O Contista

Revolução 10. Treinamento de Choque

Revolução

Quando concordou em se juntar à Tyfon, Alexandra se sentiu satisfeita consigo mesma de uma forma instintiva. Ryoma os guiou, dizendo que o lugar para onde iriam estava à dois quarteirões de distância dentro de complexo de prédios de hospitais abandonados.

Caminharam mais profundamente na área do Ponto Negro, Ryoma, Amara, Leo e Alexandra, juntos como um grupo. Enquanto Alexandra vivia na periferia por toda a vida, ela nunca tinha estado realmente nas áreas que davam reputação ruim à Sol Poente, como era o caso do Ponto Negro.

O lugar passava a impressão de uma cidade fantasma, esvaziada após ter sofrido com a guerra ou algum desastre que forçou as pessoas a abandoná-la. A grama e as ervas daninhas cresciam entre a terra úmida na calçada, a estrada tinha buracos e os edifícios eram todos desbotados, de pintura descascada, argamassa rachada e metal enferrujado. A sujeira cinzenta dos edifícios contrastava com os salpicos de graffiti em cores vivas pelos muros ao redor. Pichações se misturavam às artes coloridas com frases de protesto contra a Autocracia. Os Revos eram insultados e hostilizados com inscrições de “Fora Aberrações” ou “Morram Aberrações” que escorriam como sangue pintado em fachadas e paredes. A palavra “Aberração” aparecia dezenas de vezes, sempre escrita com tinta vermelha. À medida que passaram o que antes era uma entrada principal para veículos médicos, ambulâncias e caminhões, Alexandra viu cabos de energia cortados, soltos, descascados, em meio a emaranhados de fios que seguiam por direções aleatórias e se estendiam para todos os lados do Ponto Negro. Em um ponto, as ervas daninhas haviam se alastrado pela maior parte das extremidades das construções, apenas para murchar e morrer em algum momento nas paredes, formando uma bagunça de plantas pardas, mortas e penduradas.

Passaram por algumas pessoas pelo caminho, uma senhora sem-teto com uma bolsa imensa arrastando um carrinho de mercado repleto de parafernália e um velho homem sem camisa com uma barba branca quase no umbigo, coletando garrafas e latas de um lixo. O lugar não era tão fantasmagórico, afinal de contas. Um artista de vinte e poucos anos estava com a namorada, ambos sentados na calçada com pinturas apoiadas em torno deles. A garota acenou para Amara enquanto eles caminhavam, e Amara acenou de volta. Alexandra se surpreendeu com isso. Mas, ao mesmo tempo, se deu conta de que, para as pessoas que viviam naquela zona marginalizada da cidade, Tyfon e seus companheiros realmente eram vistos como heróis, ou algo parecido.

Chegaram a um prédio de tijolos vermelhos com uma enorme porta de metal deslizante fechada por correntes enferrujadas presas a roldanas. O prédio em si era grande, esticando-se por quase metade do quarteirão, com dois andares de altura. Ryoma os guiou para entrarem por uma pequena porta do lado do prédio, em vez da porta maior e enferrujada. O interior era escuro, iluminado apenas por fileiras de janelas empoeiradas perto do teto. Alexandra pôde distinguir o que havia sido máquinas maciças cobertas por lençóis e uma série de equipamentos industriais abandonados.

— Vamos! — Ryoma chamou quando percebeu que Alexandra estava ficando para trás. Ele estava na metade de uma escada em espiral na esquina de um corredor à frente. Amara e Leo já tinham subido. Alexandra seguiu para a escada e subiu atrás dele.

Depois de ver a desolação do primeiro andar, chegou a um segundo andar soturno, mergulhado na penumbra por causa das janelas cobertas por pedaços de madeira pregados nas paredes de tijolos vermelhos. O teto era formado por um esqueleto de vigas de metal por onde se podia ver o telhado de amianto, sustentado por pilastras de concreto. O espaço vazio, sem máquinas ou equipamentos abandonados, era estranhamente claustrofóbico.

