O Contista

Revolução 11. Versão Errada da História

Revolução

Na manhã seguinte, Alexandra acordou, se preparou e saiu para correr. Decidiu mudar suas caminhadas noturnas para corridas matutinas, afinal, precisaria entrar em forma e preparar seu corpo para suportar fisicamente o impacto de ser uma Revo e ter superpoderes. A super-velocidade tinha provocado dores fenomenais em seus músculos quando ela finalmente relaxou o corpo na noite passada. Correr lhe pareceu uma boa ideia para começar a lidar com isso. Acordou um pouco mais cedo do seu horário regular, desculpou-se com o pai por não tomar café da manhã com ele, e saiu pela porta, usando o casaco branco com capuz que Ryoma lhe emprestara, ainda como forma de esconder o desastre de seu contato com os cães no dia anterior.

Havia algo de atraente em sair para correr antes da cidade ter acordado. Alexandra não costumava sair muito cedo, então foi uma mudança refrescante. Enquanto corria pelas ruas da Sol Poente, seguindo em direção às áreas mais espaçosas da comunidade, não viu carros ou pessoas na rua, exceto alguns poucos madrugadores que saíam para seus empregos. Eram seis da manhã, e o sol começava a despontar, de modo que algumas sombras ainda brigavam por espaço entre as casas e prédios. Chegou até o Cruzamento dos Mosquitos, que levava à área dos Blocos, por onde passou no dia anterior para chegar ao Ponto Negro, mas de lá, seguiu caminho em outra direção, até a estação de trem que usava todos os dias para ir ao Instituto. Era para onde voltaria dentro de uma hora quando fosse pegar o trem para seguir sua rotina diária. Deu meia volta ao avistar a estação e correu o caminho de volta. O ar estava frio o suficiente para que sua respiração formasse nuvens brancas de fumaça. Era pouco depois das sete quando Alexandra retornou ao quarteirão de casa.

Desacelerou um pouco, já sentindo os efeitos do cansaço por não estar acostumada à prática da corrida, o fôlego lhe escapando e as pernas doendo. Alexandra reduziu o ritmo; só pararia quando chegasse em casa. Na Sol Poente, as pessoas começavam a sair para o dia. A maioria dos estabelecimentos ainda estava fechada, embora algumas padarias e bares começassem a levantar suas portas metálicas. Ao virar a esquina para a sua rua, Alexandra se deparou com Leona e a cumprimentou com um sorriso quando se aproximou.

— Está fazendo corrida agora? — perguntou Leona.

— Melhorando meu desempenho para quando precisar fugir dos idiotas do Instituto — Alexandra se surpreendeu por conseguir fazer piada com a situação.

Leona se inclinou para perto de Alexandra, com um sobrancelha arqueada.

— Quem é você e o que fez com a minha amiga?

— Para de besteira — Alexandra quase gargalhou.

Então, a amiga percebeu seu braço, que não estava escondido dentro do casaco.

— O que foi isso? — um brilho de raiva passou pelos olhos de Leona, estendendo a mão para tocar, mas parando antes de fazê-lo. — Foram elas, não foram? — ela estremeceu, andou de um lado para o outro com os olhos no chão e os dentes trincados, socando a palma da mão, preparando-se para sair em perseguição e fazê-las pagar. — Dessa vez, eu vou acabar com a raça daquelas piranhas malditas!

Alexandra se afastou, apertando a mão no peito e segurando-a com a outra mão, pensando em algo para dizer. Demorou um instante para reagir. Ela entendeu a preocupação de Leona sobre a atadura em seu pulso. Alexandra não parara para pensar que o pulso enfaixado trazia lembranças dolorosas às pessoas que se preocupavam com ela.

— Calma, está tudo bem. Eu… bem… fui atacada por um cachorro quando estava voltando para casa ontem. Um homem deixou o bicho escapar da coleira e ele avançou em mim. Foi um acidente.

A expressão dela era de incredulidade.

