Multiverso

A saga do SAGA, ou que diabo Anjos da Guarda têm a ver com magia

A Saga do SAGA ou Que Diabos Anjos da Guarda Têm a Ver Com Magia

Estabelecer contato com o Santo Anjo Guardião ou SAGA (em inglês, HGA, Holy Guardian Angel) tem sido uma das metas da Alta Magia desde a antiguidade, quando o SAGA era chamado de daimon e considerado como a parte espiritual da pessoa, que precedia o seu nascimento e sobrevivia à sua morte, mas que, durante a vida, lhe aparecia como uma entidade isolada.

Com a influência da teologia judaico-cristã sobre os anjos, o daimon se transformou no anjo da guarda e passou a ser visto como um ser independente, que Deus designou para cuidar de cada indivíduo, e é dentro dessa concepção que foi elaborado o método descrito no Livro de Abramelin, escrito por um mago anônimo que se escondia sob o pseudônimo de “Abrahão, o Judeu”.

Depois que Samuel McGregor Mathers – um dos fundadores da Golden Dawn, a ordem iniciática britânica que foi a grande responsável pelo renascer da magia no final do século XIX e início do XX – encontrou uma cópia do Livro de Abramelin na biblioteca do Museu Britânico e o traduziu para o inglês, o contato com o SAGA foi incorporado ao ritual da ordem, onde tornou-se o sinal de sucesso na iniciação ao grau de Adepto.

Uma vez que o Adepto dispõe de uma linha de contato direto com o SAGA, não precisa mais seguir orientações externas em seu desenvolvimento espiritual, como acontece no grau precedente, o do Neófito. Em seguida ao Adepto, viria o grau de Mestre do Templo, quando o iniciado se despoja inteiramente de seu ego e sua consciência e a do Anjo se fundem em um nível mais elevado.

(Estou simplificando a ordem dos graus, limitando-me às três grandes divisões. Na prática, as ordens herméticas derivadas da Golden Dawn subdividem cada um desses graus em uma infinidade de sub-graus menores, que variam de grupo para grupo e, na minha opinião, só servem para burocratizar o processo de iniciação, seguindo o mau exemplo da Maçonaria, que foi multiplicando os degraus ao longo dos séculos, até que as três fases iniciais deram origem à inacreditável proliferação de 33 graus do rito escocês).

Sob a influência da teosofia, a Golden Dawn no início tendeu a voltar à concepção original do Anjo Guardião como daimon, interpretando o SAGA como uma personificação do que os teósofos chamam de Eu Superior. Atualmente, porém, a questão divide os ocultistas. Afinal, o Santo Anjo Guardião é um guia externo ou interno?


La SAGA c’est moi?

A questão toda, no meu entender, está mal-colocada desde o início, porque parte de um falso dualismo entre interior e exterior. Afinal, uma das consequências atribuídas à Iluminação em todas as tradições não é precisamente a dissolução de qualquer oposição entre sujeito e objeto, entre realidade subjetiva e realidade objetiva? Desse ponto-de-vista, a pergunta sobre a natureza do SAGA não pode ser respondida, não porque não tenha resposta, mas porque é uma pergunta que não faz sentido.

Podemos entender um pouco melhor o que isso significa se, em vez da terminologia teosófica, usarmos os conceitos junguianos como referencial. Normalmente, quando supomos que o SAGA é uma parte do meu próprio eu, superior que seja, tendemos a conceber esse eu como o nosso ego pessoal. Dessa forma, o SAGA é visto como uma projeção do nosso ego.

Se as coisas são formuladas dessa maneira, então os defensores da hipótese de que o SAGA é um ser independente têm toda razão em falar de psicologismo e dizer que, com isso, estamos desvalorizando o Anjo Guardião, transformando-o em um reflexo de nossos impulsos psicológicos particulares. Além disso, acrescentam, o contato com o SAGA permite que o Adepto tenha acesso a uma série de informações e conhecimentos que antes ele não possuía. Se, como a Madame Bovary de Flaubert, o SAGA c’est moi, como ele pode saber de coisas que eu não sei?

Por sua vez, os defensores da equação SAGA = Eu Superior apontam para a ingenuidade inerente à crença de que o Anjo Guardião é uma espécie de babá cósmica, contratada para acompanhar passo a passo cada ser humano sobre a Terra. Se, como supõem alguns, os Anjos são entidades que estão mais avançadas do que nós na busca pela perfeição, é esse o resultado de anos, séculos, milênios para evoluir? Ter que dedicar todo o seu tempo a pajear criaturas tolas, algumas realmente estúpidas, a maioria das quais não tem o menor interesse em progredir no caminho espiritual? É como se alguém chegasse ao nível de Livre-Docência numa prestigiosa universidade e depois fosse trabalhar com as crianças no Jardim da Infância.

