O Contista

Revolução 09. Aposta

Revolução

Após tomar o café da manhã, quando Alexandra se preparava para sair de casa, Leona bateu à porta, esperando que fossem juntas para o Instituto. Alexandra ficou surpresa por ela estar indo pela manhã, mas declinou dizendo que ajudaria o pai em algumas tarefas antes de ir. O pai, contudo, saíra de casa para o trabalho fazia uma hora. Na verdade, Alexandra não iria para o Instituto. Estava se preparando para ir ao encontro do Escorpião. E não contou sobre seus planos para a amiga porque não queria envolvê-la desnecessariamente em algo potencialmente perigoso. Era melhor que Leona ficasse no escuro sobre os objetivos imediatos de Alexandra. Isso foi um problema. Porque também instalou uma timidez constrangedora entre as duas, mais pela própria Alexandra do que por Leona. O fato de estar omitindo verdades da melhor amiga criou uma situação estranha entre as duas. Alexandra queria contar tudo para ela, mas acreditava que ainda não era o momento adequado. Leona foi embora sem questionar as razões de Alexandra, apenas dizendo, da forma mais casual possível, apesar do constrangimento, para elas se encontrarem mais tarde. Alexandra se despediu sem deixar certezas.

Após a amiga sair, Alexandra esperou por uma meia hora antes de sair de casa. Foi até o Cruzamento dos Mosquitos e, dali, ainda mais para o leste da Sol Poente, atravessando a área dos Blocos e refazendo o caminho até o Ponto Negro. Estava de volta ao complexo de hospitais abandonado onde encontrou com o Escorpião pela primeira vez.

Quando entrou na área da clareira entre os prédios em ruínas, deparou-se com três pessoas. Uma delas era a velocista ruiva de antes. A outra era Leo. O terceiro, um garoto que devia ser apenas um pouco mais velho do que ela, Alexandra não conhecia. Não viu qualquer sinal do Escorpião. Os três vestiam roupas causais, como adolescentes comuns. Em outras circunstâncias, ela jamais os associaria a um grupo paramilitar dissidente. Isso lhe deu confiança o suficiente para continuar até eles.

A velocista, na noite do caos na cidade, usava uma roupa escura de aspecto militar. Aparentava ter pouco mais do que 20 anos, visivelmente mais velha do que Alexandra e os outros. Os cabelos ruivos estavam amarrados para trás em uma trança solta. Ela tinha um punhado de sardas sobre o nariz e uma expressão pouco amistosa como nas últimas vezes em que se encontraram. Usava uma blusa bege de manga comprida, saia jeans preta e carregava uma mochila nas costas. Alexandra se surpreendeu ao ver que, sob a claridade do dia, seus olhos azuis eram límpidos como as águas destes raros lagos naturais que se viam apenas em fotos ou na televisão.

O outro garoto, que ela não conhecia, tinha rosto triangular, olhos castanhos e puxados por sua descendência kurogani, cabelo meio desgrenhado, tatuagens nos dois braços e piercings no lábio inferior, no nariz e nas orelhas, usando um casaco branco com um capuz, jeans e tênis. Estava sentado sobre a carcaça da máquina de ressonância magnética desativada, com uma garrafa de refrigerante na mão. De pé, sem estar deitado e inconsciente, Leo era um pouco mais alto do que Alexandra, com pele morena e cabelo preto despenteado. O que mais chamava atenção nele eram os dentes avantajados. Esboçou um sorriso quando a viu chegar, os olhos grandes e expressivos observando Alexandra com o que parecia ser expectativa.

— E não é que ela veio? — a velocista esticou o braço com a mão aberta para o garoto kurogani. — Pode me pagar.

O olhar do garoto se estreitou por um segundo, e ele pescou no bolso um punhado de notas que entregou à ruiva.

— Vocês apostaram se eu apareceria? — disse Alexandra.

— Apostamos… e eu ganhei.

— Mais uma vez — o kurogani murmurou.

— Fico feliz por você ter aceitado — disse Leo, aproximando-se e esticando a mão. — Não tive a chance de agradecer por me salvar. Obrigado.

Alexandra apertou-lhe a mão com um sorriso. Ele a apertou com firmeza, sem sinal de hesitação ou timidez.

— É um prazer conhecê-lo numa situação menos dramática — Alexandra tentou desfazer um pouco da tensão.

Ele sorriu e soltaram as mãos.

— Eu sou Amara e o perdedor do meu lado é Ryoma — a velocista apresentou.

Ryoma acenou com um muxoxo.

— Vocês já sabem disso, mas em todo caso, meu nome é Alexandra. Prazer em conhecê-los. Pensei que o Escorpião estaria aqui.

Eles se entreolharam, com um sorriso torto nos lábios.

— Pode chamá-lo de Tyfon, não precisa ter medo dele — disse Amara. — Essa coisa de Escorpião é só para os outros, não chamamos ele assim entre a gente.

Alexandra esfregou o braço esquerdo, sentindo-se envergonhada.

— Ele não vem? — não conseguiu pensar em outra coisa para dizer.

— Tyfon está ocupado e pediu que viéssemos recebê-la — respondeu Leo.

— Se você está aqui, presumo que aceitou a nossa oferta — disse Ryoma.

