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A Operação Lava Jato na indústria do entretenimento

A Operação Lava Jato na indústria do entretenimento

Que a Operação Lava Jato, deflagrada em 2014, revelou o maior escândalo de corrupção da história do país, qualquer um que acompanha os noticiários já está cansado de saber. Tal operação realizada em conjunto pela Polícia Federal, Receita Federal e pelo Ministério Público ainda não foi finalizada mas já descobriu desvios de dinheiro dos cofres públicos da ordem de trilhões de reais que envolveram (e envolvem) a cúpula do poder da nação. Obviamente que a indústria do entretenimento não iria deixar passar batido um evento tão significativo como este e, desde então, vem jogando no mercado inúmeros itens inspirados nesta grande operação conjunta de investigação que acaba de entrar em seu quarto ano de existência. Dentre os diversos produtos disponibilizados ao público, destacaremos os três mais impactantes. Antes de continuar, é sempre bom lembrar que não entraremos na questão política da coisa, mas sim, tentaremos fazer uma análise do caráter das obras como entretenimento, apenas. Com isto posto, vamos a diante.

A primeira obra analisada é o livro Lava Jato – o Juiz Sergio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil, escrito pelo jornalista Vladimir Netto, filho da também jornalista Miriam Leitão, publicado pela Editora Sextante. A obra engloba o período desde o início das investigações até o episódio da divulgação dos áudios das conversas telefônicas da então presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula sobre a nomeação deste último como Ministro da Casa Civil. A publicação de mais de quatrocentas páginas foi escrita, de uma forma que lembra demais um livro de suspense e mistério, que vai revelando, aos poucos, as descobertas e detalhes das investigações, prendendo totalmente a atenção do leitor. Para complementar, o livro carrega uma quantidade impressionante de detalhes ao ponto de, em determinadas situações, Netto conseguir dizer o que determinado personagem jantou após um determinado acontecimento revelando o quão foi minucioso o trabalho de pesquisa do autor. Em compensação, em alguns pontos, este mesmo alto grau de detalhes acabam sendo, também, o ponto negativo do livro, principalmente, quando Vladimir dedica quase que um capítulo inteiro a relatar a vida íntima e familiar do juiz Moro. A tentativa de mostrar o quanto o magistrado é um cidadão íntegro e um dedicado marido e pai de família que tenta conciliar isto com seu trabalho acaba soando como uma certa forçada de barra um tanto desnecessária para enquadrá-lo no arquétipo do herói. No mais, a obra serve não só como um registro histórico dos fatos, mas também como uma ótima história de suspense.

A próxima obra a ser analisada é o filme Polícia Federal – A Lei É Para Todos, inspirado no livro homônimo de Ana Maria Santos e Carlos Graieb. O filme, lançado em 2017, é a primeira parte de uma trilogia e mostra o ponto de vista dos investigadores ao longo da Operação Lava Jato. O time de investigadores protagonistas (com nomes fictícios) conta com os Delegados Ivan (Antônio Calloni), Júlio César (Bruce Gomlevsky), Beatriz (Flávia Alessandra), Vinícius (João Baldasserini) e contam com o apoio do procurador Ítalo Agnelli (Rainer Cadete). Polícia Federal – A Lei É Para Todos mantém alguns personagens reais na trama como o Juiz Sergio Moro, o doleiro Alberto Youssef e o ex-Presidente Lula, todos interpretados, respectivamente por Marcelo Serrado, Roberto Birindelli e Ary Fontoura e intercala com cenas reais retiradas dos telejornais. Com direção de Marcelo Antunez e roteiro de Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein, o filme engloba o mesmo período do livro de Vladimir Netto, porém, deixa de lado todo o processo de investigação para focar exclusivamente na caçada ao ex-presidente Lula e aos políticos do seu partido, evidenciando todo o viés político da obra o que tira toda a sua credibilidade como registro histórico. Mesmo tendo sido feito com consultoria da própria Polícia Federal do Brasil, as atuações sofríveis, o roteiro corrido em certos pontos e algumas questões importantes tratadas de forma bem superficial somadas a um certo tendencionismo político da história deixam o filme muito a desejar para quem espera ver a Operação Lava Jato retratada nas telonas. Sem contar que o filme ainda conta com uma cena pós-créditos um tanto forçada só para avisar que uma continuação do mesmo está em produção.

