O Contista

Revolução 05. Preocupação de Pai

Revolução

A televisão desligou, e a tela ficou preta, interrompendo as notícias sobre o caos no Centro da cidade. Aquela sensação de medo e opressão era recorrente. Benjamim Eco suspirou e se sentou na cama, a fim de ganhar forças para retomar o ritmo. Eram 2:45 da manhã, e sua filha, Alexandra, não estava em seu quarto.

Benjamim passou as mãos pelos cabelos, já escassos no topo, perto da calvície, tentando não remoer aquela situação além do necessário. Ele gostava de ser o primeiro a chegar no trabalho, assistindo a todos chegarem. Por isso, ele costumava dormir cedo; geralmente por volta de dez da noite, dependendo do que estivesse passando na tevê. Naquela noite, contudo, ele estava agitado, perturbado por saber que a filha ainda não havia chegado em casa com toda a confusão que estava acontecendo na cidade. A Sol Poente era distante do Centro e, como consequência, longe dos problemas de lá. Normalmente, precisava enfrentar seus próprios problemas cotidianos, na maior parte do tempo ignorados pelos interesses da Autocracia. Ao ver o quarto da filha vazio teve a sensação de que, talvez, a Sol Poente não estivesse tão afastada assim.

Então, ele esperou que a filha voltasse por quase três horas.

Inúmeras vezes, olhou pela janela, esperando ver Alexandra chegando e entrando em casa.

Sentiu o desejo de pedir ajuda à esposa, para obter conselhos, para obter apoio. Mas seu lado da cama estava vazio fazia algum tempo. Ele pensava no desejo de pegar o celular e ligar para ela, sabendo a ligação não completaria. Ainda guardava o número da falecida esposa em seu telefone, mesmo depois de dois anos, e doía toda vez que não podia falar com ela sobre a filha. Ligou oito vezes para o celular de Alexandra, sem sucesso. Benjamim não sabia o que a filha estava fazendo ou por que estava fora até tão tarde da noite. Não era do feitio dela. Ele poderia enganar a si mesmo como a maioria dos pais fazia em relação aos filhos, mas, ao mesmo tempo, sabia a verdade. Alexandra não era sociável. Ela não ia às festas, não bebia, não fumava, e não tentava se misturar quando participava de eventos comemorativos ou celebrações em que iam juntos.

Duas possibilidades preocupantes passavam pela sua cabeça e o irritavam. A primeiro era de que Alexandra estivesse aproveitando um tempo para ficar sozinha, perambulando pelas ruas como costumava fazer. Ela tinha o hábito de caminhar à noite, algo que começou desde quando passou na prova e entrou no Instituto Cruzeiro do Sul. Ela não estava feliz no Instituto, ele sabia, e a caminhada era sua forma de lidar com isso. Ele às vezes a via saindo e gostava de saber que as caminhadas a faziam se sentir melhor consigo mesma, uma vez que ela parecia estar fazendo isso de maneira razoável e saudável. Ele se preocupava, contudo, que ela o fizesse nas ruas da Sol Poente. Porque na comunidade, uma garota de 17 anos, tão pequena, tão frágil, era um alvo fácil para aproveitadores que quisessem assaltá-la, ou fazer algo pior. Benjamim não conseguia sequer articular a pior das possibilidades em seus pensamentos sem se sentir fisicamente doente. Normalmente, Alexandra saía logo depois de anoitecer e voltava cedo. Mas não ter voltado às três da manhã, o deixava com os nervos à flor da pele.

Ele olhou pela janela de novo, no canto da casa de onde podia enxergar a esquina iluminada por um poste de luz; esperava ver Alexandra se aproximando. Nada.

A segunda possibilidade não era muito melhor. Ele sabia que Alexandra estava sofrendo com trotes e agressões no Instituto. Benjamim descobriu isso em abril, quando sua menina foi retirada do Instituto e levada à ala psiquiátrica de um hospital. Ela não contou se havia responsáveis ou por que ela fez o que fez, mas sob a influência dos remédios que lhe deram para se acalmar, ela admitiu que estava sendo vítima de bullying. Ela falou sobre as meninas que a estavam perseguindo, no plural, indicando que eram várias pessoas, não apenas uma. Mas não tocou no assunto depois desse incidente. Se Benjamim pressionasse um pouco, talvez Alexandra explicasse melhor, mas ela apenas se acalmou e ficou mais retraída. Nem mesmo Leona, sua única amiga, comentou sobre o assunto, e Leona era bem mais extrovertida do que sua filha. Benjamim pensou em perguntá-la, mas sentiu que estaria sendo invasivo com os assuntos da filha e preferiu deixar que Alexandra revelasse os detalhes no seu próprio tempo, mas meses se passaram sem que ela tocasse no assunto novamente.