— O que viemos fazer aqui? — perguntou Alexandra.

Eles não tiveram a chance de responder. Ela ouviu o ladrar no andar de baixo. Seus batimentos cardíacos aceleraram imediatamente e, no susto, Alexandra se afastou quatro passos da escada, apenas para ser surpreendida por dois Dobermanns imensos que surgiram rosnando e babando, avançando com suas bocarras raivosas abertas contra ela. Alexandra tentou correr, mas os dentes dos cães brilharam e bateram em seus braços quando ela os cruzou para se proteger. Foi por pouco que não perdeu o equilíbrio. Com um grunhido, ela tentou entender: — O que… o que… acontecendo? — As palavras falharam quando ela correu pelo segundo andar vazio para tentar escapar da fúria dos cães ferozes.

Amara e Ryoma observavam sem esboçar qualquer reação.

Leo parecia menos certo do que estava acontecendo, e mordia o lábio cada vez que um cão avançava atrás de Alexandra.

O maior dos Dobermanns, preto e com cauda, agarrou o pulso Alexandra com suas mandíbulas. Os joelhos dela quase se curvaram em resposta à dor, o que só piorou quando abruptamente o cão inclinou a cabeça para um lado e puxou o braço dela junto com ele. O cão se sacudiu furiosamente. Alexandra caiu e, num instante, o outro cão estava em cima dela. O Dobermann menor, marrom e sem cauda, começou a bater e pisar no rosto de Alexandra, ocasionalmente pegando o cabelo que pendia na frente do rosto e puxando-o. O cão maior largou o pulso e começou a cortá-la com as garras, movendo a mandíbula babosa, tentando encontrar um lugar nas pernas, no corpo ou nas costas em que poderia cravar os dentes. Alexandra gritou entredentes contra a dor e tentava pensar em algo que pudesse fazer, algo melhor do que ficar em posição fetal tentando proteger braços, pernas e rosto.

— O que… estão fazendo… socorro… — Alexandra guinchou um pedido de ajuda.

— Você precisa dar um jeito, Alexandra, precisa fazer isso sozinha — ela ouviu Leo gritar. E logo depois, Amara deu uma cotovelada no braço dele, em reprimenda pelo conselho.

— Tyfon disse que ela tem que se virar — Amara sussurrou, mas não baixo o bastante para que Alexandra não pudesse ouvi-la.

Um dente ou uma garra arranhavam a orelha dela. Isso a assustou de tal maneira que a fez gritar. Alexandra gritou como nunca antes.

Apenas um segundo ou dois, um período de tempo muito mais longo do que parecia quando dois cachorros a estavam destruindo, ela se lembrou da noite no Centro, quando resgatou Leo desacordado e foi perseguida pelo Biomak. Lembrou-se de ser salva do robô por Amara, a velocista, uma Revo com poder de super-velocidade. Alexandra agora era uma Revo também, mas não possuía super-velocidade. Ao contrário, possuía qualquer superpoder que estivesse ao seu alcance. Enquanto gritava, sacudiu os braços e as pernas na tentativa de se desvencilhar dos cães. Eles eram mais fortes e mais rápidos do que ela. Mas Alexandra era magra e usou isso a seu favor. Os cães continuaram avançando com garras e dentes, tentando mantê-la presa no chão. Alexandra se debateu e se inclinou, até que os cães soltaram seu braço e seu cabelo. Ela girou para trás em uma cambalhota na hora que o Dobermann voltou para mordê-la, os dentes se fechando na manga de sua camisa e rasgando-a com o puxão. Alexandra esquivou, se levantou e correu na direção de Amara, com os olhos vidrados nela de tal forma que ela se assustou e não conseguiu sair do caminho.

