Cultura Pop

The Man Machine, álbum clássico do Kraftwerk, completa 40 anos

The Man Machine

Segundo a BBC, a banda alemã de música eletrônica Kraftwerk é a única banda tão ou mais influente do que os Beatles no cenário musical moderno. A base de seus álbuns conquistou toda uma geração de jovens músicos no mundo todo, gerando vários trabalhos que construíram o que hoje é a música pop. Artistas diversos como Moby, New Order, Daft Punk, Jay-Z, U2, Siouxsie and the Banshee, entre outros, deram continuidade ao conceito musical do Kraftwerk, usaram samplers de faixas de seus álbuns ou mesmo realizaram a sua própria versão de algumas músicas.

Em 2018, ano em que o álbum The Man Machine completa 40 anos, Kraftwerk ganhou o seu primeiro prêmio na categoria Best Dance/Electronica Album por 3-D The Catalogue, uma nova versão/revisão de seus álbuns anteriores, tradição do grupo ao longo das últimas décadas. Embora lancem álbuns com alguma regularidade e realizem shows praticamente todos os anos, novos composições não são ouvidas desde 2003, quando foi lançado o álbum Tour de France Soundtracks.

Dentre tantas características específicas da banda, que está em atividade de 1970 até hoje, pode-se destacar que a discografia da chamada formação clássica da banda (1974-1989) apresenta verdadeiros clássicos da música pop que ajudaram a construir a atmosfera misteriosa, minimalista e robótica do Kraftwerk: Autobahn, Radioactivity, Trans Europe Express, The Man Machine, Computer World, Tour de France e Electric Café. Nesse período, fascinaram David Bowie e Michael Jackson; serviram de trilha sonora para um filme de Reiner Werner Fassbinder, Roleta Chinesa; criaram e patentearam equipamentos musicais, como a bateria eletrônica, o que geraria disputas judiciais futuras com os bateristas; anteciparam a globalização, a conexão mundial via computador e especialmente discutiram através de suas músicas o conceito e a relação homem/máquina.

Na apresentação desse conceito, o álbum The Man Machine é o mais vitorioso. É o trabalho do grupo que possui a segunda melhor posição em termos de vendas, tendo conquistado o “Disco de Ouro” no Reino Unido em 1982. Como cada álbum da banda, possui conceitos artísticos bem definidos, características próprias e também reflete uma geração de jovens alemães vindos do pós-segunda guerra que necessitavam criar um novo romantismo em torno da cultura alemã.

Fundada em 1970 por Ralf Hutter e Florian Schneider na cidade de Dusseldorf, na Alemanha, a banda Kraftwerk inicialmente surgiu com a proposta de ser mais uma no efervescente cenário de Krautrock, o rock progressivo alemão. Os primeiros álbuns da banda, Kraftwerk I, de 1970, e Kraftwerk II, de 1972, são frutos dessa época, possuindo uma sonoridade totalmente distinta do que viriam a produzir depois. Há certo público apreciador do rock progressivo que apenas admira esses álbuns da banda e ainda um álbum anterior, Tone Float, de 1969, quando Hutter e Schneider participavam de uma banda chamada Organisation. Todos três álbuns bons representantes do gênero progressivo alemão.

Hutter e Schneider eram estudantes da Escola de Música ao final dos anos 1960 e seu som na época era influenciado tanto pelas experimentações sonoras da escola erudita da música eletroacústica (Karlheinz Stockhausen, etc) como pela música pop americana (The Beach Boys, etc). Assim que começaram a se desprender do rock progressivo e buscaram uma identidade para seu som, houve a necessidade de incluir a bateria em sua sonoridade. Conhecem então Wolfgang Flur, um músico vindo de uma família de marceneiros. Hutter e Schneider possuíam as ideias e o conhecimento para a criação de novas tecnologias; Flur, além de baterista com formação erudita, apresentava-se um apto assistente para o trabalho braçal na criação de alguns instrumentos musicais eletrônicos rudimentares. Sendo a bateria eletrônica, em seu estágio inicial, a criação mais popular e bem sucedida do grupo.

Posteriormente, outro baterista de formação erudita, grande fã dos Beatles, chamado Karl Bartos, é adicionado à banda. Começa uma parceria entre o quarteto que ao mesmo tempo seria extremamente criativa, mas também possuiria seus problemas pelas classes sociais e origem distintas dos integrantes.

Flur e Bartos vieram de famílias proletárias. Hutter e Schneider eram provenientes de famílias abastadas. Florian Schneider, por exemplo, pertencia a uma família com uma vasta linhagem de arquitetos famosos na Alemanha e era filho do arquiteto Paul Schneider-Esleben, um dos mais importantes do país. Schneider-Esleben construiu, entre outras obras, o Aeroporto de Colônia/Bonn e importantes arranha-céus do modernismo alemão pós-guerra, com um estilo que se tornaria influência internacional. Não por acaso, quando a banda tocou no Brasil em 2004, em Rio de Janeiro e São Paulo, fizeram questão de uma terceira apresentação em Brasília. Puderam percorrer a cidade construída e desenvolvida por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

A disposição de palco da banda sempre se manteve com Hutter (vocal e teclados) à ponta esquerda do palco e Schneider (vocoders e sintetizadores) à ponta direita. Os bateristas Karl Bartos e Wolfgang Flur, respectivamente, ao centro. Essa disposição de palco se manteria do início até hoje, com os novos integrantes que viessem a chegar se posicionando de acordo com suas funções. Bateristas sempre ao centro.

