O Contista

Revolução 06. Cinese

Revolução

O ônibus tinha parado a um quarteirão de distância de casa. Leona desceu três pontos antes, quase ao lado de onde morava. Alexandra descera no ponto, sentindo o mundo melhor por saber que poderia baixar a guarda, relaxar e parar de olhar por sobre os ombros. Entrou em casa devagar, tentando fazer o mínimo de barulho possível. O que foi ingenuidade dela. Demorou pouco mais de quinze segundos até o pai surgir pela escada, descendo do segundo andar com uma expressão que tentava disfarçar a agitação, a mão segurando o telefone celular.

Encarou Alexandra com olhos severos.

— Para que você tem um celular se não atende quando a gente precisa? — o pai perguntou.

Então, ele se deu conta. E se aproximou bruscamente, franzindo o cenho. Alexandra estava suja, com rasgos na roupa.

— Meu Deus, o que aconteceu com você?

— Eu estou bem, pai. Você viu o que aconteceu no Centro, eu estava lá, precisei correr e me esconder. Por isso não vi o celular e não consegui voltar antes.

Ele a abraçou, de repente, um aperto que deixou Alexandra sem reação, perdida no constrangimento de algo que acontecia muito raramente. Ela ficou sem saber o que fazer.

— Está tudo bem, pai, estou bem — tentou acalmá-lo, incerta se deveria abraçá-lo também.

Ele a afastou, segurando pelos ombros com as mãos grandes e firmes e avaliando-a de cima a baixo com os olhos. O pai deslizou os dedos pelo ombro direito quando sentiu as leves protuberâncias das marcas da cinese embaixo do tecido da camisa. Alexandra se afastou com um passo esquivo para trás, ainda olhando para o pai.

— Eu só quero tomar um banho e dormir, tenho aula de manhã cedo — tentou desviar o assunto antes que ele começasse algum.

Ele acariciou os cabelos dela.

— Tudo bem, fico feliz que esteja bem.

— Eu também — o olhei com um sorriso amarelo.

— Boa noite, filha.

— Boa noite, pai.

Alexandra subiu para o quarto no segundo andar, arrastando os pés, o cansaço pesando sobre seus ombros e açoitando seus joelhos e tornozelos. Ficou aliviada pelo esforço do pai em entendê-la, apesar de saber que ele não a compreendia totalmente. Não como sua falecida mãe, pelo menos. A dor da saudade da mãe se misturou à sensação de formigamento na cinese, que parecia pulsar em sua pele, como se estivesse bombeando algo além de sangue pelas veias e artérias. Incomodava bastante. Às vezes, dava vontade de coçar, mas Alexandra tentava evitar, com medo de machucar a pele, que já não estava em suas melhores condições naquele momento.

Foi direto para o chuveiro, sem sequer tirar a mochila ou tirar os sapatos até estar no banheiro. Ficou debaixo da ducha, com as roupas largadas no chão ao lado da pia, esperando que a água ajudasse a tirar o pior da sujeira. Pensou novamente no pai, que poderia tê-la pressionado para que contasse o que estava acontecendo, mas não o fez. Ele evitava situações em que precisasse gritar com ela ou exigir que fizesse algo contra sua vontade. O vínculo de confiança que tinham baseava-se no fato de que um se esforçava para respeitar o espaço do outro. Por isso, Alexandra remoeu a angústia de não poder contar sobre a noite infernal que tivera e suas consequências.

Seu avô, o pai de seu pai, tinha sido um homem enérgico e de difícil convivência. Benjamim herdara o temperamento forte, mas era um homem mais gentil e ponderado. Ao contrário do avô, o pai não era briguento, nem se envolvia em discussões desnecessárias. Em fotos que seu pai guardava no porão, Alexandra conhecera seu pai quando era mais jovem, um garoto mirrado, magro, com um tipo de estranheza que ela parecia ter herdado dele. Até onde sabia, seu pai não tinha sido popular no ensino médio, mas fizera alguns bons amigos. Seu padrinho, Loranzo, que atualmente morava em Garjia, era um destes amigos que ele manteve e que às vezes vinha visitá-los.

