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Star Wars: Os Últimos Jedi

Crítica Star Wars: Os Últimos Jedi

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A Força é inconsistente aqui

(Star Wars: The Last Jedi) – Ficção Científica. Estados Unidos, 2017. De Rian Johnson. Com Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Adam Driver, Lupita Nyong’o, Gwendoline Christie, Dohmnall Gleeson, Mark Hamill, Carrie Fisher, Anthony Daniels, Andy Serkis, Benicio Del Toro e Laura Dern. 2h32min. Distribuidora: Walt Disney. Classificação: 12 anos.

Há um desafio especial na construção do segundo capítulo de uma história projetada como trilogia. Como sequência, o trabalho aprofunda pontas soltas da história anterior enquanto elabora uma narrativa independente e que apresente novidades. Mas, como o “meio” entre o “começo” e o “fim”, é comum que as portas sejam mantidas abertas para o que virá na conclusão. Os desfechos no segundo capítulo são um pouco mais sutis. O Império Contra-Ataca (1980) está entre os grandes filmes já feitos para o cinema justamente por saber equilibrar todos estes elementos com sua “história do meio”. O filme ensinou que não se trata apenas de contar uma história, mas de mover as peças para compor um panorama completo. Star Wars: Os Últimos Jedi tenta aceitar a herança de seu antecessor e promover uma virada no jogo. Mas é inconsistente ao fazê-lo.

A trilogia nova, iniciada com o Episódio VII, segue algumas ideias da história de Jaina e Jacen Solo na série de livros Legado da Força (parte do antigo Universo Expandido, hoje considerado Legends no cânone da Disney). O Episódio VIII também o faz. Mas o filme constrói seus próprios conceitos e identidade. Novos temas são explorados de maneira mais clara do que nos episódios anteriores: a religião e os perigos do fanatismo (com a construção de mitos e as dúvidas de Luke Skywalker sobre sua crença), a harmonia com o meio ambiente (com o impacto da chegada de Rey e Chewbacca na ilha pacífica e isolada) e a realidade por trás da indústria bélica (com o financiamento e a produção de armas para a guerra que move a cidade de Canto Bright). São vantagens da trama.

Os protagonistas e antagonistas da saga, antigos e novos, precisam encarar de frente este universo novo de possibilidades, que não mais transita pelo simples preto e branco, bem e mal. Agora, há toda uma variação de cinzas. E a batalha entre heroísmo e corrupção alcança níveis maiores. O filme, contudo, tenta manter sua perspectiva sobre o que é bom e o que é ruim. Ou melhor… sobre o que é certo e o que é errado. Os próprios personagens ganham novas perspectivas, revirados e remodelados pelas circunstâncias. Para alguns, funciona; para outros, não.

Um que sofre com isso é Luke Skywalker, cujas escolhas influenciaram na queda de Kylo Ren. O filme faz uma desconstrução do personagem, e principalmente da mística sobre ele. Mas, talvez, não devesse tê-lo feito. Ou melhor, poderia ter feito de outra forma. Luke, por tudo que representa, merecia um pouco mais de valor do que simplesmente ~ter sido levado pelo medo do Lado Negro. Claro que ele é sujeito a falhas como qualquer pessoa e pode cometer erros, mas os erros cometidos poderiam ser melhor trabalhados, de modo que não manchassem a imagem dele a ponto de apresentá-lo como um covarde disposto até mesmo a matar, ainda que não tenha chegado às vias de fato. Desconstruir um personagem é válido; desmoralizar, não. E no fim, foi essa a sensação que ficou sobre Luke, mesmo com a redenção final e a icônica aparição de Yoda.

Dentre os demais personagens, cada um tem seu arco narrativo, desenvolvendo-se em subtramas que vão se conectando com a trama principal. Poe Dameron (Oscar Isaac), um dos mais fortes personagens da nova trilogia, cresce ao ter que lidar com as consequências de suas atitudes tempestivas. Ele é um excelente soldado e piloto, e sabe disso, mas tem dificuldades para lidar com a hierarquia da Resistência, o que o leva a bater de frente com a General Leia Organa (Carrie Fisher) e a recém-chegada Vice-Almirante Amilyn Holdo (Laura Dern). Aliás, é com um peso no coração que vemos cada cena de Carrie Fisher, que emociona à medida que a General Leia cresce no comando de uma complexa manobra militar contra a Primeira Ordem, liderada pelo General Hux (Domhnall Gleeson).