Além do quarteto Hutter/Schneider/Bartos/Flur, outro nome viria a ser importante para a banda em sua formação clássica (1974-1989): o artista plástico Emil Schult, conhecido entre seus fãs como o quinto Kraftwerk. Discípulo direto de Joseph Beuys, artista plástico vanguardista oriundo da mesma cidade de Dusseldorf, Schult viria a ser responsável por cuidar da concepção visual da banda, sendo o responsável pelas capas de cada álbum, pela escolha estética do figurino terno-gravata e pela composição de algumas letras em parceria com Hutter/Schneider.

O álbum The Man Machine, dentro desse cenário, apresenta-se como uma celebração da relação e do diálogo entre homem e máquina. A mise em scène de Kraftwerk no palco era robótica, silenciosa, aparentemente pouco humana, distante do público e constratando com a atitude da maioria dos rock stars. Como diziam em uma de suas faixas, “The Robots”, eles eram os robôs, apropriando-se ironicamente da crítica massiva que receberam de parte da imprensa especializada quando lançaram sua música: seus críticos consideravam seu som robótico e pouco humano. Kraftwerk antecipava-se assim ao trans-humano dos dias atuais, quando lentes de contato melhoram a visão, próteses de membros do corpo aprimoram nosso bem estar e o celular torna-se uma prótese tão cotidiana quanto a dentadura. O que difere o gesto de carregar o celular toda noite do gesto de nossos avós de colocar a dentadura no copo d’água?

A faixa-título “The Man Machine” ditava: “Man Machine, super human being”, ou seja, “Máquina-Humana, super ser humano”, com melodias e arranjos que dão um clima ao álbum que é ao mesmo tempo antecipador de um futuro e celebração de um passado. É a subversão do chamado super-homem, o Übermensch, de Nietzsche. O processo contínuo de superação a que o homem está condenado só se dará através da sua relação com a máquina.

A faixa “The Model” apresenta um dos seus maiores sucessos. Apresenta a fixação de um homem por uma modelo, uma bela mulher das passarelas e do mundo da moda; porém, ainda que apresente certa sensualidade, a faixa demonstra uma preocupação com a capacidade que o homem tem de tornar a mulher um objeto. Um objeto de desejo. Mas ainda assim, um objeto. Como boa parte de suas composições e de sua obra, é irônica. A banda não reproduz certa tendência da música pop em tornar a beleza feminina um objeto de culto; antes, é uma crítica. “Muito da música que está aí é bobagem, com os mesmos valores que a pornografia. São esses valores que transformam ‘The Model’ em um robô. Há uma música que vá além da pornografia? Essa é a pergunta que fazemos”, afirma Ralf Hutter em uma de suas econômicas entrevistas.

As faixas “Spacelab” e “Metropolis” podem ser compreendidas como uma referência aos filmes de ficção científica, aos filmes de Fritz Lang, em que sintetizadores criam uma ambientação sonora que reflete o conceito do álbum. Outra faixa, “Neon Lights”, também pode muito bem ser compreendida como o relato de alguém que observa a cidade de uma perspectiva do alto, olhando para a cidade feita de luzes de neon à noite, como se estivesse a sobrevoar a cidade de Dusseldorf em um transe místico ou em um disco voador.

A faixa “The Robots” também é icônica. Ralf Hutter dizia: “Nós nascemos biologicamente a partir de um momento do acaso… Nascemos dentro de nós mesmos. Temos nosso duplo dentro de nós”. A faixa apresenta o simulacro do homem, o robô, e sua apresentação ao vivo é o ápice do conceito da banda. Quando a faixa “The Robots” é tocada ao vivo, os quatro integrantes da banda são substituídos por quatro robôs operados à distância. É comum o público aplaudir a dança dos robôs de forma entusiasmada, como se as máquinas pudessem ouvir o público. As máquinas que eram seres feitos apenas para servir tem seu momento de consagração popular.

A versão brasileira do álbum em LP The Man Machine é uma raridade que alguns colecionadores internacionais gostam de obter. É a única versão do mundo em que a capa original, com os integrantes perfilados de terno vermelho e gravata, é substituída por quatro manequins de terno cinza e gravata. O motivo disso? Em 1978 estávamos em plena ditadura militar e a censura considerou que o álbum possuía “influência comunista” por seus integrantes usarem vermelho. O que seria um equivoco. Há a referência à cultura russa, especialmente ao construtivismo russo, no design da capa e em alguns vídeos para o álbum. A referência apresenta-se através de contrastes em cores e motivos geométricos característico desse movimento estético-político.

Hoje, Ralf Hutter é o único membro original a permanecer no grupo, como líder e vocalista do Kraftwerk. Novos integrantes vieram nos anos 1990 e 2000 para substituir os outros nomes. Seus membros clássicos ainda vivem e continuam suas carreiras-solo nas artes e na música. Deixam o legado de vários álbuns importantes que iriam influenciar do rap ao pop, passando por vários outros gêneros. Mas, pensando especificamente dentro dessa concepção de um conceito de um duplo robótico que iria ser a marca registrada do grupo, The Man Machine é seu álbum mais representativo.

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