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Depressão e o direito à felicidade

Depressão e o Direito à Felicidade

No início achava que era apenas uma impressão minha, mas o número foi aumentando cada vez mais, até que li a notícia e vi que era oficial: o número de pessoas com depressão ou outras doenças ligadas à saúde mental está em plena expansão. Vivendo no Brasil, a primeira ideia seria ligar isto à crise econômica que o país vem sofrendo nos últimos anos, mas as pesquisas mostram que a tendência é mundial, o que sugere motivos mais profundos para o fenômeno.

Já nos anos 30 do século passado, Charles Chaplin nos mostrava em Tempos Modernos os efeitos da alienação do trabalhador e seu trabalho, onde, após a Revolução Industrial, o operário se tornava apenas mais uma peça na linha de montagem. A busca da felicidade já era difícil, e Chaplin nos mostra seu protagonista tentando se virar das mais diversas maneiras para ficar com sua amada Ellen (Paulette Goddard). A fuga parece ser a única solução, mas o diretor não mostra para onde esta fuga levaria.

Com a evolução tecnológica, o operário foi sendo aos poucos sendo substituídos por robôs. Da mesma forma, a economia não se baseia mais na produção industrial, e sim numa matemática quase arcana que faz o dinheiro se multiplicar sem rastro na realidade. Ocorre que, cada vez mais, é uma minoria que desfruta das vantagens desse sistema, enquanto a maioria vai empobrecendo sem perceber. Se a classe média, com seu esforço, conseguia no passado constituir família, comprar casa e carro, hoje muitos chegam aos 40 anos mal conseguindo sobreviver. Se consegue a casa própria, é em um lugar distante, sendo obrigado a perder um tempo imenso no deslocamento casa-trabalho-casa.

Assim o eterno cansaço, a constante situação financeira de corda no pescoço, bem como a precariedade nas relações de trabalho, com a ameaça até de se tornar obsoleto e ser trocado por um robô, tudo isso vai fazendo com que a alienação em relação ao trabalho vá se tornando alienação ao próprio sentimento. Parecemos viver em eterna fuga, tentando parecer felizes, quando no fundo da alma sabemos que há algo errado, que deve ser mudado.

A metáfora perfeita para essa situação se encontra no filme Shame, dirigido por Steve McQueen em 2011. Michael Fassbender vive um sujeito viciado em sexo, que pratica atos sexuais compulsivamente sem sentir prazer. Quando realmente se apaixona, ele não consegue ficar excitado, pois para ele o sexo já está complemente dissociado dos sentimentos. Ele sente medo por ter despertado em si alguma emoção. E assim vai o filme, entre a fuga e a indecisão e, mais uma vez, o diretor não aponta respostas.

Parece que essa é a nossa situação atual: nos distanciar cada vez mais de nós mesmos para não termos que lidar com o que nos incomoda. Estamos com problemas, mas não sabemos como, ou não termos coragem, de agir para resolvê-los. E a solução está diretamente ligada a uma mudança estrutural em nossa maneira de viver, que passa pelo modo como lidamos com a economia e a política.

Encaramos como natural a desigualdade e o que nos vendem o tempo todo é que dependemos apenas de nosso próprio esforço para nos tornarmos parte daquela minoria que se beneficia das vantagens em manter as coisas como estão. Se não chegamos lá, a culpa é toda nossa por não termos nos esforçado o bastante. E assim vamos internalizando as contradições do sistema como se fossem nossas falhas individuais, nos tornando cada vez mais frustrados por não levarmos a vida que julgamos merecer.

Nessas horas é que uma utopia faz falta. Pois o que precisamos agora, mais do que tudo, é pensar em alternativas. Até porque, nosso estilo de vida não leva apenas à depressão, mas à obesidade, às doenças cardíacas, isso para não falar no esgotamento dos recursos naturais e no aquecimento global, que podem acabar inviabilizando nossa vida como espécie.

A depressão vem do sentimento de que não estamos nos adequando ao sistema, e isso nos faz sofrer e ficar triste. Mas e se, na verdade, não tivermos mesmo que nos adequar? E se decidirmos que devemos construir uma vida em sociedade que atenda nossos anseios? Que é o dinheiro que deve nos servir, e não somos nós que devemos servir ao dinheiro? Meus amigos e minhas amigas, se estiverem em depressão, atravessando um momento difícil, lembrem-se: ser feliz é um direito seu! Mas como todo direito, ele não será concedido por quem ocupa o poder, e talvez seja preciso muita luta para que ele seja conquistado.

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  • Victor Alexndre

    Que ponto de vista interessante.

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