Por fim, temos a série O Mecanismo, que estreou na última semana no Netflix. Criada por Elena Soárez e José Padilha (que também está na direção junto com Marcos Prado), a série foi inspirada no livro Lava Jato – O Juiz Moro e A Operação Que Abalou o Brasil. Ao contrário da publicação de Vladimir Netto, a série teve alguns elementos alterados para ter uma carga dramática, aviso este que aparece no início de todos os seus oito episódios. O Mecanismo conta a história do policial federal Marco Ruffo (Selton Mello), obcecado pelo caso que está investigando e louco para prender o doleiro e amigo de infância Roberto Ibrahim (Enríque Diaz), que acaba descobrindo um dos maiores esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro do país com a ajuda da agente Verena Cardoni (Caroline Abras). Seguindo uma linha totalmente oposta à de Polícia Federal – A Lei É Para Todos, a série O Mecanismo foca bastante no impacto da Operação na vida de todos os personagens e consegue equilibrar razoavelmente bem a carga dramática com os fatos e situações que serviram de inspiração em boa parte da série, o que fica bem evidenciado do terceiro episódio em diante. Não existem heróis e vilões definidos, a dupla criativa da série faz questão de evidenciar as falhas de caráter de todos os envolvidos na trama, que ninguém ali está lutando pelo bem comum ou querendo a dominação mundial. O foco nas nuances das personalidades deixa a trama com um tratamento quase que antropológico, tudo isso, alinhado com o avanço das investigações e chegando na alta cúpula de Brasília. A série também é favorecida pela ótima atuação de todo o elenco e pela forma como Padilha faz questão de nos lembrar o quanto a corrupção está entranhada na cultura do povo brasileiro como um todo e que o que aconteceu na Operação Lava Jato é apenas um reflexo disso. A série mostra, nas entrelinhas, que, para combater a corrupção no Brasil, todos os brasileiros precisam mudar de atitude. É óbvio que a série tem problemas e, se for para destacá-los, seriam dois: problemas sérios de edição do áudio nos dois primeiros episódios, principalmente durante os voice-overs de Marco Ruffo que, de tão baixos e sussurrados, nos obrigam a ter que ativar as legendas para entender o que ele diz. Outro problema que pode ser apontado são as diversas cenas de sexo e nudez que, na maioria das vezes, são completamente desnecessárias.

A série O Mecanismo já estreou com uma grande polêmica por parte de alguns críticos, que acusam José Padilha de colocar a simbólica frase proferida pelo Senador Romero Jucá ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado sobre “fazer um grande acordo nacional para estancar a sangria” na boca do personagem João Higino (Arthur Kohl), inspirado no ex-presidente Lula. O que era para ser apenas um dos muitos easter-eggs inseridos ao longo dos episódios acabou rendendo uma dimensão bem maior do que deveria ter. Para explicá-la, será necessário um breve spoiler, portanto, se não quiser saber do contexto, é melhor parar a leitura por aqui. Continuando, a cena em questão mostra o personagem João Higino conversando com o personagem Mário Garcez Brito (Pietro Mário) quando as investigações chegaram nos empreiteiros. João Higino diz a frase para Mário Garcez Brito (Pietro Mário), uma espécie de lobista e advogado das empreiteiras muito influente, para reforçar a necessidade de uma “operação abafa”. Mário Garcez Brito foi inspirado no ex-Ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos que, de fato, atuou como advogado das empreiteiras e tentou uma manobra muito semelhante.

Em uma época em que amizades são desfeitas por conta de divergências políticas, qualquer coisinha, toma grandes proporções de forma desnecessária e, no caso de O Mecanismo, acabou deixando de lado o verdadeiro ponto da série que é justamente o quanto a corrupção é uma questão de mudança cultural do brasileiro. No mais, justamente pelo fato de todos os personagens terem seus nomes alterados dos que serviram de inspiração junto com os nomes modificados de todas as instituições retratadas, acaba sendo uma diversão à parte tentar identificar quem é quem na série.



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