O Contista

Revolução 12. Festival de Grave

Revolução

O gigantesco armazém pulsava em um espetáculo de som e luzes.

Localizado em uma área mais afastada de Tarsila, na fronteira entre a Sol Poente e as paisagens desérticas de destroços e entulhos dos Planaltos, era um lugar onde os jovens se aglomeravam e não recebiam atenção do governo autocrata. Ali era mais fácil escapar à tirania da conturbada cidade onde viviam. Pessoas entravam e saíam, o tempo todo, em um ciclo interminável de diversão e desespero. Mesmo os mais descontraídos sabiam quão perigosa poderia ser uma noite de diversão em Tarsila. Algo sempre parecia errado. Mas ainda assim, todos iam e vinham sem deixar que as preocupações os impedisse de viverem suas vidas como queriam.

— Estou ansiosa para conhecer esses seus novos amigos, eles já chegaram? — Leona usava um vestido preto e despojado, uma jaqueta jeans e uma bota preta de cano longo com cadarços, que cobria até quase o joelho. Não parava de mexer nos cabelos.

— Eu disse, eles são a banda que vai tocar — a voz saindo mais rouca do que o normal. — Não sei se conseguiremos falar com eles antes do festival.

Estavam em uma fila enorme, cheia de pessoas esperando por um pouco de diversão despretensiosa e proibida. A fila andava devagar e, dali do lado de fora, era possível escutar o barulho pulsante que vinha de dentro.

— Ouvi falar que muitos destes espetáculos de grave vem sofrendo batidas da Legião ultimamente, você não fica preocupada de estarmos aqui? — Leona observava a quantidade de pessoas com expressão apreensiva. — Esse tipo de música é proibido pelas leis da Autocracia.

— Se quisermos escutar alguma coisa diferente de nossas próprias vozes ou da monotonia que a Autocracia nos obriga a escutar nas rádios, é exatamente aqui que devemos estar.

— Ainda estou surpresa com essa versão de você, mas confesso que estou gostando — Leona sorriu para a amiga.

Alexandra conhecia pouco sobre o grave que começava a despontar nas ruas de Tarsila em rivalidade ao enfado, o som imposto pela Autocracia, monótono, sem vocais, ritmos ou variações, projetado com o propósito de manter as mentes e os corações entorpecidos para os desígnios autocratas. Músicos rebeldes usavam o grave e a revolta para combater o autoritarismo que vigorava em Tarsila. Eram poetas das ruas, a consciência social do povo. Com estúdios clandestinos, gravavam extensos repertórios em fitas magnéticas que distribuíam às escondidas ou transmitiam na WWW através de sinais hackeados. Gravistas sempre tinham algo a dizer e sabiam disso. Quando não estavam desafiando as autoridades com músicas de protesto, estavam tocando em espetáculos ao vivo para levar as pessoas às ruas e mantê-las longe da televisão ou dos jogos mortais que o governador-geral gostava de promover na arena. Os gravistas gritavam por liberdade e expressão, e quase sempre terminavam açoitados em praça pública ou enforcados por violarem as leis autocratas. Nem essa perspectiva os desestimulava.

Alexandra queria experimentar o novo mundo que se abrira para ela nos últimos dias, conhecer o sentimento de rebeldia de um músico, o mesmo que inspirava pessoas como Amara, Ryoma, Leo e Tyfon. Por isso estava naquela fila, às altas horas da noite, esperando para entrar naquele armazém que tremia por dentro, de onde ecoava o tipo de som que desejava escutar.

Observava o movimento de pessoas ao redor, todas bastante adequadas ao clima do lugar, de visual agressivo, rasgado, quase chocante. Roupas escuras, jaquetas de couro, camisas largadas, calças surradas, botas, correntes, pulseiras com espinhos, casacos com capuzes, cabelos desgrenhados ou de penteados exóticos, piercings, tatuagens, tinha de tudo um pouco. Um grupo conversava aos berros, entre piadas, palavrões e gírias, os integrantes passavam uma garrafa de vodca de mão em mão e bebiam em longos goles. Quanto mais a garrafa esvaziava, mais o som das vozes aumentava. Outro grupo, sentados em caixotes de madeira, parecia menos agitado e se perdia em meio à fumaceira dos cigarros que seus membros compartilhavam.