Alexandra pulou e a agarrou com as duas mãos nas bochechas, deixando que a energia fluísse entre as duas e fizesse uma troca. Alexandra sentiu sua cinese expandir em sua pele, e a cinese de Amara, estimulada pela manifestação abrupta do Poder do Cavaleiro, se expandiu pelas pernas dela, brotando debaixo da saia pelas coxas e percorrendo toda a pele até os tornozelos. Veios azulados, quase negros, surgiram nas bochechas de Amara a partir dos dedos de Alexandra, e o conhecimento da super-velocidade lhe foi passado através de seus braços, entranhando-se em sua mente e açoitando seus sentidos. Celecinese. Era o poder de Amara. Alexandra soltou a velocista, que perdeu a força nas pernas e caiu sentada de joelhos, atordoada, lutando para não perder a consciência.

Alexandra respirou fundo, olhou para os cachorros que vinham em sua direção e, quando pensou em correr, já estava do outro lado do andar, em questão de segundos. Os cães latiram, rosnaram, e correram com todo o vigor de seus músculos para tentar alcançá-la. Alexandra correu e borrou, mudando de posição a uma velocidade tão grande que não conseguiu frear a tempo, chocando-se com uma parede lateral que rachou pelo impacto. A dor no braço a fez gritar. Os cães mudaram de direção e continuaram a perseguição, juntos, ladrando de raiva. Alexandra inspirou e expirou, concentrando-se no conhecimento que adquirira junto com o poder. Ela sabia como usar a super-velocidade tanto quanto Amara. O Poder do Cavaleiro era, de fato, uma arma impressionante. Mais uma vez, Alexandra pensou e correu, borrou, agitou o ar com sua velocidade, consciente de cada passo, cada movimento, desviando das pilastras e dos cães, freando e mudando de direção, de posição, confundindo os cães até que começassem a ficar exaustos. Quando os viu desacelerar, com as grandes línguas para fora, parou de correr.

Alexandra se aproximou devagar e, cansados, os cães se inclinaram e deitaram sobre as patas no chão, os peitos inflando e murchando pela respiração apressada enquanto as línguas balançavam e babavam para fora das bocarras, agora não tão agressivas como antes. Daquela maneira, os Dobermanns pareciam inofensivos. Eram até bonitinhos. Alexandra achou que deveria acabar com aquela ira, acalmar os ânimos, dos cachorros e os seus. Ela se ajoelhou e esticou a mão discretamente, olhando os cães nos olhos, demonstrando não ser uma inimiga. Os Dobermanns abaixaram a cabeça como se estivessem permitindo sua aproximação. Alexandra os acariciou, um de cada vez, com a mão que não estava ensanguentada. Os dedos da mão direita estavam pingando gotas vermelhas no chão. Foi quando olhou por cima do ombro para Amara e notou as marcas borradas de dedos vermelhos na bochecha esquerda dela. Amara a olhava com surpresa.

Alexandra ouviu o barulho de palmas vindo da escada espiral. Com um assobio, os cães se levantaram e recuaram abruptamente na direção de Tyfon, que apareceu saindo da escadaria. Leo se aproximou e a apoiou para que ficasse de pé. Ela tremia como uma folha. Uma das mãos dele agarrou o antebraço dela, tanto para escorá-la quanto para ajudar com a lesão provocada pela mordida no pulso. Alexandra tinha lágrimas nos cantos dos olhos e apertava os dentes com tanta força que o queixo doía. No lado oposto da sala, Ryoma estava esfregando a parte de trás de uma das mãos. Os dois cães sentaram em linha, ao lado da saída da escada por onde Tyfon apareceu, com Amara atônita ao lado.

— QUE MERDA FOI ESSA? — Alexandra gritou, perdendo quaisquer traços de ponderação ou polidez.

Tyfon não respondeu, nem esboçou reação, apenas andou na direção dela.

Alexandra respirou fundo. Então, falando devagar, de modo a não tropeçar nas palavras ou deixar tremor na voz, perguntou: — Por que diabos você fez isso comigo?

— Ei, Tyfon, você não acha que pegou pesado demais? — foi Leo quem falou.

