O Contista

Revolução 07. Poder do Cavaleiro

Revolução

No ano de 3014, Tarsila era uma sociedade subjugada. Sob o respaldo dos Revos que a comandavam, a Autocracia suprimiu todos os conflitos diplomáticos com outras cidades e tomou posse de todas as riquezas de Tarsila afirmando que o fazia para protegê-la de um mundo à beira do colapso. Durante tumultos civis envolvendo disputas com as cidades de Garjia e Berges, a Legião aniquilou as resistências e restabeleceu a ordem através da força bruta. Em uma terra sem lei, aqueles que detinham o maior poder de fogo se tornaram a lei. Tarsila se tornou território da Autocracia, sem liberdade e sem direitos, dominada com mãos de ferro pelo Marechal Tigris.

Os vestígios da invasão autocrata ainda se faziam presentes pelas ruas, em áreas arruinadas e interditadas, e no rosto dos cidadãos, sempre temerosos de que pudessem estar fazendo algo em desacordo com a severidade do atual governo. A privacidade não existia. Onde quer que um cidadão estivesse, havia 99% de chance de estar sendo observado, por alguém ou por uma câmera, intencionalmente ou não. As áreas interditadas estavam entre os raros pontos cegos que ainda poderiam ser encontrados na cidade. A Sol Poente possuía vários destes locais. O Ponto Negro era um deles.

O Centro continuava bastante policiado, com viaturas da Guarnição estacionadas em pontos estratégicos, veículos blindados da Legião e um ou dois Biomaks auxiliando nas patrulhas de rua. Leona e Alexandra leram na WWW sobre a situação para que Leona pudesse pegar sua moto. Enquanto ela pegou o trem para cuidar de seus assuntos, Alexandra seguiu em direção ao Ponto Negro para cuidar dos seus. Era o local indicado no cartão entregue pelo médico, Matias. Disse que encontraria Leona na escola quando terminasse o que tinha de fazer, sem dizer a ela o que faria. Ouviu protestos acalorados, já que Leona sempre a acompanhava em situações assim, mas conseguiu seguir caminho sozinha sem ter que dar explicações além do necessário.

Após passar pela área dos Blocos e cruzar a fronteira invisível para o Ponto Negro, Alexandra fez o caminho até uma região de prédios de fábricas e galpões abandonados. Seu pai sempre lhe dizia coisas como “fique longe do Ponto Negro”. Embora ela gostasse de explorar lugares novos de Tarsila e da Sol Poente, o Ponto Negro era uma região socialmente discriminada, onde viviam os párias e os criminosos. Alexandra a evitava, mas agora que tinha superpoderes, estava quebrando as regras de seu pai e as suas próprias.

As áreas pobres de Tarsila eram muitas, situadas principalmente no noroeste, em regiões no entorno do opulento centro metropolitano. Eram comunidades que se estendiam por quilômetros de terreno plano e sobre pequenos morros, formadas por construções que iam desde edifícios até casas, casebres e cabanas, em sua maioria de estado precário ou totalmente em ruínas. Escombros, lixo e sujeira poluíam as ruas, cujo asfalto frequentemente sofria por buracos e efeitos da erosão. Os resquícios da Guerra da Conquista ainda se faziam presentes. E o lixo da metrópole era praticamente todo descartado nas favelas da área noroeste.

Os sem-teto se amontoavam por todos os lados e em qualquer abrigo que encontrassem. A criminalidade florescia, especialmente devido à falta de lei ou ordem. Grupos criminosos alimentavam vícios em todo tipo de drogas, jogos de azar e prazeres da carne. Em um lugar que respirava guerra, o sentimento de libertação surgia das piores maneiras imagináveis. Muitos estabelecimentos eram bons em oferecer liberdades e libertinagens. Poucos habitantes realmente se mantinham afastados dessa realidade. Até mesmo os corações mais nobres e fortes, em algum momento, cediam aos tormentos da pobreza e da desesperança.

Quando a economia e as relações comerciais de Tarsila entraram em colapso, muitas pessoas ficaram desempregadas de um dia para o outro. Os mais ricos e engenhosos conseguiram ganhar mais dinheiro, transformando os recursos da cidade em tecnologia e retorno financeiro, mas todos os que trabalhavam nas fábricas e nos armazéns amargaram o impacto da crise. Alguns, como meu pai, conseguiram encontrar outras oportunidades de trabalho, mesmo que instáveis ou precárias. Mas outros, especialmente os mais propensos à atividades ilícitas ou criminosas, se estabeleceram no Ponto Negro. Era um local dentro da Sol Poente, mas distante de onde Alexandra morava, por isso ela raramente se aventurava por lá.