Alguns poucos carros saíam, chegavam, estacionavam entre os montes de ferro-velho abandonado e latões de lixo espalhados pelo lugar. O terreno externo era bem grande. Em um canto, um casal se beijava com fervor, trocando carícias por pescoço, peito e membros, encostados na carcaça de um carro velho. Mais um pouco estariam dentro do carro e certamente dentro um do outro. Não eram os únicos. Outros casais aproveitam outros cantos, ou transitavam e bebiam entre si ou com amigos. Casais de todos os tipos, do sexo oposto, do mesmo sexo, e até mesmo um trio com dois homens e uma mulher que pareciam um só, tamanha era a afinidade que demonstravam na conversa, nos gestos, nos afagos.

Num reflexo involuntário, Alexandra olhou para si mesma.

Talvez eu não esteja tão no clima desse lugar quanto deveria.

Calça jeans surrada, um blusão de botão com estampa xadrez branca, vermelha e preta, e tênis; os cabelos negros presos em um rabo de cavalo atrás da cabeça. Enquanto esperava a fila andar, brincava com as mechas, enrolando-as entre os dedos. Notou que não era a única com cara de “primeira vez”. Era uma entre pelo menos uma dúzia de pessoas que se entregavam como novatas, tanto pelo visual quanto pelo leve brilho de incerteza no olhar.

Será que também pareço incerta?

Trocou um olhar com Leona e a amiga retribuiu cheia da confiança de costume; Alexandra se sentiu aliviada ao perceber que ter Leona ao seu lado sempre lhe inspirava.

— Oi, você está aqui! — a voz surgiu no meio da fila, saindo detrás das pessoas. Amara veio recebê-las.

Alexandra acenou.

— Está é uma das amigas que falei — ela apresentou Amara a Leona. — Ela toca na banda.

Leona a cumprimentou.

Amara cumprimentou de volta.

— Vocês não precisam ficar aqui, venham comigo — ela chamou, puxando Alexandra para fora da fila e levando-a com Leona em direção à entrada do armazém.

Quando estavam prestes a entrar, o homem que guardava a porta, com um corpo duas vezes maior do que elas três juntas, esticou o braço, impedindo-as de passar e fulminando-as de cima a baixo com o olhar.

— Ei! — chiou Amara. — Eu sou da banda e elas são minhas convidadas. Dá para você tirar o braço e nos deixar passar?

O homenzarrão quase se encolheu diante de Amara. Ela podia ser mais baixa, mas parecia crescer quando dava ordens. A atitude fez Alexandra pensar em Tyfon e em como os dois eram parecidos em temperamento. O segurança gesticulou para que entrassem. Elas entraram. O lugar fervilhava de gente. O caráter clandestino dos espetáculos musicais parecia atrair ainda mais gente do que os jogos mortais da arena. Quem não gostava de uma diversão proibida? Ali, as preocupações ficavam para trás.

Exatamente por isso que a música era proibida.

As canções cheias de agressividade e sarcasmo dos gravistas batiam de frente com a alienação social e a apatia, reverenciavam a liberdade individual. O grave conflitava com as leis autocratas. Para a Autocracia, o povo devia ser submisso. Qualquer expressão de liberdade tinha que ser expurgada. Como tudo o que sofria censura, o grave se tornou parte de uma cultura alternativa, do submundo. Crescera nos lugares onde as mãos ferrenhas do governo autocrata não alcançavam. O legado persistia com cantores, compositores e bandas que exaltavam a herança cultural desencadeada no mundo pelo lendário Músico.

Enquanto se misturavam as pessoas e tomavam seus lugares para assistir à apresentação, Amara se inclinou para Alexandra.

— Como está seu braço? — perguntou ela, quase gritando para fazer a voz audível em meio as vozes e ruídos do lugar.

Alexandra estendeu o braço, ainda enfaixado, apertou o punho e relaxou para demonstrar: — Ainda dói um pouco, mas está bem. — Ela não disse a Amara que a dor tinha atrapalhado seu sono durante a noite passada.

