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Top of the Lake – Elisabeth Moss em três tempos

Coluna Top of the Lake Elisabeth Moss

Elizabeth Moss é realmente surpreendente. Em uma carreira relativamente curta, conseguiu estrelar três grandes séries que serão lembradas, cada uma à sua maneira, como um importante espaço para se discutir a condição da mulher. Mad Men, Handmaid’s Tale e Top of the Lake. Todas excelentes, com abordagens diferentes (drama, ficção científica, policial), e com uma peculiaridade: cada uma se passa em um tempo totalmente distinto da outra. Mad Men se passa nos anos 1950/1960, Handmaid’s Tale se passa num futuro despótico e Top of the Lake nos mostra o tempo contemporâneo. Seja um movimento planejado por Moss ou não, o fato é que sua presença nessas três obras permite fazer um belo apanhado sobre a situação da mulher no passado, no presente e no futuro. Mad Men e Handmaid’s Tale apresentam uma natureza um pouco mais rígida para as personagens de Moss devido a própria estrutura social do universo dessas séries. Se, em Mad Men, uma mulher teria muita dificuldade em competir no mercado de trabalho com os homens, em Handmaid’s Tale, as mulheres são enxergadas como meros objetos com funções biológicas. Passado e um futuro distópico bem representados.

Cabe à série Top of the Lake cuidar do presente. Com duas temporadas, sete episódios na primeira e seis episódios na segunda, média de 55 minutos por episódio, a primeira temporada dessa série policial foi realizada em 2013 e gira em torno da Detetive Robin Griffin (Moss) e seu retorno à sua terra natal, a Nova Zelândia. Porém, imediatamente, ela se depara com um caso que lhe chama a atenção: o desaparecimento de uma jovem menina grávida. A partir desse momento, começamos a entender melhor a personagem de Moss, sua identificação com o caso e o universo contemporâneo em que ela vive: um ambiente que trata com normalidade a cultura do estupro. Há vários personagens interessantes nessa primeira temporada, mas o destaque vai para GJ, vivida por Holly Hunter, uma líder espiritual que chega à cidade no mesmo momento do retorno da det. Griffin e que tem como missão amparar e receber mulheres vítimas de abusos.

À frente do seriado está a criadora, diretora e roteirista Jane Campion, realizadora de obras cinematográficas marcantes como O Piano (1993), Retratos de uma Mulher (1996), O Brilho de uma Paixão (2009), entre outros. O grande mérito de Campion é trabalhar o gênero policial, tradicionalmente centrado em personagens masculinos como protagonistas, com uma protagonista feminina, demonstrando o terreno perigoso em que toda mulher pode estar inserida ao participar de determinados ambientes de trabalho. Top of the Lake consegue ao mesmo tempo ser uma série policial eficiente e um manifesto contra uma cultura que menospreza a mulher. Campion consegue trazer sutileza para esses momentos, especialmente na segunda temporada, de subtítulo “China Girl”.

Após o sucesso da primeira temporada, inicialmente pensada como minissérie, e que teve sua estreia no Festival de Sundance em todas as suas sete horas de exibição, Top of the Lake consegue ser ainda melhor em sua segunda temporada, realizada anos depois, em 2017. Jane Campion constrói um elenco com grandes atores, trazendo o reforço para essa temporada de Nicole Kidman (Big Little Lies) e da ótima Gwendoline Christie, mais conhecida como a Capitã Phasma de Star Wars ou Brienne of Tarth de Game of Thrones. A personagem de Christie, aliás, apresenta um fascinante e bem realizado arco narrativo nessa segunda temporada, com Campion demonstrando um caso de assédio sexual contra essa personagem sendo feita de forma mais natural e naturalizada possível. Com precisão, Campion demonstra como tal processo é naturalizado em várias instâncias, pelo agressor e pelos seus colegas.

Novamente, como na primeira temporada, também temos o assassinato de uma jovem menina em circunstâncias estranhas, seu corpo, dentro de uma mala, é encontrado à beira de uma praia, após ser jogado pelas ondas e, novamente, a personagem de Moss se envolve em um caso de violência contra a mulher. Aqui sabemos um pouco mais de sua personagem, a detetive Griffin, que busca nessa temporada reatar contato com uma filha da qual foi obrigada a se separar. Mas nesse processo de reatar o contato com sua filha e de descobrir o assassino da jovem “China Girl”, os caminhos de todos os personagens se misturam.

Jane Campion construiu belamente uma trama policial e estabeleceu um universo em que podemos reconhecer como se dão os assédios contra a mulher. Top of the Lake é uma série especialmente feita para as mulheres se reconhecerem e descobrirem a sua força. E para os homens também assistirem e descobrirem como é importante dar voz às tantas mulheres que denunciam seus abusadores.



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