Benjamim tentava agir com Alexandra de forma diferente da qual foi criado, e ela se sentia feliz por isso. Com ela, pelo menos, ele agia com carinho. Já o tinha visto irritado algumas vezes, com o tipo de raiva que deixava o rosto vermelho e o fazia querer socar a cara de alguém. Ele trabalhava em uma fábrica siderúrgica da Embramax, um dos maiores conglomerados industriais do mundo no ramo da metalurgia, responsável pela construção e manutenção da cidade, assim como cerca de 80% da reconstrução após a Guerra da Conquista, quando grande parte dos edifícios teve suas estruturas e passarelas de ligação reforçadas. Ele era visto como uma liderança no sindicato informal criado pelos operários.

Certa vez, Alexandra foi visitá-lo na fábrica e o encontrou conversando com um ministro do Marechal Tigris, um magricelo sovina com cabelo de cuíca chamado Ploto Balazar. O homem dizia ao diretor de operações que dois projetos de revitalização para a Zona Portuária de Tarsila, sob o comando da fábrica, seriam cancelados e que, contrariando as promessas feitas pelo governador-geral, haveria demissões em vez de novas oportunidades de cargo para pelo menos 25% dos operários que trabalhariam nos projetos. Benjamim ouvia a tudo junto com uma massa de trabalhadores insatisfeitos. Alexandra viu o pai passar pelo diretor de operações, agarrar o ministro pela gola da farda verde escura e quase bater no sujeito. Por pouco não o fez, mas foi impedido por um bom senso súbito que iluminou seu julgamento. Naquele dia, Alexandra respirou aliviada pelo pai não ter batido em um agente do governo. A Legião costumava ser implacável com quem desrespeitava o governo de alguma maneira, mesmo que aquele homem fosse apenas um ministro menor do governador.

A outra vez em que Alexandra viu o pai perdendo a paciência foi em abril, no dia em que ela acordou hospitalizada após um trote horrível de Janine e suas amigas no Instituto. Benjamim gritou com a diretora do Instituto, que mereceu a reação, e com o professor de química de Alexandra, que provavelmente não merecia. O professor de química, Senhor Krazinski, foi quem levara Alexandra para o hospital. A diretora chegara depois, após saber do fato, e independente de saber ou não sobre o envolvimento da sobrinha, tentou colocar panos quentes sobre o ocorrido. O pai passou dos limites ao ponto de uma enfermeira do hospital ameaçar chamar um legionário para acalmar os ânimos. Por sorte, o Senhor Krazinski conseguiu acalmá-lo antes que as coisas ficassem ainda piores do que estavam. Alexandra, contudo, entendia a reação do pai. Provavelmente, teria a mesma atitude se chegasse no hospital e visse sua filha deitada em uma cama, mais ou menos consciente, com os braços enfaixados e os sentidos entorpecidos por causa dos medicamentos que foi obrigada a tomar. Alexandra se lembrava de lapsos da confusão, mas o medo que sentiu por seu pai permanecia entranhado em seus nervos. Ela preferia não se lembrar do trote que a levara para o hospital. Se pudesse, se fosse algo viável de fazer, Alexandra conversaria com o pai sobre aquela noite e sobre o que tinha acontecido na cidade. Mas, provavelmente, não mencionaria Revos, frascos com líquidos estranhos ou superpoderes recém-adquiridos.

Enquanto pensava, Alexandra se deparou com a noção de que poderia tornar algo negativo em positivo. Tentou tirar proveito dos eventos do dia e transformá-los em sua cabeça, tentando encontrar algo de bom em tudo que sofrera. Existia algo de positivo, claro, e Alexandra fizera coisas boas e importantes. Ela salvou a vida de várias pessoas. O problema viria quando precisasse lidar com sua nova condição e aquela cinese em seu corpo. Passou os dedos sobre as marcas de maneira instintiva. Como se não bastasse, o Escorpião queria me ver. O homem era chamado de herói nos sussurros do povo e caçado como terrorista pela Autocracia. Mesmo tendo sobrevivido àquela noite, seria difícil sobreviver aos dias que viriam.