— Tyfon disse para você deixar os pontos por mais cinco dias e depois ele os removerá para você. Ou você pode ir até um médico e pedir que ele cuide disso.

Alexandra assentiu.

— Desculpa pela situação toda com os cachorros — Amara complementou. — Não concordamos com o “treinamento de choque” — ela fez sinal de aspas com os dedos —, mas era necessário.

— Tudo bem — Alexandra fez um gesto para esquecerem o caso. — Eu acho… bem, acho que eu esperava que algo assim acontecesse desde o começo, então não deveria ser uma surpresa.

— Como assim treinamento de choque? O que aconteceu? — Leona se intrometeu, uma ruga de preocupação surgindo em sua testa.

— Não é nada demais — disse Alexandra. — Depois do festival, eu explico melhor, tudo bem?

Leona estava começando a ficar intrigada, e incomodada, com tantos segredos. Depois do espetáculo, Alexandra decidiu que contaria tudo para ela, desde o Poder do Cavaleiro até o encontro com Tyfon e os cachorros. A amiga concordou em esperar.

— Apenas para que você saiba — Amara acrescentou. — Tyfon não é sempre tão severo. Ele passou por muita coisa ruim, por isso às vezes é uma pessoa difícil — Alexandra viu um brilho diferente no olhar dela.

— Você gosta dele — deixou escapar o comentário.

Amara ficou ruborizada, mas respondeu: — Eu faria qualquer coisa por ele.

— Ele está aqui?

— Está lá em cima — Amara apontou e depois voltou a olhar para Alexandra. — Fico feliz que esteja conosco, de verdade, mas agora eu tenho que ir. Vai começar dentro de alguns minutos.

— Vai lá, nos vemos mais tarde.

Amara desapareceu no meio do mar de pessoas.

O olhar de Alexandra se moveu até uma pequena sacada de madeira sustentada por andaime, que ficava na ala direita do armazém. Tyfon estava lá, debruçado sobre a grade, olhando para o palco. Durante alguns minutos, ela ficou parada, encarando-o. Quando ameaçou ir até ele, ouviu a voz rouca que veio do palco conclamando a plateia com carisma.

— Vamos começar! — gritou o vocalista, puxando os primeiros acordes e se preparando para a primeira música.

Olhando por cima do frenesi de pessoas, Alexandra pôde ver o palco semi-arena, nitidamente improvisado, com uma parafernália musical grandiosa, grandes caixas de som, luzes e holofotes coloridos que garantiam a atmosfera de espetáculo, ainda que fosse algo produzido de forma simplória. Era magnífico. A barulheira do lugar quase ensurdecia. Por um instante, sentiu-se perdida na multidão que dançava, bebia, fumava e se agitava. O ambiente era diferente de tudo o que ela conhecia.

No palco, os cinco jovens não muito mais velhos do que ela tocavam para a plateia alvoroçada. As canções eram pesadas, furiosas, conduzidas por um som altamente distorcido e, às vezes, seguidas por solos de guitarra prolongados. O vocalista, Marcos, se vestia de maneira antiquada e tinha um charme exótico. Era a representação do fascínio que a música poderia exercer. Alexandra finalmente pôde conhecê-lo, ainda que de longe. Troua e Amara, além de tocarem seus instrumentos e executarem acordes estrondosos no palco, faziam vocal de apoio para Marcos nos momentos de mais impacto, cantando versos junto com ele, ambos com finas hastes de microfones presos à orelha e contornando a bochecha até a boca.


Sou o fogo, sou o soldado

Sou o primeiro a pegar em armas

Estou disposto ao que a causa traz

Revolução!


É uma forma de lutar!


Não pode haver razão de culpa

Eu sei que ela está chegando

Consequências não podem negar

O que a gente faz?


Cada vibração da guitarra invadia o corpo como que por osmose, uma sensação que se espalhava e contagiava todos ao redor. Alguns apenas seguiam o ritmo, outros cantarolavam junto. Aquela era a razão de estarem ali, para se soltarem. Leona, ao lado, já balançava o corpo, pulava e socava o ar com os braços para o alto. Alexandra ficou contente ao perceber o entusiasmo crescendo na amiga.