Ele disse alguma outra coisa, mas Alexandra realmente não ouviu por causa do zumbido que seu poder produzia em seus ouvidos. Com os punhos cerrados, os dedos espremendo a palma a ponto do sangue escorrer ainda mais, ela percebeu que, como de costume, estava se forçando a relaxar. Como fez tantas vezes nos incidentes de bullying no Instituto, Alexandra procurou um motivo para justificar a situação. Era quase um reflexo involuntário. Quando Janine e suas amigas a atacavam, Alexandra sempre esperava um momento para se recompor e dizia a si mesma por que não podia ou não deveria retaliar.

Por alguns instantes, sentiu-se à deriva. Ao mesmo tempo em que percebeu que não conseguia encontrar um motivo para justificar a situação e recuar, Alexandra se libertou do apoio de Leo e, ainda de posse da Celecinese de Amara, borrou em direção à Tyfon. Tudo o que precisou foi um pensamento, e quando se deu conta, estava com as mãos na gola da camisa de Tyfon, da mesma forma que ele fizera com ela. Seu braço direito, mesmo machucado e ensanguentado, estava erguido, o punho cerrado pronto para socá-lo no rosto. Mas ela não o fez. Ofegante, hesitou. Tyfon a afastou com um safanão que a empurrou para trás.

— Nunca hesite em atacar um inimigo — disse Tyfon. — Pode ser a sua ruína.

Um espasmo de dor latejou pelo braço de Alexandra, começando no ponto em que o Dobermann a mordeu até o ombro.

— Acho que está bom, não está? — disse Leo para Tyfon. — Ela provou que pode ser uma de nós.

— Esse foi o treinamento? — retorquiu Alexandra.

— Seja bem-vinda, Alexandra Eco — disse Tyfon. — A partir de hoje, você está conosco.

Leo se aproximou, estendendo a mão e tentando ajudá-la novamente a se apoiar, mas Alexandra não permitiu. Esquivou o ombro e se desvencilhou.

— Alexandra? — perguntou Leo, confuso.

Ela olhou para ele, tossiu uma vez e depois olhou para os outros, Amara, Ryoma e Tyfon, antes de virar o olhar irritado para o chão.

Leo tentou mais uma vez:

— Alexandra, vamos. Eu prometo que…

— Não! — ela o interrompeu. — Foda-se! Vocês são loucos!

Leo se afastou.

— Vocês disseram que eu faria parte do grupo, mas nunca imaginei que tentariam me matar!

Leo e Tyfon começaram a falar ao mesmo tempo, mas Leo parou para permitir que o líder do bando falasse: — Se eu quisesse que os cães matassem você, eles teriam arrancado sua garganta antes que você pudesse gritar. Eu apenas ordenei que lhe ferissem. Eu queria ver como você reagiria, se estava apta a enfrentar o que nós precisamos enfrentar.

— VAI SE FODER! — Alexandra bufava.

— Os cães são nada perto de um Biomak ou um Revo à serviço da Autocracia. Você precisava saber com o que estamos lidando. É um caminho sem compaixão, e eu preciso que você tenha isso em mente quando estiver lutando ao nosso lado.

— Não vou lutar ao lado de vocês! Eu vou embora daqui!

Alexandra se dirigiu para a escada, passando por Tyfon, esbarrando com o ombro nele em sinal de protesto. Mas não prosseguiu quando Amara colocou-se na sua frente. Pela primeira vez, Amara não a olhava com desdém, e lhe encarava com um sorriso franco. Amara pousou as duas mãos nos ombros de Alexandra e pediu: — Não vá. Fique e verá que não somos sempre um bando de babacas.

Alexandra inspirou e seus ombros relaxaram.

Amara tentou novamente: — Desculpa pela forma como tratamos você, mas era preciso, todos nós passamos por isso. É o que nos faz resistir e continuar lutando por aquilo em que acreditamos. Não vá embora. Precisamos da sua ajuda.

