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O Jogo de Espelhos de Cara Delevingne

“Eu acredito num tipo de santo pro qual você pode se voltar quando é jovem, está começando e não se encaixa em lugar nenhum e quer fazer alguma coisa no campo das artes. E você sabe, bem cedo, que quer fazer isso, e você sabe que isso vai causar problemas. E você não dá a mínima pra isso. Você não quer se encaixar. As pessoas não gostam de você na escola, mas você não liga. Você não quer ser como elas, não quer sair com elas nem nada disso. Então, William, para essas pessoas, vai ser sempre quase que uma figura religiosa. E eu acho isso fantástico, e acho que ele também pensaria assim.” (John Waters, sobre William S. Burroughs)

(Mirror, Mirror) – Drama, Estados Unidos, 2017.

De Cara Delevingne e Rowan Coleman. Editora Intrínseca. 304 páginas.

Nível Heroico

O Jogo de Espelhos

Confesso que não esperava grandes surpresas para a leitura do livro de estréia da top-model e celebridade do Instagram (e aposta de atriz), Cara Delevingne, co-escrito em parceria com Rowan Coleman, que inexplicavelmente está quase desaparecido sob o nome da sua parceira mais famosa. Cara, o nome da Cara é maior até que o título! Mas fico feliz de dizer que minhas suspeitas eram infundadas.

Não, Cara Delevingne não é uma Patti Smith. Mas também não é a Kéfera.

Mas, embora patine no final do terceiro ato, o livro é um negócio a ser conferido.

Vamos lá, breve resumo: Naomi, Rose, Leo e Red são adolescentes comuns, passando por uma série de problemas mais ou menos típicos da idade. Bem, nada típicos. Todos vem de lares complexos em suas singularidades, são tristes e buscam o seu lugar no mundo. Aquele papo que você já conhece.

Red é quem narra a história e vem de um lar em frangalhos, com mãe alcoólatra, pai pulando cerca e irmã nova demais para perceber o quão as coisas ao seu redor estão tristes. Leo é o cara durão com coração de ouro, tendo que lidar com a vida pobre dos guetos londrinos e a mãe, que luta para que ele não tenha o mesmo destino que o irmão mais velho, um violento membro de gangue preso depois de esfaquear quase até a morte alguém de uma gangue rival. Rose é a riquinha do grupo, aparentemente uma patricinha fútil, que logo descobrimos ter sua própria cota de traumas e sofrimentos. Por fim, temos Naomi, a personagem mais presente ao longo de todo o livro, ainda que mais falem dela e por ela que o contrário.

O que esse grupo de adolescentes tem em comum? Unidos por um professor, os quatro tem dificuldades para ver o que ele sabe: vão dar uma banda boa pra porra, a Mirror Mirror que dá o título original do livro.

E esses jovens, tão diferentes entre si, vão acabar juntos. Com todo o peso que as amizades entre pessoas tão diferentes podem gerar no meio das crises da adolescência, eles percebem o que, muitas vezes, só descobrimos tarde demais: precisamos ficar ao lado dos amigos.

O livro tem um clima pesado, alternando com um senso de humor bem peculiar (papo de jovem) e um tour exclusivo pela noite londrina, onde Cara mostra toda sua expertise no consumo de substâncias lícitas e ilícitas. Mas o que guia a história é o desaparecimento de Naomi, que logo nas primeiras páginas é encontrada, em coma, às vésperas de um grande show da banda. Os caminhos que os personagens passam a partir daí quase parecem com pistas de redenção, mas nem tudo é perfeito.

É um livro para todos? Se você busca alta literatura, do tipo que mataria o Harold Bloom de orgulho, acho que pode esquecer. Mas, se você é um adolescente e está passando por um monte daquelas coisas estranhas que acontecem quando se é jovem (acredite, rolam coisas estranhas com todos nós – com alguns, sinto dizer, elas continuam rolando), é bem provável que esse livro vá lhe agradar.

Te contar um segredinho: eu até chorei.

Achou que ia ter uma crítica literária decente? Achou errado, otário!

Não acho que eu seja capaz, porque só depois de velho é que tentei dar uma chance pra esse tipo de literatura, o que chamam por aí de Young Adults. Mas a maioria eu abandonei nas primeiras páginas, incapaz de me sentir em sintonia com boa parte das personagens. Não foi o que rolou aqui. Cara Delevingne com seu jeito de quem tem uma vida muito louca, escreveu (ou fingiu que escreveu. Rowan tem um monte de livros, enquanto que Cara já chega, em seu primeiro romance, com os pés na porta desse jeito? Acho difícil, apesar de ser) um livro surpreendentemente atual, que versa sobre questões de sexualidade e gênero que precisam, como neste livro, serem discutidas cada vez mais. Aliás, Cara e Rowan fazem um bom uso das linguagens de internet e isso é realmente um grande destaque de Jogo de Espelhos.

Então, eu recomendo o livro, até pelas suas viradas na narrativa, algumas, o tempo todo na nossa cara, não chegam a surpreender, mas há pelo menos uma, exatamente no meio do livro, que, no mínimo, vai tornar isto aqui muito difícil de adaptar para o cinema. Digamos que é algo no nível do índio em Um Estranho no Ninho. Quem viu o filme e leu o livro, deve sacar o que estou dizendo.

É isso. Não deve virar cult porque é um livro feito por e para pessoas que não tem tempo para verem nada virar cult. Mas é um livro que merece ser lido se você quer entrar de cabeça na cabeça de uma juventude que fala cada vez mais sua própria língua.

Então, antes de ler, lembre-se de que você está ouvindo dicas de alguém que gosta de Highlander 2.



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