O Contista

Revolução 08. Leona

Revolução

Duas horas depois, Alexandra estava no Instituto, escutando a aula de matemática do Senhor Vitório e, mais uma vez, completamente distraída. Ela pegou o trem quando saiu do Ponto Negro e veio por todo o caminho olhando pela janela do vagão, o vidro refletindo sua expressão de quem tinha visto um fantasma. Essa era a razão para Alexandra não conseguir prestar atenção na aula de matemática.

Agora, era uma Revo.

Por causa de um momento inevitável, estava envolvida em algo grande, maior do que qualquer coisa que já estivera envolvida na vida. Seu coração palpitava pela perspectiva de trabalhar com uma organização encarada por muitas pessoas como “terrorista”, mas a estranha sensação de se tornar uma espécie de “super-heroína” soava empolgante. Alexandra sempre se perguntava por que os Revos não aproveitavam seus poderes extraordinários para fazer algo de bom. Por que se resignavam à condição de párias em uma sociedade que poderia se beneficiar com algum grau de evolução. Os Revos eram um passo adiante na evolução. A mão dela rascunhava desenhos e rabiscava palavras no caderno enquanto sua mente viaja por um mar de possibilidades. As fórmulas do Senhor Vitório não tiveram vez em seus pensamentos.

O sino de saída tocou, iniciando o corriqueiro ritual de ida para o almoço. O Senhor Vitório, diferente da Senhorita Lilian, não tentava ser amigo dos alunos; preocupava-se apenas em ensinar o que deveria ser ensinado e respondia brincadeiras ou comentários de maneira ríspida e, muitas vezes, monossilábica. Ele reservava as respostas mais elaboradas para as dúvidas sobre a matéria. Os alunos saíram enquanto ele arrumava as coisas sobre a mesa e organizava os livros em sua bolsa. Alexandra se despediu quando passou por ele.

— Você estava especialmente distraída hoje, Alexandra — ele disse.

— Eu sei, me desculpe, problemas em casa — ela parou para responder, ajeitando a mochila nas costas. Os demais alunos passaram por ela, conversando e fazendo piadas sobre qualquer coisa.

— Espero mais atenção na próxima aula.

— Sim, senhor, pode deixar, senhor.

Ele me liberou com um “Tenha um bom dia” e voltou a arrumar as coisas para sair também. Alexandra saiu da sala em direção ao banheiro do terceiro andar. O Senhor Vitório era carrancudo, mas educado. Existia pouca gente assim hoje em dia. Havia uma meia dúzia de garotas no banheiro quando ela chegou, o que obrigou-a a esperar até que uma cabine estivesse vaga. Enfiou as mãos nos bolsos enquanto esperava.

Assim que uma cabine ficou livre, Alexandra entrou e trancou a porta, inclinando-se para abrir o zíper da calça e sentando-se para aliviar um pouco a bexiga. Estava tão distraída com seus pensamentos que só percebeu a vontade de usar o banheiro quando a aula acabou.

Pouco depois de dar a descarga, o barulho de ir e vir das outras no banheiro começou a desaparecer. O silêncio mostrou que ela estava sozinha. Aproveitou a calmaria, sentou-se na tampa do vaso sanitário depois de fechá-la e pegou o almoço em uma marmita de vidro. Como frequentemente Alexandra tinha dificuldade para comer na hora do almoço, aprendeu a evitar comidas complexas ou líquidas. Optava por sanduíches, frutas e biscoitos. Começou pelo sanduíche de atum.

O almoço no banheiro era uma rotina. Em praticamente todos os dias do semestre, ela terminava seu almoço, fazia os deveres de casa e lia um livro até a hora do almoço terminar. Raramente tinha a companhia de Leona nesse horário. A amiga costumava matar aula de manhã para fazer as coisas dela, geralmente envolvendo trabalhos e serviços de mecânica, e chegava no Instituto apenas à tarde, depois do horário de almoço. O livro na mochila, que Alexandra ainda estava lendo, chamava-se “2931: O dia em que o Primórdio acabou”. Era um livro de história, que contava sobre a época da Invasão Dracma, quando a equipe com os Revos originais, o Primórdio, se tornou a Autocracia. Alexandra pretendia gastar o quanto pudesse na tarefa sobre os Revos da Senhorita Lilian enquanto lia. Ela o estava lendo para tentar entender um pouco mais da história por trás dos Revos e sua influência no mundo atual. Algumas coisas eram especialmente distantes de sua realidade, com explicações científicas complexas sobre as criaturas alienígenas conhecidas como Dracmas, o que às vezes tornava a leitura mais difícil e truncada. Eles eram um dos mistérios envolvendo a existência já cheia de mistérios dos Revos. Agora, com sua nova condição, a leitura era mais do que indicada para Alexandra.