As palavras de Amara foram um balde de água na cara de Alexandra, fazendo-a acordar do transe de raiva que estava sentindo. Ela retirou as mãos de Amara gentilmente de seus ombros e se virou para encarar Tyfon.

— Eu aceitei a proposta de vocês porque eu queria me afastar de idiotas como você — Alexandra disse para Tyfon. — Não vim até aqui para sofrer o mesmo tipo de agressões que sofro no Instituto. Se isso é um grupo de resistência, eu gostaria de sentir que não estou em uma turma de adolescentes rebeldes.

Leo começou a gargalhar, seguido por Amara, que tentou, mas não se conteve. Ryoma deu um riso alto: — Ela tem só 17 anos e já é mais madura do que você, Tyfon. Acho que nós é que vamos aprender uma coisa ou duas com ela.

Alexandra sentiu as bochechas queimarem pela vergonha, mas não vacilou, permaneceu firme, de pé, diante do líder do grupo, demonstrando que não estava de brincadeira. A dor em seu braço não dava trégua.

Tyfon se aproximou, sua expressão pareceu menos severa.

— Fique conosco, Alexandra. Por favor. Eu garanto que não vou fazê-la passar por algo assim de novo. Você está machucada, sangrando, suas roupas estão rasgadas — ele estendeu a mão para ela. — Vem comigo, eu vou fazer os primeiros socorros em você. Vamos levá-la ao Doutor Matias para ele cuidar de você e lhe arrumar roupas limpas.

Alexandra hesitou, olhou para o braço. Havia sangue em sua roupa, que estava cheia de rasgos.

— Tudo bem — ela suspirou, e depois olhou para Tyfon sentindo-se mais calma. — Então, eu quero saber o nome deles.

Ele levantou a sobrancelha.

— Os nomes dos cachorros, eu quero saber qual é.

Tyfon sorriu:

— Rômulo e Remo… eles são de Troua.

— Prazer em conhecê-los, Rômulo e Remo — Alexandra sorriu para os cachorros, que ganiram para ela.

— Ryoma, você pode pegar o kit de primeiros socorros? — pediu Tyfon. — Está no carro estacionado nos fundos do prédio.

Enquanto Ryoma fazia o que lhe foi pedido, Leo apoiou Alexandra pelo braço e ajudou a sentá-la no chão. Ela puxou os farrapos da manga da camisa, deixando o ferimento no braço visível para ser tratado. Passou os dedos sobre as costelas, que doíam, mas o dano não parecia sério. As roupas sofreram a maior parte dos danos. O ferimento no pulso era o pior, ainda que, para sua sorte, fosse superficial. Os dentes dos cães não tinham acertado um ponto vital, apesar do sangramento. Leo retirou a camisa, revelando o torso magricelo, e entregou a ela para que pusesse sobre o pulso enquanto Ryoma não retornava com o kit. Havia contusões, algumas áreas na pele com arranhões e um corte pequeno na orelha, o que seria mais difícil de esconder, mas Alexandra estava bastante segura de que poderia contornar o incidente para o pai com alguma explicação plausível.

— Você mandou bem — disse Leo, sentando-se de frente para ela.

Ryoma voltou com o kit de primeiros socorros e o entregou a Tyfon. Ele retirou dois comprimidos de analgésicos do kit e deu a Alexandra, insistindo para que ela os tomasse. Alexandra recusou com um abano de mão, sentindo a dor no braço, mas se mantendo firme. Nunca gostou de tomar remédios, e nunca sentiu que eles faziam uma diferença real contra qualquer dor.

— Você tem treinamento em primeiros socorros? — perguntou a Tyfon.

— Todos nós temos — Ryoma foi quem respondeu, com um tom de reclamação. — Ele nos fez aprender quando nos reunimos. Ele explora bastante nossa boa vontade, e a gente se machuca muito por isso. Então, prepare-se, você vai sofrer conosco agora, e provavelmente vai ter que aprender também.