A região também sofreu com o crescimento rápido da população local de pós-humanos, que buscavam refúgio contra o apartheid da Autocracia. Muitos Revos acabaram aderindo ao mundo do crime. O potencial para ganhar muito dinheiro em pouco tempo, juntamente com o número de indivíduos propensos a usar superpoderes em benefício próprio ou para controlar gangues ou cartéis, ampliou drasticamente a criminalidade no Ponto Negro a partir dos anos 2992. Eventualmente, tropas da Legião eram enviadas para missões de “choque de ordem” que terminavam com algumas dezenas de mortos e estabeleciam um equilíbrio de forças temporário entre a Autocracia e os reis do crime da cidade.

Apenas mudando de um quarteirão para outro, Alexandra pôde ver a mudança na área ao redor. Barracos incrustados como cogumelos na beira de prédios em ruínas, inclinando-se uns contra os outros, esqueletos de fábricas que se cruzavam aqui e ali. O fedor poluente espalhava-se junto a uma pintura grotesca de detritos que escorria por blocos de pedra esmigalhados. O caminho a levava por um labirinto brutalizado como em nenhum outro lugar de Tarsila. Os destituídos faziam armazéns e casebres de abrigo; mendigos, prostitutas, bêbados inconscientes e membros de gangues ocasionalmente surgiam às margens das ruas, em becos ou esquinas. Ela apenas seguia seu caminho, evitando troca de olhares e desviando quando necessário. Apesar de agora ter uma cinese, se deu conta de que nada sabia sobre seus poderes, ou mesmo se os tinha de verdade, e se tivesse, não saberia usá-los devidamente em uma situação de risco. De repente, estar naquele lugar lhe pareceu uma escolha impulsiva e estúpida.

Encontrou o lugar descrito no cartão quando se deparou com um complexo desativado de prédios de hospitais, rodeados por cercas de arame com lâminas concertinas emaranhadas no topo e dezenas de barricadas de guerra esquecidas entre o entulho e o matagal do terreno. O lugar parecia inabitado havia anos. Caminhou até o galpão indicado no cartão, o número 4, passando por placas de “Área Bloqueada” e “Entrada Proibida” normalmente usadas para delimitar locais interditados desde a época da Guerra da Conquista. Alexandra atravessou o galpão até o que parecia ser uma área de lazer arruinada, com pedaços de madeira, vidro e concreto acumulados em montes de entulho. A carcaça de uma máquina de ressonância magnética estava esquecida em um canto, levemente tombada sobre o lixo. O local ficava em uma “clareira” entre prédios abandonados de janelas e portas destruídas, cercado por arbustos verdejantes que cresceram indiscriminadamente.

— Então, foi você quem salvou Leo? — a voz potente veio de dentro de um prédio à direita, a silhueta surgindo por uma porta.

O homem se revelou para Alexandra, usando casaco preto e as mãos nos bolsos de uma calça igualmente preta.

— Eu me chamo Tyfon — disse ele. — Fico feliz que tenha aceitado o meu convite para este encontro.

Ela enrijeceu e deu uma passo atrás.

— Tyfon, esse é o nome do número na lista dos mais procurados da Autocracia, acusado de assassinato! Você é…

Ela a interrompeu.

— Não sou — seu semblante permanecia sereno. — E no devido tempo, você terá a oportunidade de descobrir que fui acusado de um crime que não cometi. Você deve saber que a fama do Escorpião é bem diferente do que a Autocracia fala de Tyfon.

Alexandra hesitou, sem responder, sem conseguir evitar a surpresa por ele ser o famoso Escorpião e também o homem chamado Tyfon Aleph, procurado pela Autocracia por assassinato. Ele conseguira o feito de ocupar duas posições na lista dos criminosos mais procurados pela Autocracia. Ela ficou mais surpresa com a atitude dele de se apresentar para ela com seu nome verdadeiro. Foi uma demonstração de confiança para com ela, o que a desarmou. Será que ele foi realmente acusado de um crime que não cometeu? Era mais jovem do que imaginava, alto, delgado, de pele negra, cor de oliva mais escura que a de Leona, olhos escuros penetrantes e cabelos longos presos em tranças finas de estilo ngoziano, que escorriam pelos ombros.

Ele sorriu com minha expressão estarrecida.

— Talvez você devesse se apresentar também.

