O Contista

Revolução 13. Situação de Crise

Revolução

O ponto de encontro combinado, em caso de problemas, era a Oficina do Velho Galfre. Se qualquer coisa ruim acontecesse e o grupo dispersasse, deveriam buscar formas de chegar em segurança na oficina, e garantir que não estavam sendo seguido até lá. Foi uma contingência traçada por Tyfon e Marcos logo que começaram a mover as peças para instaurar uma rebelião em Tarsila. A batida da Legião no festival da banda era uma situação bastante ruim. Ryoma escapara por pouco do inferno que o armazém se tornou e acabou se separando do restante do grupo quando Amara decidiu correr para ajudar Alexandra e a amiga.

Enquanto fugia, embrenhou-se por entre carcaças velhas de carros depenados e ruínas de construções abandonadas para entrar na área dos Blocos, e de lá, voltou à Sol Poente. Correu em círculos por ruelas e becos até ter certeza de que não estava sendo seguido, então, seguiu para a Oficina do Velho Galfre, onde esperava encontrar os companheiros. Esperava que estivessem em segurança, mas sabia que nada estava bem, e ele sequer tivera tempo para remoer a tristeza pelo que aconteceu no armazém. O coração doía tanto quanto as pernas, mas Ryoma só conseguia pensar em correr, correr o máximo que seu fôlego permitisse, sem hesitar.

Entrou em uma das vielas que levavam até a região da oficina. Olhando por cima do ombro, viu um mendigo catando lixo e coisas para comer em uma caçamba grande, dividindo o cobertor e alguns restos com um cachorro deitado ao lado. Casas de um ou dois andares se misturavam à muros que cercavam terrenos de ferro-velho e garagens de carros. As cores das pinturas e graffiti artístico nos muros tornavam as ruas reconhecíveis e serviam como ponto de referência para encontrar o endereço, especialmente em uma situação de estresse. Ryoma só tinha ido à oficina uma única vez e não queria se perder. Não naquele momento.

Quando parou em frente à placa de metal que dizia “Sempre Aberta”, precisou de um instante para recuperar o fôlego, olhou para um lado e para o outro, por cima do ombro, para garantir que não o observavam, e entrou. O Velho Galfre veio recebê-lo, saindo de um corredor ao lado das baias.

— Você está bem? — ele perguntou.

— Estou, só preciso de um minuto para recuperar o fôlego — respondeu Ryoma.

— Eles estão nos fundos — Galfre apontou por cima do ombro para o corredor atrás dele. — Ainda falta alguém?

Ryoma engoliu seco, a dor percorrendo do estômago para o coração, os músculos à beira da paralisia. O Velho Galfre, ao perceber a angústia, não o esperou responder.

— Vai, eles estão esperando — ele deu um passo para o lado, abrindo caminho para o corredor.

Ryoma conseguiu mover as pernas, agradeceu ao Velho Galfre e andou devagar pelo corredor até a porta no final. Entrou na sala, onde encontrou Tyfon e Marcos sentados em uma mesa no canto, Marcos com um cigarro aceso entre os dedos trêmulos, Troua sentado em uma cadeira ao lado e Leo sentado de pernas abertas no chão, encostado em uma parede com os braços apoiados sobre os joelhos dobrados. Leo e Troua se levantaram num pulo quando viram Ryoma entrar e foram ajudá-lo.

— Cara, você conseguiu, que bom que conseguiu? — disse Leo, colocando a mão no ombro de Ryoma.

— Amara não está com você? — Troua rapidamente percebia qualquer coisa negativa.

Ryoma trocou um olhar pesaroso com eles, que imediatamente entenderam o que havia acontecido. Leo se afastou, as pernas trêmulas, lágrimas brotando no canto dos olhos, os lábios balbuciando: — Não pode ser. — Troua passou o braço por cima de seu ombro, conduzindo-o gentilmente para se sentar em algum lugar. Tyfon cerrou o punho, um brilho de raiva percorrendo seus olhos. Marcos espremeu o cigarro no cinzeiro, respirou profundamente e, com os cotovelos sobre a mesa, apoiou a cabeça entre as mãos, enfiando os dedos entre os cabelos loiros, lutando contra o desejo de arrancá-los do couro cabeludo. Ryoma sabia como todos estavam se sentindo, porque ele se sentia da mesma forma, impotentes, com raiva de terem sido incapazes de impedir a ação da Autocracia no armazém e por não terem protegido sua amiga.