— Uma vez, tivemos aula sobre primeiros socorros no Instituto — disse Alexandra. — Talvez eu ainda me lembre de uma coisa ou duas.

— Eu vou limpar e costurar se for necessário, está pronta? — perguntou Tyfon.

Alexandra concordou.

— Confesso que não imaginei que você fosse capaz de superar os cães como você superou — Ryoma se sentou ao lado de Leo enquanto observava o trabalho de Tyfon. Amara permaneceu de pé. A cinese nas pernas dela se retraiu até desaparecer novamente embaixo da saia jeans preta.

— Suponho que você não apostou dessa vez? — disparou Alexandra.

Ryoma se empertigou, surpreso.

Amara estalou os dedos: — Porra! Dei mole, podia ter apostado.

— Você também não acreditava nela — disse Leo.

A velocista se inclinou um pouco.

— Nesse caso, você teria ganhado, Leo, já que você acreditava nela — ela riu e ele ficou ruborizado, coçando a nuca. Leo olhou para Alexandra e piscou com um sorriso infantil nos lábios.

Enquanto Tyfon permanecia compenetrado em remendar o ferimento no pulso de Alexandra, ela aproveitou para quebrar um pouco o gelo e conhecer melhor o lugar onde estava se enfiando.

— Então, apenas Tyfon e Amara têm superpoderes?

— Sim, apenas nós dois — respondeu Amara. — Não é fácil encontrar Revos por aí. Os que não são aliados da Autocracia, são fugitivos da Autocracia ou criminosos.

— Além disso, Revos realmente poderosos são difíceis de se encontrar — Tyfon falou enquanto passava a agulha pela pele de Alexandra e puxava a linha para costurá-la. — Você talvez já tenha ouvido falar dos níveis de poder que a Autocracia usa para classificar os Revos.

— Classes Gama, Beta, Alfa e… ai! — Alexandra foi interrompida pela dor da agulha atravessando de mal jeito em sua pele.

Tyfon se desculpou com um aceno e concluiu: — E classe X, considerados os mais poderosos entre os Revos. Você provavelmente se encaixa na classe Alfa graças ao Poder do Cavaleiro. Só recomendo cuidado quando usá-lo em outros Revos.

Alexandra arregalou os olhos.

— Por quê?

— Revos de classe Gama e Beta podem perder seus poderes permanentemente se você roubá-los. Os demais têm força de vontade o bastante para resistir ao seu toque, a não ser que…

Ele hesitou, abaixando os olhos para a sutura e terminando de enrolar o pulso dela com bandagem.

— Acabou, está pronto.

Alexandra puxou o braço, acariciando o pulso.

— A não ser o quê? — ela perguntou. — Você não terminou.

— A não ser que você se torne habilidosa o bastante para tocar um Revo e roubá-lo sem que ele perceba. Mas para isso, vai precisar de muito treinamento.

— Como você sabe tanto sobre o Poder do Cavaleiro?

Tyfon desviou o olhar e se levantou, sem responder. Um silêncio constrangedor se instalou entre eles e todos os outros.

— Está na hora de irmos — ele mudou de assunto.

À medida que se apagavam os poucos fachos de luz, que entravam pelas frestas nas janelas cobertas por tábuas, a sala ficou muito mais escura. Alexandra se levantou num pulo, surpresa ao perceber que já era tão tarde.

— Que horas são? — perguntou.

Ryoma sacou o celular e olhou na tela.

— Doze para as seis.

— Você tem algum lugar onde precisa estar? — perguntou Leo.

— Em casa — respondeu Alexandra. — Já cheguei tarde na noite do tumulto no Centro, se chegar hoje também, meu pai vai me matar.

— Liga para ele — disse Amara.

— Acho melhor eu ir, está tarde.

— Sacanagem, eu pensei em pedir pizza — disse Leo, sorrindo.

— Desculpe — Alexandra se encolheu.

