O Contista

Revolução 14. Filha Desaparecida

Revolução

Outra noite em claro, mais uma noite preocupado com a filha. Era a realidade de Benjamim naquela madrugada. Ela disse que iria a uma festa com os amigos novos, que ele ainda não conhecera, mas que ele confiava serem boas pessoas. Porque ele confiava na palavra de Alexandra. Ela podia ter tendência a ser antissocial, mas era sempre correta. O problema de Benjamim estava em sua mente, que não conseguia abandonar o pensamento de que ela poderia novamente estar tentando algo contra a própria vida, como tinha acontecido em abril. Se ela tivesse inventado esses novos amigos? Se estivesse apenas pensando em outra maneira de tirar a vida? Ou ela estaria, na verdade, sendo coagida a fazer algo que não queria? Ela sofria bullying na escola, ele sabia disse. As pessoas que a maltratavam podiam estar obrigando-a a fazer coisas que ela não quisesse, coisas que poderiam ser perigosas.

Eram dúvidas que o faziam olhar para a tevê ligada à sua frente sem realmente prestar atenção no que estava passando. Muitas coisas estranhas estavam acontecendo nas últimas semanas, desde o dia da confusão no Centro, quando Alexandra chegou tarde em casa dizendo que precisara se esconder no meio do caos. Benjamim decidiu esperar por ela vendo televisão ao invés de ir para o quarto dormir, já que não conseguiria, mas o relógio marcava 2:12 da madrugada e nada de ela aparecer. E dessa vez, ele sentia um aperto no peito que não sabia explicar. Sua mente trabalhava sem parar em centenas de hipóteses que só o levavam às piores conclusões que poderia imaginar.

A angústia permaneceu assombrando-o por mais trinta minutos, até que se concretizou com o som de batidas apressadas na porta de casa. Ele levantou-se num pulo, largando o controle remoto no chão, e correu para atender. Abriu para se deparar com uma Leona ofegante, suada e com olhos vidrados de pânico.

— Alexandra… o senhor precisa vir comigo a uma Guarnição! Aconteceu uma coisa horrível!

Benjamim correu até o quarto no segundo andar, pegou um casaco e as chaves de casa para trancar a porta e saiu junto com Leona.

Foram a passos apressados até o ponto de ônibus mais próximo e esperaram durante quase uma hora até passar um ônibus que os levasse até a Guarnição mais próxima, que ficava a cerca de três quilômetros da casa de Benjamim. Levaram dez minutos para chegar.

Na Guarnição, foram até o balcão de atendimento onde um legionário bocejava e carimbava alguns papéis de formulários e registros criminais.

— Por favor, preciso reportar um desaparecimento — Benjamim quase se debruçou sobre o balcão.

— Qual o nome do desaparecido? — o soldado mal esboçou reação, dirigindo a ele uma atitude fria de quem lidava com aquele tipo de ocorrência todos os dias. Desaparecimentos eram bastante comuns em Tarsila, muitos deles por causa de ações repressivas da Legião.

— Alexandra Eco.

— Qual foi a última vez que o senhor a viu?

— Ela saiu com amigos às oito da noite e não voltou até agora.

— O que faz o senhor pensar que ela desapareceu ao invés de ela estar com esses amigos?

Benjamim enrijeceu.

— Minha filha estava no lugar onde aconteceu uma operação militar e está desaparecida — ele apontou para Leona. — Ela é amiga da minha filha, estava com ela quando tudo aconteceu.

O legionário a olhou por um instante, depois voltou a olhar para Benjamim. Então, foi até um computador no canto do balcão, digitou por cerca de quatro minutos e voltou para falar com eles.

— Não temos informações de uma operação militar sendo realizada esta noite, senhor. Pode nos dizer exatamente o que aconteceu?

— Eu não sei, eu não estava lá. Ela só disse que ia sair com amigos.

O soldado franziu o cenho com o que parecia ser uma atitude de reprovação.

