Multiverso

Parto sem cordialidade de um novo Brasil

Parto sem cordialidade de um novo Brasil

Se um dia eu lhe enfrentar
Não se assuste capitão
Só atiro pra matar
E nunca maltrato não
Na frente da minha mira
Não há dor nem solidão
E não passo por um castigo
Que a Deus cabe castigar
E se não castiga ele
Não quero eu o seu lugar
Apenas atiro certo
Na vida que é dirigida
Pra minha vida tirar

(Terra Plana, Geraldo Vandré)

Estamos em um momento fulcral, senhoras e senhores. Daqui em diante, sinto dizer, é no tudo ou nada.

Isto não é exatamente verdade, é claro. O jogo, seja lá pra que lado estiver pendendo, sempre pode mudar de repente. Mas não estou bem certo quanto à qualidade humana. Falamos muito sobre conhecer a nossa própria História, mas, a cada dia que passa, mais eu vejo que a memória é seletiva. E não é só a longo prazo, a memória curta também é seletiva, pronta para julgar, mas não a partir de dados e, sim, de achismos, repetindo discursos de ordem e rancor, proferidos pelos novos senhores feudais, líderes políticos e religiosos, muitas vezes entrelaçando os papéis.

Essa letra do Vandré aí em cima, ó, é uma deixa do que vai rolar. Terra dos Mortos do Romero é outra, lembra desse filme? Dennis Hopper incorporando o Donald Trump, justificando uma sociedade de exploração com base em privilégios, uma hierarquia de onde ele se beneficia e controla, sem nunca sujar as mãos. Vocês leram/viram V de Vingança, né? Existem grandes diferenças entre a história contada numa mídia e na outra, mas a essência tá lá: o povo, unido, jamais será vencido.

Neste momento, cá na roça onde eu moro, se me ouvissem falando isso, já ia vir um com o papo de “não é bem assim, cara, o comunismo também…” Nessa hora, tem que chamar essa galera para comparar o quanto o capitalismo matou e mata diariamente em todo canto. Muito além dos chãos de fábrica, nas ruas e calçadas, no trabalho irregular, que colocam o pão todo dia em casa, quem trabalha mais e quem recebe menos em qualquer local de trabalho por aí?

Enfim, de que adianta eu falar isso aqui? Se você já entende isso, é só mais um texto sobre o mesmo assunto. Se não entende, vai falar que estou doutrinando, que isso aqui não é lugar de falar de política, relativizando. Se você for desse segundo caso, belê, exerça aí o seu direito democrático de comentar. Só não fale muita asneira, porque é muito triste a pessoa querer relativizar a violência.

“É isso aí”, gritou o senhor lá atrás, com camisa da CBF. Ele pula no microfone e diz que é isso mesmo, todo dia morre um monte de gente e o mundo não para por eles. Alguém com bom senso tire esse arremedo de Richard Spencer do palco antes que ele fale mais merda para que possamos volta à programação (quase) normal.

Sério que você vai ficar aceitando que espalhem mentiras sobre uma liderança política eleita por mais de 40 mil votos, com base na sua visão de mundo e a maneira como se esforçava para alcançá-la? E você nem percebe o quanto o assassinato de Marielle é grave para a democracia em geral? Acha mesmo que é só “mais uma” outra vítima da grande guerra social que não encontra outra solução além de querer armas mais e mais, o Estado e (na ilógica lógica de alguns) a população?

Antonio Callado, jornalista, escritor, teatrólogo e comunista, escreveu lá atrás um conto chamado O Homem Cordial. Nele, um professor que teve os direitos políticos cassados durante a ditadura. O próprio Callado passara por percalço semelhante, tendo sido preso duas vezes. Uma delas, depois de publicar um livro de reportagens, Tempo de Arraes, sobre um movimento político-social que conseguiu avançar na Pernambuco governada por Miguel Arraes antes do Golpe de 1964.

Ao contrário de muitos dos personagens de Callado, que se recusavam a ser testemunhas silenciosas da agonizante democracia, o professor em O Homem Cordial prefere silenciar. Insiste nessa passividade até que a violência do Estado invade sua casa novamente, dessa vez na pele dolorida de sua filha, espancada em uma manifestação. O professor, até aí mais preocupado em poder retomar sua pesquisa, seu grandioso livro sobre a cordialidade inerente ao povo brasileiro, encara a realidade: não há mais cordialidade. Sua auto-crítica é catártica, o homem vomita para todos os lados, a bile verde inunda seu livro.

O que vem a seguir? O conto de Callado acaba por aí. Na sua quadrilogia sobre a ditadura (Quarup, Bar Don Juan, Reflexos do Baile e Sempreviva), o autor mostra homens e mulheres que pegam em armas, encaram o Sistema e, quase sempre, perecem numa luta que não encontrou resultados satisfatórios por muito tempo.

Não estou mandando vocês escolherem de que lado querem ficar. Mas estou pedindo para que parem de defender uma suposta ordem que professa o medo e a violência. Se você for hétero, cis, branco, cheios de benefícios e, de vez em quando, ainda bate no peito pra falar alguma coisa capaz de envergonhar, se não a si mesmo, pelo menos, algum parente morto que vai rolar no caixão, por favor, dá um tempo. Independente das suas inclinações políticas. Largue a mão de ser mané.

E se pergunte: quem se beneficia?

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