Fechou o chuveiro, saiu e se secou com a toalha, vestindo roupas limpas enquanto sua mente fervilhava. Apesar do cansaço, Alexandra não conseguia desligar. Muita adrenalina envolvida. Colocou as roupas sujas em um cesto de roupa, pegou a mochila e foi até a parte de baixo da casa, passando pela cozinha e entrando no porão.

A casa era muito antiga, da época em que as favelas da extensa região hoje conhecida como Sol Poente eram chamadas apenas de “os destroços”. Benjamim a reformou inteira após o período que sucedeu a Guerra da Conquista e a tomada da cidade pelo Marechal Tigris, construindo um porão para o caso de emergência ou a necessidade de refúgio. Ele dizia que não queria morrer se o mundo acabasse.

O porão era rústico; paredes e chão de concreto não emboçado, teto com placas e cabos elétricos expostos. Ficava alguns centímetros acima do nível da rua e tinha uma janela basculante estreita na horizontal, que Alexandra abriu quando entrou. Havia uma mesa de madeira no canto, ao lado de um armário metálico onde o pai guardava ferramentas e várias prateleiras repletas de sucatas, bugigangas e coisas aleatórias como panelas enferrujadas, máquinas de calcular desmontadas e carcaças de computadores velhos. Alexandra se sentou à mesa, puxou o caderno e um lápis da mochila, e começou a escrever, rabiscar, rascunhar palavras e desenhos que, inicialmente, pareceram desconexos. Aos poucos, começaram a fazer algum sentido.

Sua consciência trabalhava de uma forma a tentar compreender os poderes pós-humanos que vieram com a cinese. Ela era agora uma Revo, uma vez que tinha manifestado poderes como os Revos ao ser cercada pelos soldados na cidade. Sendo assim, precisava entendê-los se quisesse usá-los novamente, especialmente considerando que se encontraria com o famoso Escorpião. Alexandra sabia que precisaria encontrá-lo, cedo ou tarde. Se ele queria vê-la, não poderia apenas ignorar e evitar. Se não fosse ao encontro, ele viria até ela, e poderia ser uma situação bem mais desagradável.

Anotou tudo o que se lembrou do momento em que o frasco estourou sobre ela. Alexandra se lembrava de ver as faixas de energia, que desapareceram num lapso logo em seguida. Depois não conseguiu ver mais. Desenhou as faixas serpenteantes, se perguntando se seria capaz de vê-las novamente ou se aquilo foi resultado de estar em uma situação de extremo estresse. Uma vez tinha lido no livro “Anatomia dos Revos: Como se Manifestam os Superpoderes” que os poderes surgiam por causa de mutações que afetavam a forma como o organismo produzia energia; tinha algo a ver com as mitocôndrias serem envolvidas por organismos nanométricos e evoluídas para além de sua simbiose com as células, em uma velocidade vinte vezes maior que o normal para um ser humano. A mutação normalmente entrava em atividade no período da adolescência. Era uma consequência de uma reação genética ainda desconhecida e, como resultado, as células de algumas pessoas não resistiam aos processos químicos acelerados e morriam numa taxa acima do comum, o que se parecia com uma doença. Como os Revos surgiram? De onde vieram? Até hoje ninguém sabia dizer e nenhuma pesquisa tinha chegado a uma conclusão plausível.

Aqueles que sobreviviam às mutações tinham uma taxa tão elevada de mitocôndrias no organismo que elas promoviam modificações no corpo, fazendo aparecer as marcas da cinese, e extravasando a energia através dos superpoderes. Daí surgiu o termo “pós-humanos” que muitos estudiosos usavam. A definição “Revo” veio depois, com os alardes da imprensa sobre a “revolução” que representavam, e rapidamente se tornou popular no mundo. Através de pesquisas tendo Revos como cobaias (muitas vezes sem autorização dos pesquisados), estudos descobriram que as mitocôndrias continuavam responsáveis pela produção de energia nas células, mas cada ser vivo produzia energia de maneira diferente, fazendo com que os padrões e cores das marcas variassem de um Revo para outro. A Autocracia, naturalmente, estudava os padrões e as cores de cada cinese com o objetivo de criar métodos de restrição e contenção dos poderes, o que tornaria ainda mais efetiva sua caça às bruxas contra Revos dissidentes. O curioso para Alexandra era saber que a Autocracia nascera justamente de uma equipe composta pelos primeiros Revos de que se tem notícia.

