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A Voz do Bruxo, Parte 1: “Um Risco Tremendo”

A Voz do Bruxo - Parte 1: Um Risco Tremendo

Este ano a primeira tradução do romance de estreia do escritor inglês Alan Moore completa 16 anos. Essa também foi a primeira edição fora da Grã-Bretanha, traduzida ou não. Aproveito para esclarecer essa cronologia editorial, já que hoje há quem pense que a edição da Veneta (de 2012 – primeiro ano da editora – e para a qual fiz alterações no primeiro e último capítulos) foi a primeira edição brasileira de A Voz do Fogo.

O romance foi publicado no Reino Unido em 1996 pela Gollancz. Permaneceu numa espécie de limbo mágico da obscuridade cult em outros países, inclusive de língua inglesa (algo inexplicável para um primeiro romance de um autor consagrado e inovador, admirado pelos quatro cantos do mundo), até que seus direitos de publicação foram adquiridos pela Conrad em 2001 (meu primeiro ano como tradutora profissional, recém-formada). Assim, a primeira tradução para Voice of the Fire é de 2002. A edição americana só saiu em 24 de dezembro de 2003 e janeiro de 2004, por um esforço mais do que justificável da Top Shelf em tirar uma obra tão potente do esquecimento misterioso que durou 6 anos para nós, 8 para os americanos . Para corroborar a relevância da edição de 2003/ 2004, ela veio com a devida introdução de Neil Gaiman (revisada por mim para a edição da Veneta). Vale lembrar que também houve um esforço por parte da Conrad para conseguir um único exemplar do livro esgotado – o que não me deixa mentir sobre sua irônica obscuridade, refletida no hiato editorial entre o lançamento original e as edições em outros países.

Este artigo é a primeira vez que paro para refletir de forma organizada sobre o meu próprio trabalho com esse livro. E a perspectiva proporcionada pela distância temporal contribui de diversas formas para uma análise mais objetiva e menos volúvel do que a que teria sido feita anos atrás. De forma desorganizada, no entanto, a reflexão, ou melhor, os ecos caóticos ressoados pela presença desse livro na minha vida têm sido constantes desde quando recebi o original pelo correio e, ao começar a ler o primeiro parágrafo rapidamente, ri alto, acreditando de forma delirante que, sendo uma novata no mundo editorial, estava sendo alvo de uma pegadinha da equipe que eu pouco encontrava pessoalmente. “Eles embaralharam as palavras”; “Não é possível que isso seja o texto de um romance real”, foram as minhas reações absurdas nos primeiros minutos. Nas dezenas de milhares de minutos seguintes, minha curiosidade e minha paciência é que foram absurdas. Já a paixão pela matéria da ficção era a mesma de sempre.

Segui buscando as intenções do autor com uma tocha na mão. Na época o Google não era o que é hoje. Não havia resenhas acessíveis de um livro ainda envolto na escuridão gerada pela atitude discreta do autor e pela própria história de um marginal pré-histórico, de loucos líricos, bruxas e bruxos tão vivos quanto incinerados, santas e santos injustamente castigados, idiotas cheios de verdade, magos e criaturas mágicas, hoje míticas. O que havia de apoio externo era a obra de Moore em quadrinhos.

À parte esse apoio e fora do alcance da minha tocha primitiva, havia os admiradores de Moore, literatos dos quadrinhos, entusiastas das graphic novels, fãs dedicados, ávidos por porem as mãos no romance de estreia que prometia ao menos originalidade e, na melhor das hipóteses, um texto que fizesse jus à visão de mundo intensa e única do mago barbado, expresso em português com a devida intensidade. Eu não tinha consciência da existência desses seres atentos, ainda discretos num mundo em que ser nerd não era cool no universo mainstream. Eu não sabia que essas pessoas, os futuros leitores daquele texto, eram críticos, exigentes, criteriosos, apaixonados, vigilantes, o que me ajudou a me debruçar sobre aqueles 12 capítulos (com narradores e contextos tão variados) sem sentir nenhuma pressão senão a pressão vultuosa da história sendo contada. Citando o próprio Moore, “sem medo de cair, sem desejo de ter êxito”, havia a ação pura de verter. Foram dias, meses felizes em Northampton.

Indo direto ao que me interessa como profissional, uma das questões que inevitavelmente ecoaram ao longo desses anos diz respeito à avaliação objetiva da qualidade do resultado. Felizmente, a tradução foi recebida de forma muito positiva e generosa. As resenhas dos tais seres que aprofundam o conhecimento sobre o autor que admiram e que levam a literatura (muito) a sério (mesmo) demonstravam empatia pelo meu esforço (“um trabalho hercúleo”, observou Gian Danton; “se ler já é difícil, me compadeço da tradutora”, comentou Alexandre Heredia, além da resenha do colega Fábio Fernandes e o entusiasmo constante de José Carlos Neves, estudioso da obra de Moore, cujo contato para entrevista me motivou até a fazer um desenho naif do próprio Moore no sofá cheio de objetos perdidos, diante de um estóico cão negro, como descrito no livro). Ao longo desses 16 anos, é comum que até contatos fugazes e prosaicos sejam seguidos de um lembrete de que a pessoa leu A Voz do Fogo; algo assim: Obrigada por me adicionar e parabéns pela tradução de A Voz do Fogo. Fui e tenho sido constantemente lembrada desse trabalho desafiador e prazeroso.

