Trocando Ideias

Rio de Janeiro, distopia em construção

Os fãs e o conflito de gerações

É comum o debate sobre qual das distopias foi mais certeira em sua descrição do futuro. O hedonismo vazio de Admirável Mundo Novo? O totalitarismo onipresente de 1984? A violência niilista de Laranja Mecânica? Contudo, no Rio de Janeiro, a discussão perde um pouco o sentido, pois a cidade parece ter se tornado um hit combo de distopias literárias que se tornaram realidade.

Não é recomendável datar o texto, mas desta vez é impossível não dizer que escrevo em fevereiro de 2018, ainda sob o impacto da notícia de que o estado em que vivo irá sofrer uma intervenção federal na área de segurança pública, que passará a ficar sob o comando de um general. À primeira vista, parece ser a admissão de culpa dos governantes de que perderam o controle da situação, mas uma reflexão menos afoita pode trazer novos elementos para entendermos como as coisas chegaram a este ponto.

Em Laranja Mecânica, Anthony Burgess nos apresenta um futuro onde a vida social é dominada por uma guerra de gangues influindo no cotidiano das pessoas. A violência fica por conta de uma juventude sem perspectivas que se sente realizada apenas sendo vitoriosa cometendo crimes e usando drogas. Até que o governo aparece com uma solução mágica para o problema: um novo experimento científico que, se der certo, mudará a mente dos delinquentes e os impedirão de cometer novos delitos. Obviamente isso dá errado, e ao final, problema algum é solucionado.

Pois a sensação que bate em relação ao Rio de Janeiro pra mim é essa. Vende-se o milagre da intervenção militar para não ter que lidar com as verdadeiras causas do problema. A desigualdade social gritante, os políticos que ocupam cargos públicos para benefícios próprios, a polícia mal remunerada e sem treinamento, a falta de acesso à saúde e educação de grande parte da população, nada disso será resolvido com tropas na rua. Além disso, já temos exemplos como o da Maré, onde a comunidade foi ocupada pelo Exército por mais de um ano e se continuou a vender drogas, os militares se desgastaram com a população e quando as tropas saíram tudo continuou como antes. Isso para não lembrar do México, onde se colocou o Exército para combater o narcotráfico e o resultado foi desastroso, com a corrupção e o envolvimento com o crime contaminando a tropa.

A construção da verdade pela mídia também contribui para a falta de foco na raiz do problema. Os jornais adotam o discurso da guerra e escolhem qual político atacar e qual será poupado. A tevê da igreja poupa o bispo e bate no governador, a tevê concorrente bate no bispo e pega leve com o governante atual, que na verdade segue o anterior que também era poupado. Além disso, mostram mais ou menos violência nos jornais de acordo com a pauta que pretendem construir, mostrando a violência na zona sul da cidade, enquanto silencia sobre as vítimas dos bairros mais pobres, inclusive quando são policiais os algozes.

E ainda, o presidente da república, até pouco tempo retratado como um criminoso que utilizava o cargo para se blindar, de repente vira um estadista preocupado com o bem-estar da população? É como em 1984, onde George Orwell nos contava a história de um mundo dividido em 3 Estados em permanente guerra, e o inimigo de hoje, que era retratado como vil, amanhã vira aliado e a imprensa passa a tratá-lo como um grande amigo.

Enquanto isso, o povo é estimulado a sempre estar feliz, e nas redes sociais todos postam os bons momentos da vida, enquanto no íntimo sofrem de depressão, de falta de dinheiro e muitas vezes de desentendimentos dentro da própria família. Isso quando não sofrem diretamente com o descaso das autoridades, perdendo entes queridos para a violência urbana ou para a falta de cuidados básicos com a saúde, como no recente surto de febre amarela.

Além disso, o mesmo governo que decretou a intervenção é o que lutou para aprovar uma emenda à Constituição que impede o aumento de gastos em áreas como saúde e educação, mostrando que a única solução que consegue imaginar para os problemas do povo é a repressão.

É compreensível que uma parte da população apoie essa medida, com a sensação de que alguma coisa está sendo feita. Principalmente se essa parte da população não será a diretamente atingida pelas possíveis consequências no curto prazo. Mas este remédio pode ser como tomar um Tylenol para combater a febre enquanto se esquece da gangrena no pé que vai tomando conta do corpo. Quando se perceber que o medicamento não curou a doença, já poderá ser tarde demais.



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