Independente dos seus planos, mal deu tempo de terminar de comer o sanduíche. Quando estava se preparando para a maçã, a porta do banheiro bateu e o susto quase travou sua espinha. Com um suspiro, Alexandra ficou quieta e esperou que fossem embora. Havia uma razão para ela frequentemente almoçar no banheiro ao invés de ir para o refeitório comer com os outros alunos. Ela gostava de almoçar sozinha, sem barulheira, sem pessoas como Janine Burque por perto querendo sacaneá-la enquanto comia. O banheiro do terceiro andar era mais afastado do que os outros, então sempre tinha um movimento menor durante o horário.

Alexandra não conseguiu distinguir as vozes. O ruído da conversa foi suplantado por uma risadinha e o som de água das pias. Veio a batida na porta, que quase a fez saltar para cima do vaso sanitário. Não respondeu. Então, a pessoa do outro lado insistiu, batendo várias vezes na porta.

— Está ocupado! — ela respondeu, por fim.

— Alexa? — uma das garotas do lado de fora disse alegremente, então, em resposta a algo que outra garota sussurrou, acrescentou: — Sai daí, sua merda!

Alexandra se levantou abruptamente, deixando o pote da marmita cair no chão de azulejos. Saltou para a porta e a bloqueou com os braços, empurrando-a para que elas não abrissem à força. As desgraçadas não perdiam mesmo uma oportunidade de perturbá-la. Se não tivesse saído cedo ontem para a disputa de xadrez, provavelmente teria sido cuspida e chutada ou qualquer outra coisa que elas pudessem imaginar.

A porta não se moveu.

Ouviu ruídos das cabines ao lado, então um som acima de sua cabeça. Alexandra olhou para ver o que era. Algo caiu sobre ela, uma pilha de lixo e papel higiênico e nojeira. Gotas espirraram em seus olhos e escorreram para o nariz e a boca. Perdeu o equilíbrio esfregando o rosto e se afastou da porta, batendo com a perna no vaso sanitário. O cheiro azedo lhe deu náusea. Brigou para não colocar o pouco do sanduíche que comeu para fora.

Elas não pararam nisso. Alexandra conseguiu limpar os olhos a tempo de ver Penola e Regina se inclinando sobre o topo da cabine, cada uma delas com garrafas de plástico na mão. Ela cruzou os braços sobre a cabeça tentando se proteger e se inclinou quando despejaram o líquido das garrafas sobre ela. Uma era refrigerante. Na outra, sentiu o odor forte de bebida alcoólica. Escorreu pela parte de trás do pescoço, encharcando as roupas e o cabelo. Alexandra empurrou a porta e tentou sair, mas alguém do outro lado a estava segurando, apoiando o corpo contra a porta e impedindo que fosse aberta.

Seria bom ter super-força para arrombá-la.

Lembrou-se das palavras de Tyfon e pensou que se tocasse uma delas, talvez conseguisse uma habilidade útil para sair daquela situação. Alexandra não conseguiu alcançá-las com os líquidos sendo despejados sobre seus olhos. Se as garotas derramando refrigerante e álcool eram Penola e Regina, quem estava segurando a porta era Janine, a líder do bando. A raiva que sentiu a ajudou a empurrar a porta, o peso total do corpo batendo contra ela. Nada conseguiu, e os tênis escorregaram no chão molhado. Alexandra caiu de joelhos com um grunhido. Tossiu, sentindo um engasgo de raiva e frustração. Uma garrafa de plástico, agora vazia, caiu no chão. A outra bateu em seu ombro e rolou pela poça sob a divisória em direção à cabine do lado.

