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O Alienista

O Alienista

Nível Exemplar

Primeira Temporada

(The Alienist) – Mistério. Estados Unidos, 2018. De Caleb Carr. Com Daniel Brühl, Luke Evans, Dakota Fanning, Douglas Smith e Matthew Shear. TNT/Netflix. 10 episódios. 50min.

Não há outra cidade no mundo que tenha sido retratada tão amplamente e com tanto fervor quanto Nova York. É provavelmente uma das cidades que mais recebe visitantes no mundo, e carrega consigo um eterno ar de paixão e mistério, algo que já atraiu inúmeros filmes e séries para seus recantos ~especialmente, os mais escuros.

O Alienista, o novo programa da TNT, adquirido pela Netflix, acrescenta mais uma história a este lugar fabuloso de espírito soturno e cosmopolita. O ano é 1896, próximo à virada para o século XX, quando ocorre o sangrento assassinato de um garoto que se prostitui vestido de menina. Logo, descobre-se que outros assassinatos aconteceram de maneira similar, levando o recém-nomeado comissário de polícia Theodore Roosevelt (este mesmo que você conhece, que anos mais tarde, em 1901, viria a ser o 26º presidente dos Estados Unidos) recorre aos serviços do Dr. Laszlo Kreizler para investigar os crimes. Kreizler é um alienista que trabalha com crianças e adolescentes, profundamente interessado nos mistérios da mente humana e no que leva uma pessoa a cometer atos degenerados ou hediondos. Por seus estudos, é criticado pela sociedade conservadora, apegada à preceitos religiosos, que não aceita as mudanças trazidas pela ciência, ainda que o próprio Kreizler seja um homem que acredita em Deus e na fé.

Alienista é um termo arcaico para o que hoje conhecemos como psiquiatra ou psicólogo, que caiu em desuso em meados do século XX, embora eventualmente ainda seja usado em hospitais psiquiátricos pelo mundo. Como estabelece a própria abertura da série: “No século XIX, pensava-se que as pessoas que sofriam de doenças mentais estavam alienadas de suas próprias naturezas. Especialistas que os estudavam eram conhecidos como alienistas.”

Daniel Brühl, com sua performance, constrói um protagonista fascinante. Kreizler é um sociopata com traços de Sherlock Holmes. Seu passado conturbado, seu braço inutilizado e sua precisão clínica adicionam uma camada de mistério que permanece intocada até o fim. Ele se envolve na investigação com o intuito de fazer um experimento puramente científico: compreender o comportamento dos membros mais depravados da sociedade. Mas no decorrer do enredo, o estudo se transforma em uma busca pessoal, quase beirando a obsessão.

Para a investigação, Kreizler reúne uma equipe improvável: um ilustrador do New York Times, John Moore (Luke Evans); dois jovens detetives judeus que também são gêmeos, Marcus e Lucius Isaacson (Douglas Smith e Matthew Shear); e a secretária do comissário, Sara Howard (Dakota Fanning).

Em outra ocasião, nenhum destes personagens sentar-se-ia à mesma mesa para um jantar tranquilo, mas o propósito de encontrar e capturar um serial killer facilmente muda suas perspectivas. A dinâmica entre estes estranhos é direcionada por interesses e motivações completamente diferentes, e é aqui onde se manifesta o maior mérito da série. Os personagens são muito bem escritos, inseridos de maneira natural no enredo. Alguns recebem mais atenção do que outros, mas todos funcionam. Mesmo um personagem como John Moore, que num primeiro olhar poderia parecer desnecessário a uma investigação deste porte, aos poucos se revela essencial ~ele é o narrador, o olhar do público, ou como o próprio Kreizler define, a personificação da bondade que se espera encontrar nas pessoas apesar de suas falhas (e que se faz necessária para amenizar as sombras que o universo da série lança o tempo todo sobre a trama).

Nova York, com seus cortiços e avenidas apertadas, desempenha um papel importante em O Alienista. É uma cidade visualmente convincente, especialmente graças à fotografia que usa bastante a paleta marrom, cinza e amarelada ~é quase como se pudéssemos sentir o odor de urina pelos becos. Pelas ruas e barracas sobre as calçadas, por entre dezenas de carruagens quase se esbarrando, vemos centenas de pessoas de rostos finos e sofridos, uma colisão de sotaques de todo o mundo que convergiram para aquela realidade decadente. O cenário nos transporta para outra época, nos mergulha naquela decrepitude, como o fez Gangues de Nova York, de Martin Scorsese. A equipe de investigadores procura pistas por becos escuros, investiga bordéis cheios de doenças ou assiste à ópera em teatros pomposos enquanto tenta impedir o misterioso assassino que ataca nos feriados religiosos.

Do trio central, Dakota Fanning é o grande destaque. Ela é a verdadeira estranha entre os estranhos, por causa do simples fato de ser uma mulher em uma sociedade (e época) onde as mulheres ainda lutavam pelo direito de votar. Sara Howard é a primeira mulher a trabalhar na polícia e enfrenta preconceitos por isso. Mas ela não se intimida: persegue pistas e criminosos, investiga cenas de crime e questiona os padrões sociais pré-estabelecidos, mesmo pertencendo a uma família tradicional (que supostamente deveria manter os padrões sociais pré-estabelecidos). A câmera parece especialmente interessada em revelar o impacto da história em Sara e o impacto de Sara na história (e nos personagens ao redor), uma vez que, em várias tomadas, capta closes do rosto de Sara, reforçando sua personalidade sólida ante os fatos, em contraste à expressividade agradável de seus olhos azuis, quase como se pedisse a aprovação de Sara para os rumos que estão sendo tomados na investigação e pelas personas que a orbitam. Fanning sustenta sua investigadora com uma graça invejável.

Tudo contribui para o drama e, mesmo os momentos mais amenos, funcionam dentro do contexto de horror dos crimes que os personagens estão investigando. Há ainda um toque especial pela trama apresentar personalidades históricas reais, como o supracitado Theodore Roosevelt, J.P. Morgan, Paul Kelly etc. É um mérito dos roteiristas a boa condução de todos os elementos deste drama histórico de mistério ~nomes premiados como: Eric Roth (vencedor do Oscar por Forrest Gump), Hossein Amini (premiado por seu roteiro de Drive), Cary Joji Fukunaga (que dirigiu a primeira temporada do fenomenal True Detective), entre outros. Fukunaga também dirigiria todos os episódios, mas por conflitos de agenda, foi substituído por Jakob Verbruggen. Caleb Carr, escritor do livro que inspirou a série, atua como consultor.

O Alienista fecha seu ciclo mostrando que não há explicações fáceis para as atrocidades, uma triste verdade que o Dr. Kreizler deve aceitar. Eventualmente, ressoa com outra grande história de serial killers da Netflix, Mindhunter. E por isso mesmo, nesta aceitação da decadência humana há uma solução deixada em aberto. Haverá mais assassinos, e esses assassinos precisarão de indivíduos como Kreizler, Sara e sua equipe para detê-los. Carr escreveu vários livros sobre esses personagens ~além do original de 1994, há a continuação de 1997, O Anjo das Trevas, e outros livros sendo produzidos atualmente. Deliciosamente macabra e desprovida de senso de humor, a série de dez episódios poderia instigar repulsa por seus aspectos grotescos, mas não o faz graças aos seus personagens inteligentemente construídos e sua história envolvente de crime e mistério.

O Alienista Alan Barcelos
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