Havia muito pouco que Benjamim poderia fazer sobre o caso, na verdade. Ele ameaçou processar o Instituto depois que sua filha foi levada para o hospital, e a diretoria do Instituto respondeu pagando as despesas hospitalares e prometendo que iria cuidar dela para evitar que tais eventos ocorressem no futuro. Foi uma promessa débil feita por pessoas que não pareciam realmente interessadas nos problemas de uma aluna vinda de uma comunidade pobre da cidade. Se fosse a filha de um empresário rico ou de um nobre autocrata, talvez as promessas fossem mais fervorosas. Alexandra batalhara tanto para estudar e passar na prova para ser admitida naquele Instituto renomado, e ainda assim, não parecia ser bem-vinda no lugar. Isso não aliviava as preocupações de Benjamim como pai.

Com tudo isso em mente e o desaparecimento da filha, ele não conseguiu ignorar a ideia de que alguém tivesse feito mal a ela. Ele só sabia sobre o incidente no Instituto, aquele que a levara para o hospital, mas poderia haver outros de que não soubesse. Ele imaginava as meninas e meninos que atormentavam sua filha, trocando mensagens uns com os outros, pensando em maneiras criativas de humilhá-la ou prejudicá-la. Alexandra nada falava em voz alta, mas o que estava acontecendo era ruim, persistente e a ameaçava o suficiente para que não tivesse criado nenhum laço de amizade desde que entrara no Instituto Cruzeiro do Sul. Leona continuava sendo sua melhor e única amiga e, ainda assim, também não falava sobre o problema.

O sentimento de impotência corroía Benjamim. Não havia uma ação que pudesse tomar. Não havia autoridade com quem pudesse contar. Uma hora atrás, tentou ligar para a Guarnição da Legião mais próxima, mas não adiantou. O soldado do outro lado da linha disse que ligasse novamente caso sua filha não entrasse em contato nas próximas vinte e quatro horas. Em um lugar como a Sol Poente, a Legião raramente se importava quando alguém desaparecia. Quando havia investigações nesse sentido, muitas vezes o caso se encerrava sem conclusões claras. Muitas vezes, os próprios legionários eram responsáveis pelos desaparecimentos. O que levou Benjamim a considerar esta terceira possibilidade nada agradável. Ouvira falar dos legionários atacados por um forasteiro dias atrás no Olho Por Olho enquanto molestavam uma adolescente não muito mais velho do que sua filha. Diziam pela comunidade que o forasteiro era, na verdade, o herói rebelde conhecido como Escorpião. Benjamim inclinou-se quando o estômago revirou e a boca ficou seca.

Então, veio uma vibração sutil no andar debaixo. Houve um silêncio abafado quando a porta abriu e se fechou. Benjamim soltou o ar com uma emoção de alívio, juntamente com um medo horrível. Se ele descesse para encontrar a filha, a encontraria machucada? Ou sua presença pioraria as coisas?

Passou os dedos pelos cabelos e se sentou no canto da cama, os cotovelos nos joelhos, as mãos sobre a cabeça, os olhos encarando a porta do quarto fechada. As bordas da porta estavam com a tinta descascada. A casa era antiga, não que já tivesse sido uma construção de qualidade algum dia. As paredes finas tornavam a estrutura propensa a fazer barulho ao menor sinal de movimento. Ele se levantou e caminhou até a porta. Era o pai de Alexandra e, se a filha esteve em apuros por alguma razão, ele precisava saber e tentar ajudar. Fazer seu papel. Mais uma vez, pensou que gostaria de ter a esposa ao seu lado naquele momento. Ela saberia como agir, sem pestanejar. Benjamim Eco abriu a porta e saiu do quarto em direção ao andar debaixo da casa.


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