— Eu… bem… Alexandra — ela se esforçou para sair do transe, não sem antes gaguejar um pouco.

— Agora que passamos as formalidades, podemos ir ao que interessa — ele se aproximou, parando em frente a ela e olhando-a nos olhos. — Agradeço por não ter abandonado Leo à própria sorte, mas você cometeu um erro ao deixar o frasco se quebrar.

Alexandra arregalou os olhos.

Foi quando se deu conta de que o Escorpião não estava sozinho. Em uma janela à esquerda, viu um homem loiro segurando um fuzil de assalto, apontado para baixo de maneira supostamente despreocupada. Da porta de onde ele acabara de sair, a velocista ruiva observava com expressão severa. O garoto de pele morena, que agora Alexandra sabia se chamar Leo, estava atrás dela com uma expressão envergonhada.

— Leo também cometeu um erro — disse Tyfon quando percebeu que Alexandra olhava para ele. — Não cumpriu a missão que lhe foi designada.

Ele escutou, e deu um passo atrás, quase se encolhendo.

— Havia Biomaks e muita confusão — Alexandra se voltou para Tyfon, se aproximando um passo e encarando-o cara a cara. De perto, ele era ainda mais alto — Você está sendo um idiota!

— Estou sendo realista. Este é o mundo onde vivemos. O que importa é o resultado. Não adianta se esforçar ao extremo… e falhar no último minuto. Não somos recompensados por nossas falhas.

— E no que ele falhou? — ela precisou se esforçar para não partir para cima dele.

— Você tem o Poder do Cavaleiro.

Ela estremeceu e se endireitou.

— Eu deveria tê-lo usado — ele concluiu.

— Leo estava desacordado, não teve culpa. Foi um acidente.

— O frasco era um soro aprimorado que a divisão científica conseguiu desenvolver com sucesso. Ele concede o Poder do Cavaleiro, a capacidade de usar poderes e habilidades de qualquer indivíduo tocado por seu detentor. Até mesmo humanos podem ser transformados em Revos, o que suponho ser o seu caso.

— Quer dizer que não sou uma Revo? — perguntou Alexandra.

— Você é e não é.

— Dá para ser menos enigmático? — não conseguiu evitar a rispidez.

Ele arregalou os olhos, e esboçou um riso no canto da boca.

— Você agora é capaz de tocar uma pessoa, absorver seu código genético e convertê-lo em habilidade para si mesma. Se tocar um humano, poderá usar alguma conhecimento desta pessoa. Se tocar um Revo, poderá usar seu poder. É uma arma perfeita, criada pela Autocracia para a guerra.

— Eu toquei Leo e surgiu uma tempestade de fogo.

Tyfon enrijeceu os ombros, franzindo o cenho, como se tivesse sido perturbado por alguma coisa.

— Presumo que foi uma anomalia, um resquício de poder das experiências para a produção do soro.

— Leo não é um Revo?

— Não, é humano. Talvez você tivesse aprendido a tocar cítara se ele soubesse tocar.

Alexandra não entendeu.

Atrás da velocista, Leo coçou a nuca, com um riso envergonhado.

Tyfon continuou:

— Cada pessoa, humano ou Revo, pode conceder um tipo diferente de habilidade ou poder, duas pessoas podem conceder habilidades similares, ou mesmo não conceder habilidade alguma. Varia de um indivíduo para outro.

Era muito maior e mais poderoso do que Alexandra imaginava.

Como ele sabe tanto sobre os efeitos do soro?

— Por que alguém criaria algo assim? — a pergunta escapou.

— Para matar Revos — Tyfon tentou esconder o tom de raiva na voz.

Alexandra não queria matar Revos. Na verdade, gostava muito mais da ideia de ser uma deles.

— Eu nunca faria isso — respondeu.

— Mas fará alguma coisa. Agora que você possui o Poder do Cavaleiro, possui algo incrível e não tem mais o direito de não fazer nada. Você lutará ao nosso lado.

— O quê? Não…

Tyfon se moveu e a agarrou pela gola da camisa.

— O pior pecado de uma pessoa é a omissão! E você não tem mais esse direito, Alexandra Eco.

Ele sabe meu nome completo?

Tyfon a largou.

— Vá para casa, prepare-se e volte amanhã a este local, neste mesmo horário. Vamos começar seu treinamento.

— Treinamento? Para quê?

— Para ser uma super-heroína.

O riso de Tyfon, e a forma como ele olhou para Alexandra naquele instante, a assombrariam pelo resto da vida.


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