavelmente irá crescer futuramente na narrativa), o mestre da Loja Agape, entre outros. Alguns personagens são inteiramente fictícios, como o já citado personagem de Rupert Friend. Embora Friend faça um trabalho notável, sempre nos perguntamos como o show seria se retirasse o tempo dado a um personagem que não existe originalmente na trama para os personagens que realmente existiram. Há momentos em que Friend e Parsons poderiam ganhar mais como personagens se fossem um só.

Mark Heyman afirma que o show se inspira na vida de Parsons e não é baseado em sua vida, tendo como base a biografia escrita por George Pendle, também chamada Strange Angel, o que faz com que haja uma tendência a se preocupar com as contribuições reais de Parsons para a ciência espacial nessa primeira temporada. Toda a trajetória de Parsons está planejada para ser contada em cinco temporadas e, seguramente, há diversos momentos que chamam a atenção em sua biografia e que devem ser retratados pela série, especialmente os rituais que ele e L. Ron Hubbard  (criador da Cientologia) fizeram para evocar a Mulher Escarlate, divindade importante em Thelema. Strange Angel tem bastante espaço para crescer na próxima temporada, o que vai ser fundamental para a compreensão e desenvolvimento do seu personagem principal, ao longo de sua jornada como um Ícaro moderno, flertando perigosamente com a ciência de foguetes e com a magia thelemica.

Strange Angel Dell Freire
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