O Contista

Revolução 03. Alexandra

Revolução

Os livros escolares contavam que Tarsila era um lugar mais acolhedor e cosmopolita no passado, uma das maiores e mais importantes cidades dos Planaltos, uma das poucas que lutavam contra as práticas escravagistas que imperavam no território. Este passado tinha sido arruinado pela ira de Revos e alienígenas destrutivos. Agora, a cidade vivia sob o jugo daquilo que tentara erradicar, a escravidão nas mãos de um tirano.

Quando o Primordial Kadmos e os Revos do Primórdio se tornaram soberanos, muitas cidades tornaram-se colônias da Autocracia. Tarsila foi uma das primeiras e, como todas as outras, perdeu tudo. A cidade, imersa em problemas sociais e econômicos, foi facilmente conquistada graças ao apoio que a Autocracia recebeu das outras duas megacidades dos Planaltos, Garjia e Berges. Muitas pessoas que buscavam uma condição melhor de vida preferiram abaixar as cabeças para os vencedores, assimilando os novos costumes; optaram por sobreviver na submissão ao invés de lutar contra seres de poderes extraordinários.

Guerras civis eclodiram e a cidade foi tomada por um caos generalizado. Os alicerces de Tarsila, que mal se aguentavam, desmoronaram de vez. Subjugados pelo domínio autocrata, os cidadãos perderam liberdade, direitos, cultura, identidade, tudo. Os tarsilanos passaram a ser controlados e explorados com mãos de ferro, tratados como párias em sua própria terra. O grande responsável por tamanha mudança tinha um nome.

Marechal Tigris Maximilian, o Senhor da Guerra.

Quando as colônias foram estabelecidas, o Primordial Kadmos, o maior e mais poderoso Revo de que se tem notícia, nomeou governantes para os territórios conquistados, que nada mais eram do que seus filhos e aliados mais fiéis. Tigris, o primogênito, recebeu Tarsila após conquistá-la e transformou o lugar num perpétuo campo de batalha. Para muitos, era como viver no inferno. E entre a população dizia-se até que o inferno devia ser mais convidativo.

A aula terminaria em cinco minutos e tudo o que Alexandra conseguia pensar era na hora do almoço. Escutava apenas parcialmente as explicações e comentários sobre a história da cidade. Uma hora de almoço era tempo o bastante para a importante partida que disputaria naquele dia. Alexandra precisava ganhar um dinheiro extra para ajudar em casa. O que o pai ganhava no emprego mal dava para sustentá-los pelo mês inteiro. A crise econômica estava no auge. Como nunca esteve antes. O xadrez a ajudava a ganhar alguns trocados.

Era a quinta aula de geografia no semestre, e Alexandra estava ansiosa por assisti-la. Havia uma resistência entre os professores em discutir a questão dos Revos. Mas não com a Senhorita Lilian. Os Revos eram temas daquele dia de aula. Ela, ao contrário dos outros, tentava ensinar uma coisa ou duas sobre o assunto. Mas justamente quando a aula realmente lhe interessava, ela não conseguia se concentrar. Só pensava na hora do almoço.

Olhava para a aula, sem realmente prestar atenção. A caneta zanzava de uma mão para outra, eventualmente rabiscando desenhos aleatórios no canto da página do caderno. Os olhos inquietos iam do relógio acima da porta para a Senhorita Lilian e de volta para o relógio. Escutou pouco sobre o que a professora estava falando para a turma. Faltavam quinze minutos para o meio-dia, quando a aula terminaria.

O tema sempre despertava emoções conflitantes e reações exaltadas. A Senhorita Lilian sempre ficava animada, de uma forma contagiante para os alunos. Se não estivesse tão distraída, Alexandra estaria fascinada. Como todos sempre estavam. A Senhorita Lilian era uma mulher bonita, de cabelos negros ondulados e óculos que eventualmente escorriam pelo nariz, o que a obrigava a ajeitá-los de tempos em tempos. Era uma professora que tentava ser amiga dos alunos e costumava passar muitos trabalhos em grupo, que ela acreditava ajudar na socialização. Eventualmente, criava tarefas descontraídas para testes e provas, ao invés de simplesmente aplicar uma lista arcaica de questões de múltipla escolha em um pedaço de papel. Todos os alunos, mesmo os mais odiosos, a adoravam.

Ela se dava especialmente bem com os alunos “populares”. O que incluía Janine Burque, sobrinha da diretora do Instituto e a mais ferrenha algoz de Alexandra no ensino médio. Ela não era a única, mas certamente, era uma dos piores.