— O que aconteceu? — perguntou Tyfon.

Ryoma inspirou para tomar fôlego.

— Amara quis ajudar Alexandra e a amiga dela quando você foi para a parte de trás enfrentar os soldados.

— Eu fui para distraí-los e dar tempo para vocês fugirem — Tyfon bateu com o punho fechado na mesa, trincando os dentes. — Eu disse que voltaria para buscar Alexandra.

— Você sabe como Amara é… — Ryoma hesitou, baixando o olhar para o chão — era… ela confiava demais na super-velocidade, achava que poderia tirar Alexandra e a amiga de lá sem ser pega pelos legionários. Foi atingida com o modo paralisante por um deles.

— Eu disse para ela, sempre dizia, um dia ela ia acabar pagando pela imprudência — Troua deixou o corpo cair na cadeira, sentando-se com a cabeça baixa, os braços apoiados sobre as coxas. — Merda! Merda! — as lágrimas escorreram pela barba rala e pingaram no chão de madeira.

Um silêncio desolador preencheu a sala, onde se ouvia apenas o choro, a dor sendo colocada para fora e transformada em raiva, desejo de vingança e ajuste de contas pela amiga perdida. Por um minuto, nada falaram.

— E Alexandra, você sabe o que fizeram com ela? — perguntou Tyfon.

— A última coisa que vi antes de fugir foi ela sendo arrastada para um caminhão. Eu queria… — Ryoma se esforçava para organizar os pensamentos — ter feito alguma coisa, qualquer coisa para ajudá-las.

— Você não poderia ter feito nada, só acabaria morto — disse Tyfon. — Precisamos pensar e nos organizar se quisermos fazer alguma coisa para ajudar Alexandra.

— Na hora, achei que a matariam também.

— Será que sabem que ela está com o Poder do Cavaleiro? — Marcos olhou para Tyfon, endireitando-se na cadeira.

— É possível, mas não temos como saber. Podem apenas tê-la identificado como uma Revo e decidiram levá-la sob custódia ao invés de matá-la.

— Se o fizeram, então ela deve estar sendo levada para a Rocha, é para onde vão todos os Revos capturados pela Legião.

Tyfon se remexeu na cadeira, os ombros tensos.

— Se ela for levada para Tigris, teremos problemas.

— E o que vamos fazer? — perguntou Ryoma.

— Precisamos resgatá-la.

— Você sabe que isso é suicídio — disse Troua. — Não temos poder de fogo para invadir a Rocha, mesmo você não conseguiria fazê-lo. Eles têm sistemas de contenção de habilidades pós-humanas.

— Talvez eu possa lhes oferecer uma pequena ajuda, senhores — o Velho Galfre apareceu na porta.

— O que você sugere? — perguntou Marcos.

O Velho Galfre pôs sobre a mesa o volt que recebeu de Tyfon no outro dia, ao lado do cinzeiro: — Vocês vão precisar de mais alguns destes para entrar no Talião e recrutar a ajuda de que precisam. Certamente, já ouviram falar do homem que escapou da Rocha.

— Moreau — disse Tyfon.

— Se ele conseguiu escapar uma vez, pode fazê-lo de novo — concluiu o Velho Galfre.

Marcos e os outros se entreolharam.

Ryoma não sabia se aquele era um bom plano.

Tyfon com certeza sabia que aquele não era um bom plano, mas o colocaria em prática de qualquer maneira. O poder que Alexandra carregava era muito importante para ele, não apenas pela causa, mas também pelo que representava. Na passado, pertencera a alguém que Tyfon amou e ele jamais permitiria que se perdesse nas mãos erradas da Autocracia.


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