E se os Anjos não são uma etapa mais evoluída no desenvolvimento espiritual, como pensam outros, mas uma espécie totalmente à parte, de criaturas espirituais que Deus criou com o único propósito de servirem como baby-sitters para a humanidade tresloucada, o mínimo que se pode dizer é que não estão fazendo bem o seu trabalho, porque a humanidade continua cada vez mais tresloucada e, olhando as pessoas nas ruas, lendo as manchetes no jornal, dificilmente teremos a impressão de que tem alguém zelando para nos fazer trilhar o caminho do bem. Ou o Anjo do Trump pediu demissão diante da enormidade da tarefa?


Símbolos do Si-mesmo

Mas serão essas as duas únicas maneiras de se compreender o SAGA? Ou como o meu próprio reflexo, ou como uma criatura que não tem nada a ver comigo? E, mais importante ainda, uma interpretação psíquica do SAGA terá necessariamente que explicá-lo como o meu próprio reflexo? Afinal de contas, já faz mais de cem anos que a psicanálise mostrou que o meu ego não é o único habitante dessa psique que, apesar disso, eu insisto em considerar como minha. E recentes desenvolvimentos das neurociências vêm dando cada vez mais sustentação àquilo que sempre foi afirmado por budistas, advaíta vedantas e todos os seguidores das escolas não-duais de misticismo, a saber, que o ego não tem uma existência concreta, é apenas uma miragem subjetiva produzida pela interação entre os pensamentos. Se o ego nem sequer existe, como pode projetar o SAGA?

Encontramos uma possível resposta no conceito junguiano de Si-mesmo, que, por sua vez, busca inspiração em fontes como o Atman hindu e a centelha espiritual dos gnósticos. Num certo sentido, o Si-mesmo é análogo ao “Eu superior” dos teósofos, mas com uma diferença importante: ele não é concebido em termos de uma consciência personalista, mas como uma essência impessoal. O Si-mesmo não é um ego cosmicamente magnificado, mas um arquétipo da totalidade psíquica, consciente e inconsciente, e que nem sequer é um conteúdo subjetivo da minha mente, uma vez que, como todos os arquétipos, pertence àquele nível da psique compartilhado universalmente por todos os seres humanos. Na verdade, a julgar pelos fenômenos de sincronicidade, quando os arquétipos demonstram ser capazes de provocar efeitos sobre o mundo físico, eles nem sequer são estruturas psicológicas no sentido estrito do termo. Pertencem exatamente àquele nível fundamental da realidade em que matéria e psique, exterior e interior, “deixam de ser percebidos como contraditórios” (para usar a expressão de André Breton no Primeiro Manifesto do Surrealismo), e que é a meta final da busca pela Iluminação.

Como todos os arquétipos, o Si-mesmo pode aparecer à consciência sob pelo menos duas formas: representado por símbolos ou através de personificação. Os símbolos do Si-mesmo geralmente assumem a forma de uma estrutura geométrica que combina as formas do quadrado e do círculo, e que Jung denominou de mandalas, em analogia com as mandalas orientais, ou então como imagens e objetos circulares ou redondos. Símbolos do centro (por exemplo, uma praça ou o centro de uma cidade) normalmente também apontam para o Si-mesmo, bem como o topo das montanhas ou qualquer imagem que conote uma meta a ser atingida. Entre os símbolos do Si-mesmo na tradição ocidental, dois dos mais conhecidos são a Pedra Filosofal dos alquimistas e o Santo Graal da legenda arturiana.

Quando surge personificado, por sua vez, o Si-mesmo se apresenta via de regra sob a forma de figuras dotadas de sabedoria e/ou uma aura mística de numinosidade. Personagens religiosos, como Cristo ou o Buda, são personificações do Si-mesmo no âmbito cultural. O Si-mesmo também pode ser representado como uma espécie de modelo ideal do ser humano e, em sonhos, como uma versão idealizada do próprio sonhador, o que explicaria porque a literatura teosófica tende a interpretá-lo como um “eu superior”.

Basta essa indicação superficial para se perceber que o SAGA combina as duas formas de personificações: é um ser sobrenatural, que possui um conhecimento transcendente e que pode ser visto como um ser humano ideal, livre das imperfeições da carne.


