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A Discutível Tirania do Real - resenha de Gnomon, de Nick Harkaway

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A Discutível Tirania do Real

(Gnomon: A Novel) – Ficção Científica, Inglaterra, 2018. De Nick Harkaway. Editora Knopf Books. 688 páginas.

Na Grã-Bretanha em futuro próximo, onde os cidadãos abriram mão de sua privacidade em troca de segurança e se instaurou um estado de vigilância total chamado O Sistema, a Inspetora Mielikki Neith é incumbida de investigar a morte de uma dissidente acessando a memória da falecida, e suas descobertas podem levar a mudanças no sistema político.

Apesar do odioso resenhista do The Guardian – que, depois de deixar claro que detestou o livro e só o leu porque estava sendo pago para isso, se sentiu na obrigação moral de tentar estragar a experiência para os demais leitores com um spoiler maciço –, Gnomon, o último, e enciclopédico, romance de Nick Harkaway é quase uma obra-prima e, se não é, não o é por pouco.

Ao mesmo tempo um história policial, uma ficção científica distópica, uma reflexão sobre a sociedade de controle que já nos tornamos e a sociedade de controle que ainda podemos nos tornar, além de um comentário político sobre estes tempos de neofascismo ascendente, Gnomon é, acima de tudo e sem negar nada disso, uma brilhante meditação metaficcional sobre a capacidade da literatura de modificar, para o bem e para o mal, a percepção, a realidade e a percepção da realidade dos leitores, temperada com doses esparsas, mas precisas, de conhecimento esotérico (lá pelas tantas, um dos narradores menciona the knowledge and conversation with a demon, expressão que um thelemita reconheceria na hora), a nos lembrar que gnomon e gnosis são termos, que diabo, cognatos.

A espinha dorsal do livro – e espinha, como gnomon e um punhado de outras, é uma das palavras-chave da obra – se passa num futuro assustadoramente próximo, numa Inglaterra pós-Brexit, cujos cidadãos optaram de vez por abrir mão de qualquer privacidade em troca de segurança. O sistema político, que na superfície é uma perfeita democracia direta, onde todos votam em tudo, é supervisionado pela Testemunha (the Witness), uma IA que coleta e correlaciona todas as informações sobre todas as áreas de toda a vida de todas as pessoas, nem que para isso precise submetê-las a um procedimento invasivo, mas em teoria seguro, para extrair a informação diretamente do cérebro delas.

“Em teoria” porque o que coloca a história em movimento é justamente a morte de uma dissidente, Diana Hunter, durante o procedimento. A investigação recai sobre os ombros da Inspetora Mielikki Neith, a quem cabe determinar se a morte foi um acidente, um homicídio ou um suicídio cuidadosamente engendrado para desacreditar o Sistema. Para isso, ela precisa revisar a gravação extraída do cérebro da falecida, que é transferido para o seu próprio cérebro como um implante de memória.

Quando o implante se desdobra, no entanto, Neith descobre, para sua surpresa, que ele contém não (ou não apenas) a vida de Diana Hunter, mas a de três outras pessoas: um milionário grego dos dias atuais, que se torna literalmente um mago das finanças depois do encontro inesperado com um tubarão branco, a mãe do filho que Santo Agostinho teve antes de se converter ao cristianismo e que no livro é uma alquimista egípcia, e um velho pintor etíope auto-exilado em Londres que redescobre sua arte ao ser contratado pela própria neta para criar o design conceitual de um novo vídeogame sobre uma sociedade de controle em tudo e por tudo semelhante à da trama principal.

“To escape a fascism that has become internal”, um personagem lê, num texto dupla(talvez tripla)mente ficcional, o que é uma das muitas morais da história possíveis, e que ecoa, de modo possivelmente involuntário, a dissolução ética da realidade proposta pelo filósofo italiano Gianni Vatimo, “we embrace an external world that is ultimately fluid and where the tyranny of the real itself is moot.”

De permeio, uma enxurrada de citações, algumas explícitas, outras implícitas, que vão de Raymond Chandler a Jorge Luís Borges, de Cortázar e seu Jogo da Amarelinha a vários romances de Philip K. Dick, William Gibson, o conto The Hounds of Tindalos de Frank Belknap Long, quadrinhos, filmes, para não mencionar referências sem o menor pudor às histórias de espionagem de seu pai, John Le Carré, e a The Gone-Away World, o primeiro romance do próprio Harkaway.

Espalhadas ao longo do texto, cuidadosamente dissimuladas no contexto, expressões como knowledge and conversation, true will ou Firespine funcionam como senhas que convidam a uma leitura esotérica do romance, cujo sentido, não mastigado, depende inteiramente do quanto o leitor está familiarizado com os conceitos ocultos sob esse jargão. No mínimo, demonstram que história, neurociências e semiótica não foram os únicos assuntos que o autor pesquisou para escrever o livro.

A Discutível Tirania do Real - resenha de Gnomon, de Nick Harkaway

Alusões à hauntology de Derrida, ao panóptico de Bentham (que é a metáfora central de Vigiar e Punir de Foucault) e à desconcertante imagem do corpo aberto como um teatro de operações que Lyotard fantasia na abertura de Économie Libidinale, para não falar do já mencionado conceito deleuziano de sociedade de controle, mostram que a filosofia contemporânea também está incluída na dieta voraz de Harkaway que, no entanto, não se peja de sacanear a pomposidade vazia do discurso acadêmico (“Get down on your knees and cry God for Baudrillard. It takes a Frenchman, evidently, to demand that if it must be whimsical and impenetrable, it should also be enjoyable”), especialmente na voz de Athenais Kartaghonensis, a alquimista egípcia que, depois de tentar fazer o Sokal, se vê enredada nas consequências ontologicamente inesperadas de sua própria impostura intelectual.

Se tudo isso deixou o leitor com a impressão de que Gnomon é um exercício oco de pós-modernismo gratuito, campeonato de citações e festival de name dropping, perdão, a culpa é do resenhista, que não consegue conter o entusiasmo por uma alusão bem-feita, especialmente quando implícita. Não, o livro é verdadeiramente um romance, conta várias narrativas fascinantes sobre personagens envolventes, num estilo deliciosamente leve, às vezes pungente, outras vezes engraçado, cobrindo um arco temporal impressionante, que vai dos primeiros séculos da nossa era, passa pelo ontem, o hoje e o amanhã, para desembocar nas praias remotas de um distante futuro pós-humano, para o qual todas as narrativas convergem, depois de se entrelaçarem como as serpentes de um caduceu.

Em uma época saturada de clones de cópias de derivativos de pastiches de imitações de clones, Gnomon é uma ave rara, um livro que impressiona por sua originalidade feroz. Além de, para bom entendedor, ser um hipersigilo que se assume descaradamente como tal. Quanto ao spoiler maciço, é ele que explica o título do romance. E realmente vale a pena não saber. Fique longe do The Guardian.

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