A música variava. Eventualmente, assumia características mais lentas e harmoniosas. Outras vezes, era complementada com efeitos eletrônicos providenciados pelo sintetizador de Ryoma e por um computador ligado aos equipamentos que ele administrava habilmente. Entre uma canção e outra, o público batia palmas, assobiava, ovacionava os artistas no palco. A banda tinha algum renome. O vocalista recebia aplausos acalorados e gritos histéricos de meninos e meninas.

Leona se empolgou ao descobrir que o vocalista era Marcos Arcon. Ela disse ter ouvido falar sobre ele nas ruas; diziam que ele era filho do lendário Músico, e isso o fazia ainda mais idolatrado pelos amantes de música. Alexandra não se surpreendeu ao descobrir que um suposto filho do Músico liderava uma banda e fazia parte de um grupo de resistência contra Autocracia. Na sua cabeça, fez total sentido. O público gritava seu nome com vontade e ele devolvia com comentários, brincadeiras e interações extrovertidas. Era realmente divertido. Ele tinha uma espontaneidade que tudo no palco parecia puro improviso.

Alexandra nunca tinha se sentido daquela forma antes, não com aquela estranha intensidade.

Era… divertido.

Isso parece errado.

Mas bem lá no fundo, algo a incomodava.

— ESTÃO SE DIVERTINDO?! — Marcos segurava o microfone com as duas mãos, e era prontamente respondido pelas vozes inflamadas. — Estamos felizes por podermos usar nossa música para dar assistência a todo esse lixo. Porque é isso que somos. Músicos. Como o homem que nos permitiu conhecer a música. Estamos aqui para mostrar saídas contra aqueles que querem nos calar! A música é verdadeira, é a chama da vida — ele apertava o microfone com as mãos, a voz rouca elevando o tom e ecoando pela multidão. — A música é NOSSA RAIVA!!!

Gritos. Muitos gritos. Ovações acaloradas, em uníssono, todos gritando e replicando as palavras de Marcos. Quando deu por si, Alexandra também estava gritando e vibrando. A música era sua raiva. Ela se sentia livre como nunca antes.

— Nossa próxima música é sobre essa merda de mundo em que vivemos, sobre essa terra desolada de heroísmo perdido — Marcos fazia a voz sobrepujar os gritos acalorados, enquanto sinalizava com a mão para o resto da banda. — Com vocês, “Salve Um, Salve Todos”.

Marcos começou lentamente, com o som do baixo e da bateria a segui-lo. O ritmo cadenciado do início conduziu o público a acompanhá-lo com o corpo e os braços, e aumentou com um acorde estrondoso, produzindo uma batida mais pesada, mais rápida, mais agitada, que inspirava todos ali presentes a se moverem.


Eu estou perdido no limite

Estou sangrando sem parar

O limite bate a minha mente

Eu não posso escapar

Eu nem consigo descrever

O que me faz enlouquecer

Vai! E olhe para o meu fim

Porque eu não tenho nada a perder


Banho a forma da luz deste sol sem acreditar

A morte acorda esta nooooite


Ele soltava a voz com vigor. Rouca e perfeita.

A guitarra distorceu e potencializou eletronicamente e o som denso do baixo e da bateria acompanhavam seu vocal.

O cabelo loiro e os olhos azuis de Marcos chamavam a atenção; era uma aparência incomum nos Planaltos. Por um instante, Alexandra notou que o vocalista a encarava. Ela o encarou de volta, com uma mistura de espanto, nostalgia e fascinação. Seu corpo acompanhava e vibrava ao som da guitarra. Era como se a letra invadisse seus ouvidos e penetrasse a pele. Uma letra que trazia uma sensação perturbadora de familiaridade. Ela não conseguia deixar de escutar, de se balançar. Ela agitava a cabeça, mexia o tronco, as pernas e os braços, se deixava levar pelo ritmo da música.

Sentiu-se livre.