A porta se abriu e Alexandra olhou para as três. Janine, Regina e Penola. Onde Janine era carismática, pelo menos externamente, Regina e Penola eram típicas adolescentes grosseiras do ensino médio em busca de aprovação das mais populares. Fariam o que quer que a “líder carismática” lhes mandasse fazer. Em comum com Janine, cultivavam apenas a boa aparência. Não se preocupavam em ser sociáveis ou amistosas. Divertiam-se mais judiando das garotas mais fracas ou em uma confusão da qual saíssem impunes.

As três riam como se fosse a coisa mais engraçada do mundo, o som da diversão açoitando a autoestima de Alexandra com o que havia de pior no ser humano.

— Gostou do banho, sua aberração? — cuspiu Penola. — Achou que podia se esconder da gente aqui?

— O álcool é cortesia nossa, para você deixar de ser uma aberração escrota e virar gente! Da próxima vez, pode ser que tenhamos um isqueiro também — Regina sorria um riso maléfico.

Alexandra odiava o apelido de “Alexa”, sempre usado por Janine e seu bando como um diminutivo pejorativa de seu nome. Mas elas iam além, a chamavam de “aberração”, a forma como as pessoas normalmente se referiam aos Revos quando queriam inferiorizá-los por serem diferentes. Janine e as outras a chamavam assim para inferiorizá-la da mesma maneira. O maior poder das pessoas sem superpoderes era a palavra. Infelizmente, era mais comum que fosse usada com irresponsabilidade do que o contrário. Agora que Alexandra era também uma Revo, ser chamada de “aberração” a feriu como nunca antes, mesmo que aquelas meninas não soubessem de sua nova condição. Se soubessem, a vida se tornaria ainda pior.

Janine nada disse. Alexandra não quis prolongar aquele momento para além do necessário, então preferiu não provocá-las. Apenas ficou em silêncio esperando que terminassem. Elas foram embora, o sorriso cínico estampado em seus rostos vis.

Com cuidado, Alexandra se levantou e pegou a mochila, toda encharcada na poça no chão. Vê-la daquele jeito a fez trincar os dentes. O azul marinho da mochila estava coberto por manchas escuras. Ela puxou as tiras ao redor dos ombros e se aproximou da pia. A porta estava fechada, deixando-a novamente sozinha no banheiro. Olhou para si mesma no espelho, arranhada e com manchas escuras na pele. As roupas molhadas se agarravam aos ombros e ao torso. Alexandra ficou aliviada pelo hábito de usar a blusa preta de manga longa por baixo da camisa do uniforme. Agora, com as marcas da cinese, era mais do que necessário. E com a blusa por baixo, não precisaria ficar com a camisa toda molhada e manchada. Retirou o uniforme, ficando apenas com a blusa preta de manga longa. Gotas escorreram pelo nariz e caíram na pia. Alexandra lavou o que dava para lavar da pele e usou uma toalha de papel para secá-la.

Inspirou e expirou profundamente, tentando se acalmar.

Um grito involuntário de fúria e frustração escapou de seus lábios, e ela chutou o balde de plástico que estava embaixo da pia, derrubando o lixo dentro dele; o que só a deixou ainda mais furiosa porque teve que se agachar e catar o lixo de volta para dentro do balde.

Abriu a torneira e lavou novamente as mãos, olhando para a imagem fantasmagórica no espelho. Alexandra era apenas a sombra do que poderia ser e isso a frustrava profundamente. De que adiantava tudo o que passou para estar naquele colégio? Estudou e ralou feito uma condenada para passar nas provas de admissão e ganhar a bolsa para ter a oportunidade de estudar em uma boa instituição de ensino, porque as que existiam na Sol Poente não ofereciam condições favoráveis para prosperar na sociedade desigual em que vivia. Ela ainda participava das partidas de xadrez para ganhar algum dinheiro, ajudar em casa e pagar pelo transporte diário da Sol Poente até o Instituto, que ficava na área nobre chamada de Distrito das Luzes.