Ela não soube discernir qual era o tipo de habilidade que manifestara quando foi tocada pelo líquido vermelho do frasco. De alguma forma, ativou um superpoder baseado em fogo, e se perguntou se tinha algo a ver com o garoto de pele morena ao seu lado quando aconteceu. Ela não entendia a natureza de seu superpoder. Precisaria encontrar mais estudos sobre as cineses e os padrões das marcas para entender melhor sua condição, o que não seria fácil visto que a Autocracia limitava o acesso à livros e pesquisas sobre Revos. O que conseguira obter de livros nesse âmbito, ela obtinha por vias não convencionais, muitas vezes com ajuda das “não convenções” de Leona. Os livros permitidos para estudos básicos no Instituto mal tocavam na superfície da questão dos Revos. Evitavam aprofundar no tema e sempre diluíam as informações relevantes em textos repletos de análises técnicas desnecessárias. Por isso, Alexandra prezava tanto as aulas da Senhorita Lilian. Ela, dentre todos os professores, tentava destrinchar a questão ao passá-la para os alunos. Alexandra pensou que poderia aproveitar uma parte daquelas anotações para o trabalho proposto pela professora. Só teria que procurar mais algumas fontes de pesquisa para complementá-lo e retirar as anotações referentes a si própria para torná-lo apresentável em sala de aula.

Ela puxou a camisa folgada que estava vestindo e observou os padrões de sua recém-adquirida cinese. Sequer imaginava que uma cinese podia ser adquirida. Ou será que ela sempre foi uma Revo e nunca soube? O líquido vermelho poderia apenas ter ativado algo que já existia. A cinese possuía desenhos sinuosos, que pareciam se misturar a músculos, veias e artérias, com finos traços de um cor verde semelhante à cor de seus olhos.

Que se fecharam sem ela perceber ou controlar.

O mundo se apagou de repente.

Alexandra acordou com a claridade invadindo pela janela horizontal do porão, estapeando sua cara com o dia. Apagou enquanto escrevia no caderno, com a cabeça sobre as páginas agora levemente manchadas por gotas de baba. Seu pai estava entrando; o barulho da porta que a fez acordar. Ele parou ao lado dela.

— Você não tem aula, mocinha?

Alexandra balançou a cabeça, inclinando-a para olhar para ele, um gosto seco na boca, como se tivesse mastigado papel.

— Estou indo, me dê só alguns minutos para me recuperar.

— Leona veio buscar você — ele falou num tom jocoso.

Ela suspirou.

— Diz para ela que vou levar só alguns segundos.

Se levasse mais tempo, Leona arrancaria sua pele.

Seu pai lhe deu um tapinha no ombro e voltou para as escadas.

— Se eu tivesse dinheiro, me aposentaria e contrataria Leona para educar você — ele disse enquanto subia, quase gargalhando.

Alexandra deixou a cabeça cair de volta sobre o caderno.

Levou alguns segundos, de fato, para se recompor.

Enfiou o caderno na mochila, subiu, acenou rapidamente para Leona, trocou de roupa às pressas no quarto, colocando a camisa do uniforme (agora a única que tinha, já que a outra tinha perdido no caos da noite anterior), e desceu para encontrar a amiga na sala de casa. Leona estava bebendo uma caneca de café que Benjamim lhe oferecera enquanto esperava. O pai estava na cozinha.

— Você está atrasada — disse ela, terminando um gole do café.

— Preciso ir a um lugar antes do Instituto.

— Eu preciso buscar minha moto.

Ela quis dizer que acompanharia Alexandra.

Saíram juntas.

Não foram para o Instituto.


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