Isso é errado.

Isso é errado?

Marcos deixava claro por que o grave tinha sido proibido. Instigava a liberdade no coração das pessoas. A música passava sua mensagem na letra. Firme e pulsante. Ele continuava olhando para ela, como se fosse a única ali.


Pela alma de todos salvo um

Pela alma de um eu salvo todos mais

Eu jamais vou perder o que me faz

E hoje, eu vejo que…

Estou em paaaaz!


Eu estou gritando de novo

A raiva ruge aqui em mim

Eu estou mudando o fim

E o inferno quer dormir–





O som distorceu com um ruído agudo e parou.

Abafado por confusão e gritos e uma explosão.

Alexandra voltou a si, olhando para um lado e para o outro.

Homens de armas em punho surgiram em meio à multidão.

O que eu faço? O que eu faço?

Soldados da temida Legião, trajados com pesadas fardas militares brancas e placas de kevlar revestidas de aço no peitoral, ombros, braços e pernas. Capacetes brancos, também de kevlar e fibra de carbono reforçada com visores escuros, escondiam suas identidades, tornando a Legião uma massa vazia que sugava o calor emocional por onde passava. Empunhavam os poderosos ciberfuzis AKR-94 das forças militares da Autocracia.

Leona agarrou Alexandra e gritou: — CORRE! — As duas correram, esbarrando entre as pessoas, lutando para manter o equilíbrio e não caírem no meio do empurra-empurra. Levadas pela correria e confusão que tomou conta do armazém, acabaram se separando.

Amara surgiu de um borrão no meio da multidão, agarrando Alexandra pela manga do blusão.

— Vamos sair daqui, vou levar você!

— Não! — Alexandra puxou o braço. — Leona! Tire a Leona daqui. Eu posso me virar!

Amara hesitou, mordendo os lábios.

— Vai! Não deixe minha amiga morrer!

A velocista borrou e correu em direção à Leona. Alexandra olhou de um lado para o outro, procurando uma saída no meio da confusão de pessoas. Pensou que poderia ter tocado Amara para usar sua Celecinese. Amaldiçoou-se por não fazê-lo. Ainda não se acostumara totalmente ao fato de que era uma Revo e tinha superpoderes que poderia usar em situações de crise. Então, pensou que talvez tivesse sido melhor não usar os poderes de Amara, assim ela teria seus poderes em plena atividade para ajudar Leona a sair dali. Alexandra correu em busca de um lugar para escapar.

As pessoas corriam como baratas sem rumo, desesperadas para escapar do inferno que aquilo estava se tornando. Algumas se renderam e foram levadas para o lado de fora. Outras tentaram reagir e foram fuziladas impiedosamente, explodindo pólvora, cartuchos de bala e sangue aos litros para todo o lado. Os ciberfuzis eram a última geração em armas de fogo, com dois modos de disparo, rajada paralisante e balística, que podiam ser alternados deslizando-se o dedo por uma tela de toque na lateral e selecionando o símbolo do modo desejado. Os legionários quase não usavam o modo paralisante; disparar rajadas balísticas causava mais estragos.

Alexandra procurou Leona; não conseguiu achá-la. Correu para trás do palco, que já estava destruído pelos tiros das armas autocratas, com marcas chamuscadas e focos de incêndio. Procurou também os músicos da banda. Não estavam mais lá. Desapareceram no meio do caos. Ficou apavorada. Não sabia como escapar daquilo.

Ao longe, um homem gritava por um megafone, exigindo que os responsáveis por aquela infâmia aparecessem ou mais pessoas morreriam. Ele ordenava que todos os Revos se apresentassem para avaliação, e aqueles que se recusassem e fossem pegos, sofreriam as consequências pela rebeldia. Os que resistiam eram alvejados. As mortes continuavam. O que era para ser diversão de repente tinha se tornado um campo de extermínio repleto de cadáveres. Alexandra sabia que se fosse pega estaria condenada.