— Isso é sério? Você não está me escondendo nada, não é?

— Está tudo bem, de verdade — Alexandra sorriu, tentando passar credibilidade. — Inclusive, fui convidada para ir a um festival de grave hoje à noite, você quer ir comigo?

Leona se surpreendeu, e suspirou.

— Você querendo sair à noite para se divertir?

— Olha, se não quiser ir, eu posso ir sozinha.

— Não, espera, claro que vou com você — ela relaxou, dobrando os braços e sacudindo as mãos, sorrindo. — Não perderia isso por nada.

— Você vai ao Instituto hoje? — perguntou Alexandra.

— Só à tarde. Preciso comprar umas coisas para minha mãe.

— Como ela está depois do que aconteceu no bar?

— Está bem, você sabe que ela é dura na queda. Mas acho que está um pouco mais cautelosa agora, dizem por aí que o tal do Escorpião continua na comunidade.

Alexandra estremeceu, sem responder, e desviou o assunto.

— Eu vou indo, tenho que me arrumar para o Instituto.

Com um aceno, começou a correr novamente. Leona acenou também. De volta para casa, enquanto se preparava para o Instituto, Alexandra sentiu uma palpitação pelo medo de encarar o que seria o primeiro dia de uma vida completamente diferente, um peso estranho se instalando sobre seu peito. Pensou em como seria lidar com as provocações de Janine e das outras meninas, sobre a angústia que sentiu na última vez, quando elas jogaram refrigerante e álcool sobre sua cabeça. Ela sentou na cama e deixou o corpo cair no colchão. Ficou deitada por vinte minutos, com lágrimas que escorreram de seus olhos antes mesmo que pudesse perceber que estava chorando. Esteve tão ocupada com todas as implicações de agora ser uma Revo, ter superpoderes e se unir a um grupo que lutava contra Autocracia, que não pensava havia muito tempo em seus problemas no Instituto. Um lampejo de dor no pulso a trouxe de volta para a realidade. Ela se sentiu nervosa, irritada, confusa. Esfregou as lágrimas, respirou fundo e se levantou da cama. Saiu de casa atrasada e, no meio do caminho, ao invés de ir até a estação de trem, decidiu pegar um ônibus.

Chegou mais tarde no Instituto. Ainda teria um longo dia para suportar antes de a noite chegar e ela ter a chance de ir ao festival de grave dos Filhos da Puta. Percebeu que estava ansiosa para reencontrá-los. Desejava experimentar de novo aquela pequena sensação de pertencimento que sentiu quando os encontrou para o “treinamento”, mesmo depois de ser obrigada a enfrentar dois cachorros ferozes (que depois de tudo, acabaram se revelando amigáveis também). Era difícil passar um dia inteiro dentro de uma sala de aula, com a sensação constante de estar sendo observada por Janine e a certeza de que todos os professores e responsáveis pelo Instituto viravam descaradamente as costas para ela quando estava sendo intimidada, apenas porque Janine era alguém importante demais para ser questionada dentro daquele mundinho escolar. Alexandra se sentiu sugada, estafada com o passar das horas, amedrontada pelo conflito de pensar que poderia usar seus novos poderes para resolver a situação e a consciência de que não deveria fazê-lo.

Lembrou-se do incidente em abril, quando teve de passar uma semana sob observação psiquiátrica no hospital por suspeita de suicídio, um mal-entendido provocado por uma brincadeira desprezível. O que aconteceu foi que Regina entrou enquanto Alexandra estava no banheiro, agarrou-a de surpresa pelo braço e cortou pouco acima do pulso com um canivete. Alexandra caiu com o susto, o corte jorrando sangue no piso do banheiro, e quando se levantou, partiu para cima dela, tentando socá-la. Enfurecida, não viu que Regina estava acompanhada. Penola surgiu de repente e a empurrou, jogando-a no chão novamente. Regina se abaixou, agarrou o outro braço de Alexandra e cortou-o da mesma forma com o canivete. Enquanto gritava de dor, e derramava lágrimas que gotejavam nas poças de sangue no chão, Alexandra viu Janine observando da porta do banheiro, os olhos incertos, as mãos trêmulas, mas ainda assim, condescendente com o que Regina e Penola estavam fazendo. Não participou ativamente, mas também não tomou qualquer atitude para evitar.