Mesmo depois de tudo, uma barreira invisível parecia afastá-la do mundo e das pessoas. E ela mesmo não se ajudava. Alexandra se esforçava para ser sociável, mas não era boa nisso. Seu cérebro não funcionava no ritmo das outras pessoas. Ela dificilmente sabia o que dizer em situações sociais. Nunca sequer tinha beijado (ou saído) com um garoto. Quando precisava interagir, apenas escondia o nervosismo e acatava o que os outros diziam. Foi assim que fez os poucos amigos que tinha na vida. Mas eles tinham seus próprios círculos de amizades ou suas próprias coisas e nem sempre estavam por perto quando ela precisava lidar com as crueldades de Janine, Regina e Penola.

— MERDA! — não gritou para alguém em particular, a voz ecoando no banheiro. — O que posso fazer? O que diabos posso fazer? — ela queria bater em algo, quebrar alguma coisa, retaliar contra a injustiça do mundo e daquelas desgraçadas.

Então, se deu conta de que agora tinha poderes pós-humanos. Alexandra poderia fazer alguma coisa para melhorar sua situação; ainda que não fosse uma atitude muito sábia usar quaisquer poderes que possuísse contra um bando de idiotas do Instituto. Seria tão fácil simplesmente surtar e bancar a super-vilã enlouquecida no Instituto. Apenas para dar àquelas três o que mereciam. Não apenas a elas. Outras garotas consideradas “populares”, e até mesmo alguns garotos, às vezes se juntavam para dar trotes casuais nos “excluídos” do colégio. Alexandra já enfrentara injúrias, xingamentos, e-mails desagradáveis, almoços desperdiçados, violência desmedida e agora o lixo virado sobre a sua cabeça.

Mas, infelizmente, ela sabia que, mesmo tendo superpoderes, não poderia usá-los para dar uma lição nas suas amiguinhas de Instituto. Ela seria pega e presa se as atacasse. A Autocracia cairia sobre Alexandra como uma avalanche. Ela não se importava realmente com estas consequências se pudesse vê-las sentir medo por apenas alguns minutos. Mas pensou em seu pai. A perspectiva de seu pai ver estas consequências nos noticiários, sua decepção e vergonha para com ela, realmente a assustava. Esta noção ajudou a lidar com a raiva e a frustração.

Ainda tremendo pela humilhação, Alexandra conseguiu se convencer a pegar a mochila e ir até o corredor. Foi para o pátio do Instituto, ignorando os olhares e as risadas de todos por onde passava. O frio do início da primavera agravou o desconforto pelas roupas encharcadas, fazendo-a tremer ainda mais. Leona estava chegando ao Instituto e, ao vê-la de longe, veio em sua direção.

— Ah, caralho, Janine de novo? — ela perguntou.

Alexandra deu de ombros, tentando não demonstrar a raiva que estava sentindo.

— Vamos sair daqui — disse Leona.

— Você acabou de chegar.

Ela deu de ombros, displicente.

— Não vou perder nada que já não tenha perdido. Vamos! — Leona deu meia-volta, sem parar de falar. — Ainda bem que vim de moto hoje e não de metrô… vou te levar em casa para você se trocar e depois a gente volta, quando você tiver esfriado a cabeça.

Não escondeu a raiva tão bem assim.

Alexandra seguiu atrás da amiga até a moto e subiu na garupa enquanto ela lhe entregava um capacete. Leona colocou o dela, ligou e saíram. De carro ou ônibus, levava cerca de duas horas e meia para percorrer a distância entre o Distrito das Luzes até a Sol Poente, devido ao trânsito caótico do Centro da cidade. De moto, o tempo de percurso reduzia, embora ainda fosse necessário contornar pelo Centro para chegar de uma área a outra. Antigamente, isso não seria necessário. Mas depois da Guerra da Conquista, muros foram erguidos e túneis que conectavam a Sol Poente ao Distrito das Luzes foram completamente fechados, isolando boa parte da favela do restante da cidade. Outra razão pela qual conseguir a bolsa no Instituto fazia tanta diferença. Era uma barreira superada para pessoas como Leona e Alexandra.

O estranho, perturbador, era sempre sentir como se isso fosse uma coisa ruim. Era viver com sentimentos de raiva nublando os pensamentos o tempo todo, a cada piada, a cada trote que Alexandra precisava encarar naquele Instituto.