O guru que me dita

Se admitirmos que o Santo Anjo Guardião é uma personificação do Si-mesmo, a objeção de que isso o reduz a uma projeção do ego do mago não tem mais razão de ser, uma vez que, na perspectiva junguiana, o próprio ego do mago não passa de uma projeção do Si-mesmo em nossa realidade tridimensional. Ou seja, o SAGA não é um reflexo do meu eu; pelo contrário, o meu eu é que é um reflexo do SAGA.

Nada ilustra melhor esse ponto do que um sonho que Jung teve em 1944, pouco depois de um ataque cardíaco que quase o matou, e que marcou uma virada em sua carreira – de sua recuperação em diante, Jung assumiu de vez o viés místico de sua obra, deixando de se preocupar tanto com as cobranças da comunidade médico-científica. Ele descreve o sonho em sua autobiografia, apropriadamente intitulada de Memórias, Sonhos, Reflexões:

“Nesse sonho de outrora eu caminhava por um atalho; atravessava uma região escarpada, o sol brilhava e tinha sob os olhos, à minha volta, um vasto panorama. Aproximei-me de uma capelinha, à beira do caminho. A porta estava entreaberta e entrei. Para meu grande espanto não havia nenhuma estátua da Virgem, nem crucifixo sobre o altar, mas simplesmente um arranjo floral magnífico. Diante do altar, no chão, vi, voltado para mim, um iogue, na posição de lótus, profundamente recolhido. Olhando-o de mais perto, vi que ele tinha o meu rosto; fiquei estupefato e acordei, pensando: ‘Ah! Eis aquele que me medita. Ele sonha e esse sonho sou eu.’ Eu sabia que quando ele despertasse eu não existiria mais.”

Com um pouco de reflexão, percebemos que, ao interpretar o SAGA dessa forma, como o Si-mesmo junguiano, desaparece a oposição entre as duas hipóteses sobre a natureza do Santo Anjo Guardião. Ele é, sim, a personificação de uma força psíquica – ou antes, psicoide, uma vez que existe fora da psique, especialmente da psique individual – mas, ao mesmo tempo, é uma entidade independente de mim, já que o Si-mesmo precede o meu eu individual, sobrevive a ele, e seus limites (se é que se pode falar de limites quando se trata de uma entidade que se identifica ao puro Ser e que pode ser perfeitamente descrita com a imagem escolástica de Deus como “um círculo cujo centro está em toda parte e cujas bordas não estão em parte alguma”) transcendem as estreitas fronteiras do ego tanto quanto a totalidade do universo transcende as fronteiras da minha casa.

Essa perspectiva tem o benefício adicional de reduzir toda a onda de mistificação que existe em torno do contato com o SAGA, como se fosse uma experiência só acessível a indivíduos especiais, de preferência que pertençam a uma Grande Ordem Iniciática e mantenham suas mensalidades em dia. O conhecimento e conversação com o Santo Anjo Guardião, que marca a transição do grau de Neófito para o de Adepto, ocorre espontaneamente à medida que se desenvolve o processo de individuação da pessoa. Se ela se dedicar conscientemente a esse processo, vai atingir esse objetivo fatalmente, mesmo que nunca tenha feito o ritual do Liber Samech ou lido o Livro de Abramelin, mesmo que jamais tenha aberto sequer um livro de esoterismo na vida. Claro que, nesse caso, ela não vai chamar o que lhe aparece de Santo Anjo Guardião, mas e daí? O próprio Crowley reconhece que denominar isso que aparece de Santo Anjo Guardião é só uma metáfora, e uma metáfora deliberadamente ridícula. E, para falar a verdade, a transformação de neófito em adepto implica justamente em ser capaz de abandonar as metáforas estabelecidas para seguir as imagens que são ditadas por seu próprio inconsciente e que, muitas vezes – quase diria na maioria das vezes – não têm nada a ver com os estereótipos culturais.


Pós-escrito

A premissa de que o Santo Anjo Guardião e o Si-mesmo são dois nomes diferentes para a mesma coisa foi determinante em minha escolha de traduzir o inglês HGA (Holy Guardia Angel), não como SAG, que é a tradução habitual, mas como SAGA, que também é um acrônimo de Santo Anjo Guardião e, ao mesmo tempo, uma palavra que significa “totalidade, todo, inteiro, uno” na linguagem enoquiana (que, como sabem todos os que assistem Supernatural, é a língua supostamente falada pelos anjos).

Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Aperte o Play