Como será que a professora reagiria se ouvisse a opinião de Alexandra sobre Janine ou sobre os outros alunos “populares” do Instituto? Será que mudaria a imagem que ela tinha destes alunos? Ou será que apenas daria de ombros para a garota estranha que só se vestia de preto e nunca abria a boca nas aulas?

Alexandra olhou por cima do ombro. Janine estava sentada duas fileiras à direita e dois assentos de distância. Ela percebeu que estava sendo observada e estreitou os olhos com um sorriso malicioso, o que fez Alexandra enfiar a cara de volta no caderno. Tentou ignorar a sensação amarga que revirou seu estômago. Olhou para o relógio. 11:52.

— Vou encerrar por aqui — disse a Senhorita Lilian. — Não vou passar lição de casa para o fim de semana. Pensem sobre os Revos e como eles impactaram o mundo ao seu redor. Na segunda, vamos dividir em grupos de cinco e ver como cada grupo produz sua visão sobre os fatos.

Houve uma série de despedidas e saudações, seguidas pelo caos de ruídos que se tornou a sala de aula: sons de livros e cadernos se fechando, zíperes de mochilas se abrindo, cadeiras se arrastando, celulares sendo religados com bipes de mensagens atrasadas chegando, o falatório se alastrando. Os alunos mais sociáveis se reuniram ao redor da Senhorita Lilian para conversar.

Janine estava conversando com seus amigos. Ela era popular, mas não pela aparência de atriz de televisão. Pelo menos, não apenas por isso. Janine era carismática. Sabia ser gente boa por trás da fachada de sobrinha da dona do Instituto e, por consequência, uma das mais ricas do lugar. Por fora, os alunos queriam ser como ela. Alta, bonita, bem vestida. Ela usava a camisa do uniforme sempre limpa e bem passada (por uma serviçal ngoziana que a criara desde a infância), saia jeans alinhada e cabelos perfeitamente penteados para trás, presos por um arco. Pena que por trás dessa fachada, Alexandra conhecia a verdadeira Janine: a menina egoísta que gostava de judiar dos mais fracos e dos que não se encaixavam em seus padrões de mundo.

Alexandra nunca se sentia acolhida no Instituto. Era uma pessoa completamente diferente e deslocada dos demais. Não conversava com muita gente, tinha poucos amigos, usava roupas escuras que quase sempre cobriam a pele, mesmo em dias de calor. Os garotos não se interessavam por ela como se interessavam por garotas como Janine e suas amigas. Ela estudava sozinha, almoçava sozinha, fazia os deveres de casa sozinha e arcava sozinha com as consequências de ser uma excluída no convívio social do Instituto Cruzeiro do Sul. Sua única amiga, que também estudava lá, quase sempre faltava às aulas. Seria um alento, sem dúvida, se a amiga frequentasse um pouco mais o Instituto.

O sino tocou e Alexandra foi a primeira a sair. Com o passo apressado e a mochila nas costas, foi em direção à saída e contornou o Instituto até perto da área interditada por cercas de arame. Leona a esperava nos fundos, sentada sobre sua moto, vestindo uma jaqueta de couro preta e óculos escuros. Os cabelos pretos, levemente descoloridos nas pontas, estavam amarrados em um coque atrás da cabeça. Ela acenou e Alexandra apertou o passo até a moto.

— Sobe logo, não podemos atrasar — Leona entregou um capacete.

Alexandra o colocou e subiu na garupa da moto, segurando-se na cintura da amiga. Leona ligou a moto com um rugido do motor, acelerou e saiu, passando pela entrada do Instituto e se embrenhando pelas ruas internas do bairro em uma velocidade acima do permitido, alcançando e atravessando a Ponte dos Reis sobre o Lago Muir para chegaram até o Centro. Leona nunca dirigia devagar. Montara a moto sozinha, aproveitando as peças que garimpava entre as sucatas no ferro-velho do pai ou que comprava com o dinheiro de seu trabalho de meio-período no bar da mãe.

Era a melhor amiga de Alexandra e poucas coisas no mundo superavam o valor de uma melhor amiga. Cresceram juntas, estudaram juntas no ensino fundamental e fizeram juntas a avaliação de aprendizagem para entrar no “ilustríssimo” Instituto Cruzeiro do Sul, uma instituição de ensino direcionada principalmente à elite autocrata e uma das mais respeitadas do mundo (por se adequar às leis e aos dogmas da Autocracia). Leona e Alexandra, nascidas e crescidas na comunidade Sol Poente, batalharam para ganhar uma bolsa para estudar naquele colégio na expectativa de conquistar uma vida melhor para elas e para suas famílias. Centenas de adolescentes faziam as provas por ano; poucos passavam, e menos ainda suportavam a pressão de ser um pária em meio à nata da nobreza tarsilana.