Leona cortava o trânsito por entre as fileiras de carros parados uns atrás dos outros, virando em uma rua estreita para cortar caminho. Saindo da via principal do Centro, passaram por uma área mais afastada do caos urbano, onde os olhos da maioria das pessoas raramente enxergavam. Era uma área de ruas mais antigas, sem nome oficial. Casas, prédios e estabelecimentos comerciais ainda se recuperavam dos conflitos da noite anterior, mas por trás das consequências imediatas, não era difícil ver as consequências da realidade do dia a dia. Tarsila estava apodrecendo. Sem perceber, com um espasmo involuntário, a mão de Alexandra apertou Leona em um pedido silencioso para que ela parasse a moto. Com o susto, ela o fez, levantando o visor do capacete e se virando para olhar a amiga na garupa.

— O que foi? Tudo bem?

Alexandra levantou também o visor do capacete.

— Eu quero olhar — seus olhos percorrendo a paisagem ao redor.

Estavam paradas em uma interseção de ruas abaixo de um viaduto. A falta de luz se entranhava nos focos de fumaça que ainda se esgueiravam por causa da noite passada, envolvendo a paisagem em uma sombra cinzenta. Dezenas, talvez centenas, de moradores de rua se espalhavam em casebres, tendas e barracas improvisadas com panos, colchões, cordas e materiais diversos entre os pilares do viaduto. Um trançado de fios puxados de postes formava teias de aranha com bocais pendurados como moscas capturadas, alguns com lâmpadas acesas mesmo durante o dia, outros vazios ou com pedaços de vidro estourado. Viciados trocavam, compravam ou traficavam drogas ilícitas sentados nos cantos dos becos ou em esquinas para onde a maioria evitava olhar. Nas fachadas ao redor, outros colchões e mais pessoas maltratadas disputavam espaço com montes de papelão e lixo ou com latões em chamas usados como lareira.

— Às vezes passo por aqui, mas nunca parei realmente para olhar — murmurou Leona.

— Não sei se alguém para.

— É pior quando se presta atenção.

Alexandra se lembrou da noite anterior, então pensou nos Revos e na proposta do Escorpião.

— Se você tivesse poder para, não sei… mudar… talvez melhorar as coisas… você o usaria? — seus dedos apertaram a jaqueta preta de Leona. Ela sempre a usava quando saía de moto e estava com o couro desgastado.

— A Autocracia fala de crise e depressão como se fosse passado, mas as coisas estão piores do que nunca. Eles falam de curar a sociedade, mas o que fazem é aumentar uma ferida que não cicatriza. Olha aquelas pessoas… — a voz dela falhou, os olhos apontando para três adolescentes sentados ao lado do que parecia ser a mãe, todos cheirando químicas ilícitas dentro de garrafas plásticas — as ruas estão cheias de drogas que bandidos usam para financiar seus crimes e manter os mais frágeis dependentes dos que têm alguma esperança a oferecer, mesmo que sejam esperanças artificiais.

— Eu penso em pessoas como Janine e vejo isso aqui e só consigo sentir raiva.

— A raiva leva ao desejo de vingança. Mas o que nós precisamos, se quisermos que as coisas melhorem, é de justiça.

— Às vezes são a mesma coisa — Alexandra se afastou, olhando para as mãos e pensando no poder que tinha adquirido.

Leona retirou o capacete, fulminando-a com os olhos.

— Você só está dizendo isso por causa do que Janine e as outras fizeram a você no Instituto. Você não pensa isso de verdade.

— Eu penso todos os dias, toda vez que me batem, me sujam, mexem nas minhas coisas ou me chamam de aberração.

— Justiça traz equilíbrio. Vingança é apenas egoísmo.

— Mas e se a justiça permite que os fortes continuem humilhando os mais fracos?

Leona inclinou-se, franzindo o cenho.

— Nós buscamos algo além de nossa própria dor para garantir que a justiça seja imparcial. Caso contrário, a vingança apenas geraria mais vingança. Se eu tivesse poder para mudar alguma coisa, eu certamente o usaria para fazer a coisa certa. E sei que você também — ela abriu um sorriso afetuoso. — Você é melhor do que isso.