Finn (John Boyega) também sai em sua própria jornada, agora ao lado da novata Rose Tico (Kelly Marie Tran). Eles recebem a missão especial de encontrar um mestre decodificador que pode ajudar na batalha contra a Primeira Ordem. É a parte mais fraca da narrativa, uma vez que a busca pelo decodificador não tem o impacto que os demais arcos narrativos possuem na história principal. O humor e o desenvolvimento de um romance entre os dois é truncado, em grande parte porque suas histórias são razoavelmente “esvaziadas” em prol da missão. O arco que Finn estava construindo com Rey, que era muito mais poderoso, é abandonado (pelo menos, neste filme) e isso não é bom para a trama. Espero que retomem a parceria dos dois no Episódio IX.

Rey, por sua vez, continua sendo o foco, com uma performance agradável de Daisy Ridley. A atriz vem revelando, a cada trabalho, um carisma envolvente e uma força de presença arrebatadora. Rey deve agora refletir sobre seu próprio futuro e vocação, determinada a entender sua profunda conexão com a Força e seu papel ao lado de Luke Skywalker. Revelações são feitas sobre o passado da personagem e geram sentimentos conflitantes. Por um lado, o senso de que qualquer um pode ser o herói da história (ou de sua própria história) é revigorante para a mitologia de Star Wars. Por outro, a revelação retira parte do brilho de Rey. Em O Despertar da Força, ela era poderosa, parecia ter várias conexões com antigos grandes nomes dos Jedi (Luke, Obi-Wan, Yoda) e, aqui, ainda desenvolve uma inusitada conexão com Kylo Ren (que ainda é um garoto irritante aquém do que poderia crescer na saga, o que também espero que melhore no Episódio IX). Se Rey e Kylo tivessem algum parentesco ou algum tipo de ligação pregressa verdadeira, como Jaina e Jacen em Legado da Força, a conexão deles provavelmente faria mais sentido. Mas não há, e isso faz com a conexão entre os dois soe forçada, até meio perdida. O próprio Kylo Ren acaba se tornando vítima dessa armadilha, porque o tempo todo o filme instiga que ele pode ir para o Lado Iluminado ou ficar no Lado Negro, e usa artifícios (incluindo a conexão com Rey) como forma de criar clímax para algum momento épico, que nunca vem. O encontro de Rey, Kylo e Snoke, onde os lados devem ser definidos, tem tantas reviravoltas seguidas jogadas em cima de Kylo Ren que acaba se tornando anticlímax. E o personagem, que é pra ser o grande antagonista desta terceira trilogia de Star Wars, perde a força de presença que deveria ter enquanto inimigo. Se continuar assim, vai ser difícil ser um Darth Vader (ou um Jacen Solo).

Os Últimos Jedi mostra que Star Wars continua sendo uma história sobre os Skywalkers em sua essência, mas agora NÃO SERÁ APENAS uma história sobre os Skywalkers. Rian Johnson estabelece no Episódio VIII as fundações para a nova trilogia de Star Wars que vai escrever e dirigir para a Disney, que contará uma história completamente nova com personagens completamente novos. Entendo e curto a ideia. Mas, ao mesmo tempo, isso é bom e ruim. Porque se mal desenvolvido, pode causar um estrago na saga. O Episódio VIII é um bom filme, mas a verdade é que não causou em mim a mesma paixão e empolgação juvenil que o Episódio VII. Faltou algo. Ainda assim, sou otimista. E como fã de Star Wars, espero que os deslizes no percurso sejam corrigidos para que tenhamos um Episódio IX realmente emocionante.

Star Wars: Os Últimos Jedi Alan Barcelos
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