Não entendeu o porquê daquela reação extrema da Legião. Mas logo se lembrou que, mesmo longe do centro urbano, ainda estava em Tarsila. O Marechal Tigris mandava e desmandava com mãos de ferro, e quando furioso, encarava as transgressões à lei com violência e morte. A guerra era seu deleite e de todos que o seguiam. Alexandra via aumentar a pilha de corpos e temia que a amiga estivesse entre eles. Era o mais provável.

Jogou-se atrás das caixas de som do palco e esperou por alguns instantes, enquanto os legionários abriam caminho através das pessoas que iam sendo abatidas uma a uma. Rios de sangue se formaram pelo chão, escorrendo para várias direções. Alexandra percebeu que um deles escorria por uma fresta, entre os tapumes metálicos da parede do armazém e o chão de terra a uma distância de um metro de onde estava. Notou que era uma porta camuflada. Duvidou por um instante. Se estivesse errada, estaria na mira de um fuzil. De qualquer maneira, precisava tentar ou morreria. Um soldado se aproximava de sua posição. Mas ela não podia simplesmente sair. Precisava antes de uma distração.

Agarrou um cadáver caído próximo a seus pés e puxou-o para cima de seu corpo. O cheiro de sangue era insuportável. Lembrou-se de seu encontro com os cães e de como os evitou. Sentiu uma pontada de animação e adrenalina se misturando ao medo, seu coração batendo alucinado. Estava no limite da ansiedade.

Pensa, respira, age, pensa, respira, age, ou você vai morrer.

Por um instante, se sentiu uma soldado também.

Isso a incomodou bastante. Apesar de não estar acostumada com aquele tipo de situação, estava raciocinando rápido como nunca.

Aguardou imóvel. O cabelo estava ensopado de sangue, que escorria também pelas bochechas e pelo pescoço até chegar à camisa, já bastante molhada pelo suor e suja por causa da terra. Mesmo com todo o barulho, seus ouvidos conseguiam discernir vagamente os passos do inimigo que se aproximava, no espaço de quatro batidas rápidas do coração. Outros pareciam estar se posicionando para segui-lo.

Alexandra esperou até que o legionário atingisse seu campo de visão. A sombra se projetava à frente, anunciando a chegada, distorcida pelas luzes fluorescentes no armazém. Um, dois, três, quatro batidas. Quando aconteceu, fez um movimento meio desengonçado com os braços e empurrou o cadáver contra ele.

CORRE, MERDA, CORRE!

O homem se desequilibrou com o susto e caiu, com a arma disparando freneticamente para o alto. Seus companheiros perderam o foco da situação por alguns instantes, tempo suficiente para ela correr até a porta. Alexandra meteu a mão pelo vão entre a porta e o chão e puxou com violência. As mãos arrastaram na terra, causando arranhões dolorosos nos dedos e nos punhos. Ela ignorou os machucados e prosseguiu. Correu com toda a força e atravessou um corredor estreito construído com tábuas e placas de metal sobrepostas, que terminava numa porta também de metal com uma pequena janela de vidro no centro. Ainda podia sentir os soldados no seu encalço.

Quando alcançou a porta, usou os ombros para abri-la, chegando a um grande pátio que ficava nos fundos do armazém. A área era rodeada por uma cerca de grades de aço entrelaçado, que media duas vezes o seu tamanho. Dali, ela viu as várias pessoas que tentavam fugir pela parte da frente do armazém, e terminavam no chão cada vez que as armas dos legionários eram disparadas.

Preciso continuar, continue, respira, corre.

Atravessou o pátio correndo sob a luz fraca de um poste velho que já não tinha tanta potência. Jogou-se contra a cerca e tentou escalá-las. Hesitou quando escutou um grito que reconheceu de imediato.

Amara.

Olhou para a área da frente mais uma vez e viu a velocista após ser atingida por uma rajada paralisante de ciberfuzil, sendo arrastada pelos cabelos ruivos, de nariz sangrando e olhos inchados por lágrimas. Sem saber o que fazer, Alexandra hesitou mais uma vez.

Veio o estouro.

Um balaço atravessou sua omoplata, cuspindo um jato rasante de sangue do ombro esquerdo. Alexandra caiu e se chocou violentamente com o chão, provocando uma dor que ela não sabia se vinha da cratera no ombro ou das costelas se quebrando.

