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The Young Pope

Crítica: The Young Pope

Nível Heroico

Minissérie

(The Young Pope) – Drama. Itália, 2016. De Paolo Sorrentino. Com Jude Law, Diane Keaton, Silvio Orlando, Javier Cámara, Scott Shepherd, Cécile de France, Ludivine Sagnier, Toni Bertorelli e James Cromwell. Distribuidora: HBO. Classificação: Livre. 10 episódios. 50 minutos.

A minissérie Young Pope, criada, dirigida e roteirizada por Paolo Sorrentino, é uma das melhores séries sobre os bastidores, as crises e intrigas palacianas do Vaticano.

O Papa Pio XIII (Jude Law) representa o governante que possui poder para zombar dos poderes instituídos, da tradição que, em tese, representa, da constituição e de suas leis terrenas. Digo terrenas porque, ainda que seja um personagem inquieto e inquietante, o Papa Pio XIII de Sorrentino apresenta-se como um personagem que não renega o seu fascínio por Deus e seu mistério.

O que talvez tenha feito com que o Vaticano tenha considerado que a série está ao lado de grandes obras cinematográficas sobre o tema. No jornal oficial do Vaticano, L’Osservatore Romano, seu diretor, um especialista em história católica, coloca a obra ao lado de filmes importantes como As Sandálias do PescadorO Cardeal.

Desenvolvida pela HBO, em parceria com a SKY e o Canal +, a minissérie se desenvolve em torno do personagem Lenny Belardo, o fictício papa norte-americano Pio XIII. A trama apresenta um papa jovem, atraente, obcecado por sua condição de órfão abandonado pelos pais hippies e com uma estratégia que deixa seus aliados e mesmo seus inimigos desnorteados.

Jude Law apresenta uma de suas melhores interpretações, em um personagem distante do que habitualmente faz. Seu papa não se desprende de seus prazeres comuns, bebe sempre sua Cherry Coke Zero pela manhã e fuma seus cigarros em um terraço do Vaticano. Ao lado dele está Diane Keaton, vivendo sua mãe adotiva e conselheira; Keaton é uma freira que o criou num orfanato depois que os seus pais o abandonaram quando era pequeno. Mas quem sempre rouba a cena quando aparece é o ator italiano Silvio Orlando na pele do Cardeal Voiello, Secretário de Estado do Vaticano, um dos maiores inimigos do Papa Pio XIII.

Em seus 10 episódios, com cerca de 50 minutos cada, somos apresentados a universo elegante e, até certo ponto, decadente do Vaticano. Sorrentino, ganhador do Oscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro por A Grande Beleza (2013), consegue realizar uma direção cinematográfica em tela pequena, com enquadramentos criativos, ótima direção de arte, direção de elenco caprichada e trilha sonora que não deixa de surpreender.

Aliás, a trilha sonora é um dos grandes destaques da série, uma mistura de trilha sonora original (composta pelo ótimo Lele Marchitellie) e canções conhecidas ou não tão conhecidas da música eletrônica, com inserções precisas de faixas de artistas como LMFAO, Soulwax, Trentemoller, Recondite, Post Pines, Superpitcher, Devlin e Belle & Sebastian, entre outros. Aliás, em um momento da série, em que o Papa Pio XIII explica a sua motivação para não aparecer em público, ele cita exemplo de artistas como Banksy ou Daft Punk, zombando de sua interlocutora pelo desconhecimento em música eletrônica.

Apresentando-se como um Papa totalmente antiprogressista, o Papa Pio XIII começa a desenvolver uma estratégia em que foge da manipulação dos cardeais mais antigos (sejam os tradicionais ou os progressistas), sendo evasivo e controverso. Adota uma política contra o aborto, causando a ira dos movimentos feministas; adota uma linha dura contra os homossexuais existentes na igreja, o que irá gerar uma crise interna em diversos de seus aliados; adota a imagem de um papa narcisista e isolado, querendo também isolar Deus e a Igreja, acreditando que o marketing do mistério é quem irá atrair os seus fiéis.

Temas que geralmente não podem fugir quando se fala em Igreja Católica estão na série: o celibato, o desejo sexual dos sacerdotes, a pedofilia. Porém, eles ficam em segundo plano, pois são temas instrumentalizados politicamente pela série, ou seja, são temas que são usados politicamente pelos personagens. Assim como a caridade. Em um de seus melhores episódios, quando o Papa Pio XIII estreita relações com uma freira que realiza campanhas de fraternidade em um país do continente africano, observamos como os esforços da freira se mostram mais uma tentativa de se manter no poder, de alimentar os seus próprios desejos e não confrontar a liderança ditatorial que governa o país.

Originalmente pensada como minissérie, o sucesso de público e crítica de Young Pope foi tamanho que ganhou um produto derivado chamado The New Pope, série ainda em fase de desenvolvimento pelos mesmos criadores da mini original. Mas que, a princípio, não deve contar com Jude Law e nem pertencer à mesma linha narrativa do seriado original.

Paolo Sorrentino, em Young Pope, acerta a mão ao apresentar um homem que busca uma forma de poder que radicalmente reordena a instituição que representa. Realizada em 2016, a série é uma interpretação particular do diretor em torno da ascensão de movimentos conservadores no mundo como um todo, em especial nos Estados Unidos e Europa. Movimentos conservadores que também chegaram ao Brasil.

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