— Fomos a uma festa — disse Leona, colocando-se ao lado de Benjamim com as mãos no balcão.

— Que tipo de festa? — perguntou o soldado.

— Uma festa entre amigos, para comer e beber, como qualquer festa.

— Do tipo que tem música? — havia um tom de desdém na voz do legionário. — Festas não são boas. Vocês jovens adoram se enfiar onde não deveriam.

— O que isso importa?? Minha amiga desapareceu enquanto pessoas estavam sendo pisoteadas e morrendo! Você é da Guarnição! Deve zelar pela segurança dos cidadãos! Não vai fazer NADA? — o tom de Leona se elevou.

— Não temos informações no nosso banco de dados sobre operação em uma festa.

— É porque obviamente não era uma operação oficial! — Leona bateu com a mão no balcão.

O legionário inclinou o corpo para trás, arregalando os olhos, e depois voltou a se ajeitar.

— Peço que se acalme, senhora. Ou teremos que prendê-la por desacato.

Leona suspirou, lutando contra a raiva.

— Vocês são a guarda da cidade, precisam fazer alguma coisa para achar minha filha — disse Benjamim.

— Se ela saiu com amigos, precisamos aguardar que ela volte. Se não voltar depois de 24 horas, volte para registrar o desaparecimento. Antes disso, só podemos esperar.

— Até lá, minha filha provavelmente vai estar em uma vala qualquer! — Benjamim lutou contra o desejo de bater com a mão no balcão. Talvez bater no soldado. Cerrou o punho com força, furioso.

— Vocês são a Guarnição, deveriam fazer alguma coisa para ajudar! — Leona reforçou sua indignação.

— Estamos aqui para isso, mas temos leis a seguir.

— Claro, as leis da Autocracia! Vocês são apenas uma Guarnição, não é? Não passam de paus-mandados da Legião. Como sempre, não podem fazer nada por nós!

— Senhora, é melhor se acalmar! — atrás do balcão, o soldado começou a se levantar da cadeira, colocando a mão em sua arma.

Benjamim segurou Leona gentilmente pelos ombros e afastou-a do balcão.

— Vamos embora, não temos mais nada a fazer aqui.

O olhar de Benjamim, por um instante, fez o legionário estremecer, pareceu despertar uma fagulha ínfima de compaixão, que desapareceu imediatamente depois. Não havia qualquer coisa que um simples soldado de Guarnição pudesse fazer. Eles eram a base da hierarquia militar da Legião, os responsáveis por manter a ordem em um âmbito regional da cidade, as buchas de canhão para o verdadeiro exército da Autocracia. Se uma operação militar tinha sido realizada para coibir um espetáculo de grave, e a ação acabara em tragédia e mortos, como tantas empreendidas pelo governo do Marechal Tigris, nada havia que um cidadão comum como Benjamim pudesse fazer, a não ser esperar que sua filha estivesse bem e que retornasse para casa em segurança.

Mas Benjamim sabia que era uma esperança vã. Pela expressão no rosto de Leona, ela sabia também. Eram impotentes diante do regime que imperava em Tarsila.

Benjamim saiu da Guarnição acompanhado de Leona; pegaram um ônibus e ele desceu junto com ela para deixá-la em casa, agradecendo-a por tê-lo avisado e pela companhia naquele momento difícil. A casa dela estava apagada e os pais estavam dormindo. Leona entrou em casa se controlando para não desabar em lágrimas na frente dele. Benjamim fez o caminho restante a pé. Quando entrou em casa, sentou-se no sofá, apoiou os cotovelos sobre as coxas e enfiou o rosto nas mãos, os olhos e as bochechas já encharcados pelas lágrimas que vertiam desesperadamente.

Sozinho no escuro de sua sala, Benjamim, um homem que não acreditava em coisas como fé ou destino, vivenciou algo que jamais imaginara que vivenciaria na vida. Esperou por um milagre.


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