— Calma, estou brincando com você — Leo remexeu nos bolsos da calça e puxou um folheto na direção dela. — Já que você não pode ficar com a gente hoje, acho que você pode ir assistir a nossa apresentação amanhã.

Alexandra pegou o folheto, onde leu que uma banda convidava para um festival de música. Ela teve que rir quando leu o nome da banda.

— Filhos da Puta?

— É o nome da nossa banda — Leo inflou o peito, todo orgulhoso. — Eu sou o baterista, a Amara é baixista e o Ryoma aqui fica com o sintetizador. Marcos e Troua também fazem parte, você vai conhecê-los.

Ela se surpreendeu e olhou para Tyfon.

— Eu não sou da banda, não me olhe assim — ele dobrou os braços na defensiva, sacudindo as mãos em sinal de negação.

— Vem ver a gente amanhã — disse Amara.

— É bom aproveitar enquanto pode, Alexandra, porque teremos muito a fazer nos próximos dias.

— Eu posso levar uma amiga comigo? — Alexandra pensou em Leona.

— Pode levar quem quiser — disse Leo. — Até seu pai.

— Vou levar só a amiga mesmo — ela riu. — Agora eu preciso ir.

— Vamos, vou levá-la até sua casa.

Tyfon indicou a escada.

— Não precisa, posso voltar sozinha — Alexandra tentou recusar.

— Faço questão.

Ela aceitou e seguiu para a escada, desceu e saiu do prédio. Amara, Leo e Ryoma a seguiram. Tyfon desceu por último. Eles contornaram até os fundos, onde havia um carro estacionado ao lado de uma motocicleta. Alexandra não conseguiu evitar de pensar em Leona. Antes de irem, Ryoma se aproximou, retirou o casaco branco com capuz que usava e entregou a Alexandra.

— Você não pode ficar andando por aí com a roupa rasgada.

Alexandra hesitou, mas aceitou ao perceber que ele estava certo. Pegou o casaco e vestiu: — Obrigada.

— Cuida bem dele, ainda o quero de volta — ele sorriu.

Alexandra sorriu de volta, e entrou no carro.

Durante a viagem até em casa, trocaram poucas palavras. Tyfon a levou como prometera. Amara, Ryoma e Leo seguiram em outro carro e tomaram outro caminho. Alexandra ficou encolhida no banco do carona, abraçada à mochila, ainda incerta sobre como lidar com aquela situação. Estar do lado de um dos indivíduos mais procurados pelo a Autocracia, cuja fama o precedia, era um tanto quanto opressor. Mas na mesma medida em que ele agia com severidade e rispidez, ele parecia ser cordial e bem educado. Ela se esforçou para tentar entender suas motivações, por que fazia o que fazia, o que ele havia perdido para chegar ao ponto de se tornar o famigerado Escorpião. Perguntou-se se algum dia teria a chance de ver por que ele recebera aquela alcunha ou se sequer o entenderia.

Pertencer ao grupo de Tyfon significava que ela poderia descobrir mais sobre o estado das coisas no mundo e, quem sabe, descobrir mais sobre si mesma e sobre o poder que agora detinha. Além disso, sentiu uma estranha oportunidade para socializar com outras pessoas, coisa que não estava acostumada a fazer, mesmo que cada pontada de dor em seu braço a lembrasse de que estava se associando a um grupo que incluía potenciais sociopatas. Pelo menos, sentiu-se mais confortável na companhia daquelas pessoas, Amara, Ryoma, Leo e Tyfon, que a reconheceram e a trataram como uma igual, do que enfrentando o comportamento desagradável de Janine e suas amigas no Instituto. Alexandra se remexeu quando o carro se aproximou da rua onde morava, feliz por estar chegando em casa. O dia foi intenso, horrível para falar a verdade. Chegar em casa e relaxar seria bom.