— Nunca mais volte a este Instituto, quero que suma daqui de uma vez por todas, sua aberração! — Regina sorriu quando cuspiu as palavras sobre Alexandra.

Penola cantarolou:

Alexa, Alexa, teve medo,

cortou os pulsos, se jogou no chão

Alexa, Alexa, tentou se matar, caída no banheiro,

não aguentou a pressão

As três se foram, deixando Alexandra para trás, caída no banheiro com os braços sangrando como se tivesse tentado se matar. Alexandra não conseguia entender o porquê de tanto ódio. Não sabia o que tinha feito de errado para irritá-las tão profundamente. Mas não desistiria, jamais desistiria depois de tudo o que batalhou para estudar naquele lugar.

Na época, como em várias ocasiões, Leona ameaçou partir para a briga com Janine e as outras por causa das agressões, mas não o fez. Não o fazia, na verdade, porque Alexandra não permitia e sempre a segurava. Se Leona fizesse qualquer coisa contra as garotas, poderia se envolver em problemas e até mesmo ser expulsa do Instituto. Leona também lutara para estudar lá. As duas o fizeram juntas, e Alexandra jamais permitiria que todo o esforço delas fosse por água abaixo por causa de um bando de garotas vis. Foi difícil para Alexandra voltar ao Instituto depois daquilo, com a fama de que havia tentado se suicidar, a musiquinha inventada por Penola, o burburinho e as conversas pelos cantos dos alunos que tinham ouvido falar na versão errada da história, o peso da preocupação do pai que também acreditava na versão errada da história. Ela poderia ter contado a verdade ao pai, mas preferiu não fazê-lo. A única que sabia a verdade era Leona, e o apoio da amiga foi decisivo para que Alexandra não jogasse a toalha e desistisse de tudo. Ainda assim, cada dia de aula, era um suplício.

A aula de tecnologias de informação da Senhorita Anjelin era logo após o horário de almoço, então Alexandra aproveitou para ficar no laboratório e comer por lá, sentada entre os computadores, esperando pela hora em que a aula começaria. Isso a deixou fora do radar de Janine e suas asseclas. Os noventa minutos de aula que se seguiram foram mais fáceis de suportar sem ter encontrado as três ao longo da manhã. Quando a aula acabou, enquanto Alexandra passava pelo corredor, viu Penola e Regina conversando com três garotas na entrada do banheiro feminino onde a tinham atacado com o canivete em abril. Dois garotos estavam junto com elas, esperando que terminassem o que iriam fazer no banheiro. Quando viram Alexandra, Penola sussurrou alguma coisa no ouvido de Regina e as duas riram. Penola fez um beicinho com a boca, desenhando com a ponta do dedo uma linha do canto de seus olhos através da bochecha, simulando uma lágrima. Regina sacudiu o dedo indicador na frente do pulso. Uma das outras garotas percebeu e riu. Alexandra sentiu as bochechas queimarem pela humilhação. Penola deu-lhe um último sorriso de escárnio e se virou para entrar no banheiro junto com as outras.

Alexandra apertou as alças da mochila com as mãos e seguiu seu caminho. Encontrou-se com Leona, com quem passou algum tempo antes de ir embora. As duas se separaram com a promessa de que se encontrariam mais tarde para ir ao festival de música. Alexandra contou a Leona que conhecera alguns novos amigos, que eram membros da banda que iria tocar, e disse que apresentaria a melhor amiga a eles. Leona pareceu empolgada com a perspectiva de conhecer novos amigos de Alexandra. Despediram-se e, sentindo-se um pouco mais aliviada pelo fim das aulas do dia, Alexandra pegou o trem de volta para casa.


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