Alexandra arregalou os olhos.

Nunca havia pensado sobre a forma como Leona a enxergava, e se surpreendeu ao perceber que a amiga esperava o melhor, mesmo quando ninguém parecia se importar.

— Por que está me perguntando isso agora? — disse Leona. — Aconteceu alguma coisa que eu deveria saber?

Alexandra pensou em contar sobre o Poder do Cavaleiro, mas não o fez. Apenas relaxou os ombros e sorriu, com certo alívio por não sentir as dúvidas de antes pesarem sobre seus ombros.

— Eu quase morri ontem tentando te salvar.

Leona sorriu de volta.

— Não te agradeci por isso.

Ela se inclinou e a abraçou. Isso sim foi uma surpresa, que Alexandra levou vinte segundos para processar, mais dez para entender, antes de se render ao que provavelmente foi a melhor coisa que lhe aconteceu naquele dia. Foi um abraço caloroso, apertado, repleto de um carinho que Alexandra não sentia havia muito tempo. Mesmo convivendo todos os dias com Leona, não era comum que trocassem toques ou abraços. Alexandra era sempre muito reservada em relação a isso e Leona sempre a respeitava, apesar de ser uma pessoas mais descontraída e espontânea.

Naquele lugar feio da cidade, Alexandra experimentou a coisa mais bonita. Quando se afastaram, trocando um olhar de cumplicidade, suas mãos sem querer se tocaram, os dedos de Alexandra sentindo perfeitamente o toque na pele quente da amiga, e um estalo de energia irrompeu. Sem que fosse capaz de controlar, o Poder do Cavaleiro se manifestou, agitando o ar e mexendo com músculos e nervos, fazendo Leona estremecer com um calafrio. Um nuvem se descortinou na mente de Alexandra, revelando um conhecimento súbito sobre engrenagens, ferramentas, veículos, motocicleta. Por um instante, ela sentiu o que Leona sentia e soube como a amiga se sentia em relação à amizade das duas, e isso preencheu seu coração. O toque perdurou por alguns segundos. O impacto da manifestação fez Leona desmaiar. Alexandra a segurou com o braço esquerdo, com seus músculos finos de força bastante questionável, fazendo o máximo de esforço para não deixá-la cair, enquanto sua mão direita parou de tocá-la e tentava apoiá-la sem encostar na pele. O brilho da manifestação só não foi maior porque o dia estava claro. Mas a lufada de ar dispersou nuvens de fumaça e fez tremer as chamas nos latões.

Moradores de rua começavam a prestar atenção nas duas, com um ou outro ameaçando se aproximar cautelosamente. A suposta mãe com os três adolescentes se afastaram, buscando um lugar para se esconder. As ruas de paralelepípedo eram estreitas demais para carros passarem, mas Alexandra começou a respirar com dificuldade quando se deu conta de que um legionário poderia aparecer a qualquer momento, ou pior, um Biomak. Ela seria caçada como uma Revo, talvez presa, talvez morta. E ela não sabia definir qual seria o pior dos mundos naquela situação.

Leona escorregou no seu braço, inconsciente numa espécie de transe, parecia um coma, com veios escuros se alastrando do tórax pelo pescoço para as bochechas como sangue pisado de escoriações. Mas ela não parecia ferida ou com dor. Era como se estivesse dormindo. Alexandra olhou para os lados, por cima dos ombros, a respiração cada vez mais apressada e difícil de controlar. Ela tentava se acalmar, respirar pelo nariz, soltar o ar pela boca, mas respirava pela boca e soltava o ar pelo nariz, sem conseguir parar de tremer.

Merda!

O que eu faço? O que eu faço?

Alexandra não sabia como desativar aquele poder ou como desfazê-lo, ou qualquer coisa. Apoiou Leona com o outro braço, sem encostá-la na pele, e suspirou quando ela começou a acordar. Não foi um suspiro de alívio, contudo. O alívio implicava em se sentir melhor. E isso não aconteceria até que elas pudessem sair dali. Alexandra se sentiu um pouco menos desconfortável, o que não demorou muito tempo quando os olhares dos moradores de rua ao redor começaram a se voltar novamente para as duas, não apenas com curiosidade, mas com o desejo genuíno de expulsá-las daquela área. As manchas escuras se retraíram lentamente do pescoço de Leona até que desapareceram por completo. Ela acordou.