Ela indicou a Tyfon o caminho a seguir, embora tivesse a sensação de que ele sabia aonde a estava levando. O que não foi uma surpresa, visto que ele conhecia muitas coisas sobre ela. Desde o momento quando Alexandra ajudou Leo e recebeu o Poder do Cavaleiro, ele certamente direcionou suas atenções para ela e a investigou. Alexandra engoliu seco, sentindo-se desconfortável novamente, um pouco oprimida pela presença e a influência que ele lançava ao redor. Mas ele apenas dirigiu o carro, sem fazer comentários, sem puxar assunto, os olhos atentos no caminho. Olhou para ela de relance algumas vezes, nada mais do que isso. Alexandra tinha muito a pensar e processar, então preferiu ficar quieta.

Tyfon estacionou o carro próximo à casa de Alexandra, mas não em frente à entrada, para não criar situações desnecessárias para ele ou para ela. Alexandra teve que reconhecer a sabedoria na atitude, já que não queria explicar ao pai porque estava chegando de carona com um homem que parecia ser uns dez anos mais velho do que ela. Despediu-se de Tyfon e saiu do carro, mas antes de fechar a porta, a pergunta veio naturalmente: — Você vai ao festival amanhã?

— Não perderia por nada, faz tempo que não os vejo tocar.

Ele sorriu como alguém que falava de verdadeiros amigos.

Alexandra se despediu, fechou a porta e seguiu para casa, colocando a mochila nas costas e enfiando as mãos dentro dos bolsos do casaco para esconder a mão enfaixada com o ferimento. Entrou em casa, fazendo o possível para não demonstrar preocupação ou apreensão. O pai estava na sala, esparramado no sofá com o controle na mão, assistindo à tevê. Sua mochila estava apoiada ao lado. Parecia ter acabado de chegar e tinha algumas rugas novas de cansaço na testa.

— Oi, pai — Alexandra disse quando fechou a porta, colocando a mão novamente no bolso do casaco. A mão ferida e enfaixada permanecia escondida.

Ele se inclinou no sofá para vê-la.

— Oi, filha, como foi o Instituto hoje? — o tom da voz soou preocupado, ainda que ele estivesse tentando disfarçar alguma preocupação.

— Tudo bem, e você, dia difícil?

— Um pouco, mas nada com que precise se preocupar agora.

Houve uma pausa, o pai avaliando-a com curiosidade.

— Não reconheço esse casaco, é seu? — ele perguntou, levantando-se do sofá e ficando de pé, de frente para ela.

Alexandra estremeceu. Nunca teria imaginado que o pai repararia em uma roupa sua. Então, se deu conta e sentiu-se momentaneamente envergonhada. Estava com um casaco branco, quase novo, tão limpo que quase brilhava. Ela costumava se vestir de preto, de vez em quando algumas cores menos chamativas, mas raramente usava roupas brancas. A última vez que vestiu algo branco foi quando estava no hospital.

— É emprestado, fiz alguns amigos novos hoje — não conseguiu pensar em mais nada para falar.

O pai franziu o cenho.

— Filha — ele deu um passo à frente, aproximando-se devagar, hesitante —, está tudo bem mesmo? Se alguém fez alguma coisa com você no Instituto, se você estiver com algum problema, me diga, por favor. Você sabe que pode contar comigo para qualquer coisa, não sabe?

Alexandra se surpreendeu, e lutou contra o desejo de desviar o olhar, mas se o fizesse, ele saberia que ela estava omitindo coisas e que algo estava errado. Mas ficou feliz por saber que o pai estava tentando protegê-la.

— Sério, pai, eu estou bem, só fiz alguns amigos novos, não é tão estranho assim, é? — Alexandra balançou o corpo com seu melhor sorriso, concentrando-se para manter as mãos nos bolsos.

Ele pareceu relaxar, sorrindo também.

— Como eles são?

— Parecem boas pessoas.

Ela mentiu.

Ainda com um sorriso descontraído e as mãos nos bolsos, subiu para o quarto, enquanto o pai voltava a se sentar para assistir à televisão.


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