O feito – mais um – que Moore conseguiu ao anunciar que o primeiro capítulo seria intraduzível foi dar visibilidade à figura do tradutor, tão comumente esquecida. Além disso, suspeito que a própria força do seu texto, sendo mágico e emocional, resistiria a uma tradução apenas razoável.

OK. A tradutora existe e seu trabalho não é uma mera transcrição. As pessoas me congratulavam pessoalmente, enviavam mensagens elogiosas. Nada disso respondia, no entanto, a pergunta sobre a qualidade objetiva da tradução, uma vez que essa avaliação não prescinde do cotejamento com o original por parte de um conhecedor dos dois idiomas e da arte da tradução, e raros eram os retornos de quem tivesse tido tal trabalho.

Convidei os críticos mais meticulosos a serem sinceros. A ausência de unanimidade é mais instigante. Mas é preciso lembrar às crianças que porventura estejam lendo este artigo que o estudo das palavras, das linguagens, das gramáticas – portuguesa e inglesa – me acompanham desde muito antes do início da minha carreira de tradutora. Lembro qual foi a primeira palavra que aprendi em inglês, por volta dos 3 anos (pineapple), fiz um curso de inglês completo dos 8 aos 17 anos, com dedicação constante, revi a gramática inglesa e estudei literatura britânica e americana aos 18, fiz um curso de tradução e interpretação, revisando também o português, iniciei a graduação em Letras Português e Inglês. E hoje sei que falantes nativos de inglês tiveram a mesma reação que tive ao me deparar com as primeiras 50 páginas do livro. Algo assim: WTF. Falante nativos de inglês que criaram um blog só para “traduzir” o primeiro capítulo para um inglês que lhes fosse inteligível.

Mas é preciso também agora voltar ao próprio autor traduzido, que responde a esses dilemas de consciência da tradutora e, como sempre, de forma bela, profunda e mais-verdadeira-impossível:

“Sempre fico impressionado/ perplexo com o tanto de trabalho que deve dar a tradução das minhas obras para qualquer outra língua, simplesmente porque o meu uso do inglês costuma envolver muita linguagem peculiar à língua inglesa que pode não ser exatamente traduzível, e que não raro se envolve em experimentos linguísticos, como O Porco do Bruxo em A Voz do Fogo ou Round the Bend em Jerusalem. Costumo dizer que sempre fico impressionadíssimo com o simples fato de que tenham tentado realizar a façanha, e certamente não se trata de um trabalho que eu inveje. Acho que o que eu diria a qualquer tradutor é que se for feito o melhor esforço possível para entender quais poderiam ter sido as minhas intenções por trás de qualquer passagem difícil, e então expressar as intenções percebidas da forma que lhe pareça mais poderosa e significativa, isso com certeza é tudo que qualquer autor sensato poderia pedir de seus tradutores e tradutoras.

Quando escrevi o texto original, eu contava com a confiança em mim mesmo e nos meus próprios processos, como deve fazer qualquer criador. Quando a tradutora recria o material em um novo idioma, ela está efetivamente se tornando a autora de um novo trabalho e deve, da mesma forma, confiar em si mesma e em seus próprios processos. Ao fazê-lo, está servindo ao trabalho com o máximo de suas habilidades, que é só o que me interessava fazer, e ela também estará transmitindo o novo texto de coração, que é o modo com que se pretendeu transmiti-lo originalmente.
Eu também acrescentaria que provavelmente é importante que qualquer pessoa traduzindo meu trabalho deva tentar se divertir tanto quanto me diverti com a composição original. Reconheço que traduzir meu trabalho provavelmente seja muito, muito difícil às vezes, mas espero que o processo tenha pelo menos algumas recompensas agradáveis, e que nunca seja uma tarefa desanimadora. Fora isso, continue fazendo o que faz, e saiba que seus esforços são profundamente apreciados.”

Pronto. Catorze anos depois, ele abençoa nosso trabalho e o faz com a sabedoria de quem conhece o poder da palavra. Nós, amantes da arte mágica, agradecemos.

[1]Podem ter obtido os direitos antes. O contato comigo foi feito em 2001.

[2]Chegou a haver reedições no Reino Unido por selos da Orion em 1997 e 1999. A melhor capa até agora, na minha opinião, é a de Dave McKean, de 2015, edição que conta com a introdução de John Hill: Remember, Remember.

[3]A portuguesa veio em 2006, com tradução de David Soares para a Saída de Emergência.
[4]Trecho de uma entrevista concedida por Moore em 2016 a um grupo de estudiosos de sua obra no Facebook. O texto usado aqui e traduzido por mim foi sua resposta a uma pergunta de Flávio Pessanha, administrador da página Alan Moore – BR.

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  • jose carlos neves

    Fantástico,LUDI..pena que “ainda não a contrataram” para traduzir JERUSALÉM..seria ,sim, um trabalho “herculeo”, mas contendo todos os “12 trabalhos”..rs…afinal sãomais de 1.000 paginas, com direito a fluxo-da-consciência a la Joyce/Proust e tudo mais..vou torcer aqui!…

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