— O que aconteceu?

— Você desmaiou de repente — Alexandra não pretendia dizer o que aconteceu de verdade.

— Parece que fui atropelada por um caminhão.

Aparentemente, usar o Poder do Cavaleiro poderia ter efeitos colaterais nas outras pessoas. Mas Alexandra não tinha tempo para ponderar sobre isso.

— Precisamos ir embora daqui.

Leona olhou de relance e se recompôs, aparentemente envergonhada por ter desmaiado nos braços da amiga. Em algum momento, Alexandra teria que contar sobre suas habilidades recém-adquiridas ou situações como aquela se tornariam recorrentes. Repetir a dose não lhe parecia uma boa ideia.

— Você consegue dirigir? — perguntou, pegando o capacete e entregando para ela.

Leona o pegou e vestiu.

Ligou a moto e saíram dali com um ronco do motor. Alexandra olhou por cima do ombro e viu alguns moradores de rua observando confusos, ficando menores à medida que se afastavam. Viraram uma esquina e Alexandra relaxou. Ela teria que aprender a se controlar se não quisesse estragar as poucas chances de interação social que tinha na vida.

Após Leona deixá-la em casa, foi direto para o quarto, tomou um banho morno e desceu para o porão, onde passou o resto da tarde rascunhando coisas aleatórias no caderno. Alexandra precisaria manter segredo sobre sua condição ou seria incluída no Registro Civil de Pós-Humanos, que identificava todos os aspectos e poderes de um Revo e concedia uma “permissão compulsória” para a Autocracia monitorar cada passo do cotidiano de um Revo através de um chip implantado sob a pele. Seria o fim de conceitos como liberdade e privacidade, dentre outras coisas. Como era um caderno escolar simples, não se preocupou em despejar suas dúvidas nele; não corria o risco de suas informações e pesquisas chegarem aos olhos de bisbilhoteiros, o que era uma tendência quando se colocava qualquer coisa na WWW. A Autocracia estava sempre observando.

Fez várias anotações e rabiscos desconexos baseados nas experiências anteriores e nas informações que tinha sobre sua cinese. Anotou sobre a noite quando entrou em contato com o soro e o poder da tempestade de fogo que se manifestou. Tyfon lhe dissera que presumia ser “uma anomalia, um resquício de poder das experiências para a produção do soro” (e ela se questionou: que tipo de anomalia? De onde veio o soro?). Anotou sobre Leona, com mais algumas perguntas: O soro tem efeitos colaterais? É temporário? Permanente?

O fato com Leona gerou uma série de perguntas que Alexandra precisaria responder se quisesse entender melhor as suas habilidades. O poder se manifestava através do toque de suas mãos com a pele de um alvo. Mas talvez, em momentos de estresse ou excitação, se manifestasse sem que ela pudesse controlar o efeito. Tyfon falou em treinamento, o que a fez perceber que, realmente, ela precisaria ser treinada antes que alguém se machucasse por sua causa.

No final do dia, depois de escrever bastante em seu caderno, e pensar sobre isso até o cérebro ferver, Alexandra percebeu que estava apenas considerando todas as possibilidades e planejando o que fazer. Mas só havia uma coisa a fazer, e ela não poderia fugir por muito tempo. Estava preparada para encontrá-lo novamente e dizer que aceitaria o convite para trabalhar com ele e seu grupo de resistência à Autocracia. Alexandra fechou o caderno, guardou-o na mochila e subiu para o quarto. O cansaço era tanto que dormiu profundamente. Mas sua mente não desligou por completo. Ela sonhou com Leona, com o abraço, consigo mesma empunhando uma metalâmina kurogani, lutando em uma guerra apocalíptica contra legionários e Biomaks da Autocracia, como uma heroica guerreira. Acordou durante a noite sem fôlego e suando muito. Foi quando se deu conta. Ser uma super-heroína não seria um sonho. Estava mais para um pesadelo. Mas agora, não havia como voltar atrás.


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