— Sim, eu aceito.

Amara se aproximou, retirando a mochila e puxando de dentro dela um envelope: — Abra.

Alexandra o pegou. Pelo peso e pelo volume do conteúdo, imediatamente teve uma boa ideia do que era. Abriu.

— Dinheiro? — perguntou com a voz saindo com um suspiro, surpresa pela quantidade de notas, várias de 100, 50 e 10.

Amara explicou antes que Alexandra tivesse o valor total na cabeça: — Aí tem 1.250 orbos. Esta é sua primeira parcela no pagamento mensal ao qual você tem direito por trabalhar conosco, como uma de nós.

O olhar de Alexandra deslizou entre os três enquanto ela procurava a piada. Amara ainda tinha um sorriso cínico, mas Alexandra começou a acreditar que fosse uma expressão típica dela. Leo parecia mais sério. Ryoma estava apenas indiferente.

— 1.250 orbos por mês? É mais que o valor do salário que meu pai recebe pelo emprego dele.

— O que fazemos é perigoso e exige muito do nosso tempo, por isso, recebemos uma quantia por isso — disse Leo.

— E de onde vem esse dinheiro? — perguntou Alexandra.

Leo ameaçou responder, mas foi interrompido por Ryoma.

— Você não precisa saber disso agora. Na hora certa, se for o caso e Tyfon assim quiser, você saberá.

Alexandra sentiu vontade de se encolher e desistir de participar daquilo em circunstâncias tão estranhas, mas não o fez. Sabia que não poderia fazê-lo. No momento em que decidiu ajudar Leo e recebeu o Poder do Cavaleiro, ela deu um passo sem chance de retorno. E de alguma forma, como Leona lhe dissera antes, ela acreditava que poderia usar as habilidades que recebeu para fazer a coisa certa.

— Há algo mais que eu precise saber? — perguntou.

— Temos mais dois membros no grupo, Marcos e Troua — disse Amara. — Marcos está com Tyfon no momento e Troua não está aqui porque ele não estava de acordo com você entrar para a equipe.

— O que ele tem contra mim?

— Nada demais — disse Leo. — Na verdade, nós fizemos uma votação e ele votou contra. Mas Troua sempre vota contra novos integrantes, porque sempre acha que vai terminar em algo ruim ou numa potencial tragédia.

— Ele votou contra Amara quando ela entrou — disse Ryoma.

— Ele é um pessimista compulsivo — Amara revirou os olhos.

— Pense no lado positivo — continuou Leo. — Pelo menos, o resto de nós votou a seu favor.

— Não se preocupe com Troua, você terá a oportunidade de conhecê-lo — disse Ryoma.

— Na verdade, é bom para nós que você tenha aceitado, não só por ter o Poder do Cavaleiro, mas por que precisamos de poder de fogo — disse Leo. — O incidente do Centro na outra noite mostrou que é apenas questão de tempo antes que um de nós acabe preso ou morto. Enfrentar a Autocracia, especialmente depois que iniciaram os testes com os Biomaks, está cada vez mais difícil.

Pensar na possibilidade de ser presa ou morta não ajudou Alexandra a se manter firme em sua decisão.

Amara completou:

— Além disso, eles estão mobilizando os Revos de suas fileiras e pelo menos um terço de seus laboratórios estão dedicados à pesquisas que aumentem o poder de fogo autocrata.

— O Poder do Cavaleiro — Alexandra verbalizou o que passou pela cabeça de todos.

— Neste momento, eles estão procurando formas de replicar o processo para criar mais soros, e você certamente se tornará a pessoa mais procurada dos Planaltos agora que detém este poder.

— Não sei se sou a pessoa mais indicada para isso — disse Alexandra.

Ryoma coçou o nariz: — Muito bom trabalho, Amara. Agora nossa potencial nova integrante vai fugir para ter um ataque de pânico antes mesmo de começar o trabalho.

Leo se aproximou.

— Foi bastante corajosa quando me ajudou durante o tumulto, e eu soube que você estava na rua procurando ajuda para um amigo ferido. Você é exatamente o tipo de pessoa de que precisamos.

Alexandra apertou os lábios, com a sensação de que muitas questões ainda precisavam de respostas. Quem financiava as atividades destas pessoas? Eles eram os mocinhos ou os bandidos nesta história de enfrentar a Autocracia? Os rumores sempre atribuíam um teor místico ao Escorpião quando falavam dele, o que se refletia no fato de que ele e seus companheiros eram eficientes no que faziam. Mas por que eram tão eficazes? Alexandra pensou que poderia aprender algo participando daquele grupo. Independente do rumo que sua vida tomasse dali para frente, ela sabia que teria o bastante para se tornar uma Revo qualificada. E se, por alguma razão, eles se revelassem bandidos, aprenderia com eles a ter o poder necessário para combatê-los. Ela tinha muito a ganhar. Afinal de contas, ela seria uma super-heroína.

— Quando começamos o treinamento?

Alexandra os encarou com determinação.

Amara sorriu, dessa vez, sem tanto cinismo.

— Acompanhe-nos.

Ryoma ajeitou o casaco com capuz, passou por Alexandra e indicou o caminho que deveriam seguir a partir dali.


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