Uma sombra surgiu sobre ela.

Eu vou morrer!

O legionário sorria vitorioso por tê-la derrubado. Ele a apanhou pelos cabelos e arrastou-a armazém adentro, levando-a de volta até a parte frontal do lugar. Alexandra mal conseguia ficar de pé. O corpo ficava cada vez mais fraco por causa da perda de sangue. Estava prestes a entrar em choque. Ouviu quando o soldado se dirigiu ao líder da operação: — Tenente. O visor detectou algo estranho com essa aqui. Não conseguiu definir se é uma Revo ou não.

— Como assim? O sensor não erra — O tenente, que usava uma boina cinza ao invés do capacete, aproximou-se, tocou no visor enquanto olhava para Alexandra e a avaliou por alguns segundos.

— Inconclusivo. Isso não é possível — a voz dele saiu em um murmúrio de incredulidade.

Alexandra revirou os olhos de dor. Suas forças se esvaíam junto com o sangue que escorria do buraco no ombro. A visão começou a ficar turva, transformando o homem a sua frente em um borrão escuro. Ele a agarrou pelo queixo com força, quase deslocando seu maxilar.

— O que diabos é você? — o borrão perguntou apertando os dentes.

Ela não respondeu.

Ele largou-a e voltou-se para o soldado: — Vamos levá-la conosco, coloque-a no caminhão.

Os gritos de sofrimento das pessoas severamente atacadas naquele inferno continuavam. Ela discernia os sons muito mal. O pouco de lucidez que lhe restava foi direcionado para outro grito de Amara.

Alexandra queria fazer alguma coisa por ela, mas naquele estado, não era capaz nem de cuspir na cara de um daqueles desgraçados. Indignação de nada valia ante aqueles demônios. Elas estavam condenadas. Nenhuma das duas veria o dia seguinte. Alexandra não podia sequer pronunciar um pedido de desculpas audível para Amara por não ser capaz de ajudá-la. A boca estava dormente. Não sentia sequer o gosto do próprio sangue, que encharcava sua língua.

Logo veio uma pontada no coração ao ouvir voz do soldado que segurava Amara: — Tenente! O que eu faço com essa aberração? — Alexandra esperava que houvesse alguma compaixão. Mas a quem queria enganar? Compaixão não fazia parte do vocabulário da Legião quando se tratava de Revos dissidentes. O silêncio mordaz do tenente não deixou espaço para esperanças.

Alexandra foi arrastada para o caminhão como um saco de batatas, o corpo mole, os braços latejando. A voz de Amara foi ficando cada vez mais baixa e distante. Mesmo diante do cano de uma arma, Amara não implorou. Havia nervosismo e medo em seus gritos de raiva, mas ela não se rendeu, não se permitiu fraqueza diante daqueles homens. Amara, a velocista que Alexandra queria ter a oportunidade de conhecer melhor, gritou e gritou e gritou…

Foi silenciada por um estampido.

Acabou.

Alexandra nada mais ouviu. Deixou as lágrimas rolarem e as viu pingarem avermelhadas no chão. Foi o máximo que pôde fazer. A última coisa que sentiu foi seu corpo sendo arremessado dentro de um contêiner metálico e escuro. Braços e pernas foram aprisionados com algemas. Ela torceu para que Leona estivesse em segurança, longe daquele horror. Quando fecharam as portas do caminhão, Alexandra ouviu o ronco do motor e não soube o que mais poderia fazer. Não encontrou alternativas.

Apenas se encolheu e chorou.


Capítulo AnteriorPróximo Capítulo

Sobre Revolução

Mapa



Compartilhe este Post

Posts Relacionados



Inscreva-se no Canal

Resenhas Populares

Rogue One: Uma História de Star Wars

Rogue One: Uma História de Star Wars

It: A Coisa

It: A Coisa

Planeta dos Macacos: A Guerra

Planeta dos Macacos: A Guerra

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Animais Fantásticos e Onde Habitam

Raw

Raw

Siga no Google

Aperte o Play

Nível Épico em Imagens