Leona, dois anos mais velha do que Alexandra e três vezes mais desprendida, encarava o Instituto com uma naturalidade invejável. Ela matava aula quando necessário, assistia quando queria, e ainda assim, tirava as notas necessárias para se manter no jogo. Sempre que possível, Leona tirava a moto da garagem para ajudar a amiga com o seu “trabalho de meio-período”. Alexandra ganhava dinheiro disputando partidas de xadrez com nobres entediados. Era boa no xadrez e estava ganhando fama por causa das vitórias. Como resultado, mais nobres entediados surgiam para desafiá-la, e as apostas aumentavam o bastante para ela ganhar um bom dinheiro. Seu pai não sabia desse “hobby”. Leona não a julgava. Apenas fazia o possível para ajudá-la.

Para um observador externo, seria fácil banalizar a importância de um “melhor amigo”, mas quando se é criança, ninguém é mais importante. A amizade das duas era algo profundo. Alexandra sentia-se à vontade para se abrir, contar sobre problemas, vulnerabilidades e fraquezas. Era um sentimento recíproco.

Leona e ela passavam muito tempo juntas no ensino fundamental, quando ainda estudavam na Sol Poente, e alternavam com o tempo que iam para casas de jogos que existiam aos montes em bares das redondezas. Iam por causa dos velhos fliperamas, com o pouco dinheiro que economizavam da merenda: porque jogar videogame era muito mais importante do que comer. Numa dessas, o pai de Alexandra um dia as encontrou e decidiu ensiná-las a jogar xadrez, como uma forma de gastarem o tempo de “forma mais produtiva”, como ele dizia. Alexandra aprendeu o bastante. Leona nunca foi boa no jogo, mas sempre brincava, usando o tom que o pai da amiga costumava usar antigamente, que Alexandra devia aproveitar essa habilidade de “forma mais produtiva”. O que significava, na prática: ganhar dinheiro. E assim, Alexandra começou a vencer nobres entediados que se achavam mestres enxadristas. Quando tinham um tempo livre juntas, ainda iam ao fliperama jogar videogame.

O vento resvalou no capacete, agitando o cabelo de Leona. Ela desacelerou, virou em uma entrada quando chegaram ao centro de Tarsila. Durante o dia, a cidade não pulsava, os neons apagados e os hologramas adormecidos sob um céu de palidez apática. A aglomeração era um pouco mais tímida pela manhã, não havia tantas pessoas se esbarrando pelas ruas ou lotando as inúmeras passarelas que conectavam prédios e edifícios por toda a cidade. O movimento maior se concentrava nas entranhas dos colossos de aço, ferro e vidro que dominavam o Centro, onde empregados apáticos, como o céu pálido de uma cidade acostumada à servidão, se amontoavam em salas e escritórios para servirem aos interesses de empregadores corporativos.

Alexandra acreditava que, um dia, quando finalmente terminasse o ensino médio, acabaria engolida por um destes escritórios, para prestar brilhantes serviços em nome de algum rico empregador, talvez até uma pessoa como Janine Burque, que pudesse lhe pagar um salário decente para ela ter uma vida confortável, não necessariamente de luxos, apenas cômoda o bastante para que seu pai não precisasse se preocupar com um futuro sem perspectivas. A tendência para quem nascia e crescia em lugares como a Sol Poente, muitas vezes, era o futuro sem perspectivas. Ela não se incomodava com a realidade, apenas a aceitava como todos os tarsilanos faziam. Esperava que a conquista de uma bolsa para estudar no Instituto Cruzeiro do Sul pudesse lhe garantir um emprego com um futuro um pouco mais promissor.

Enquanto este momento não chegasse, ganharia algumas partidas de xadrez contra alguns destes potenciais empregadores e tiraria deles algum dinheiro bem conquistado antes de recebê-lo em salários devorados por uma centena de encargos e tributos. Ela aceitava a realidade, mas ainda era uma menina de 17 anos e não precisava nadar o tempo todo com a corrente. No Edifício Obliquon, Alexandra se encontraria com seu próximo desafiante. Era a aposta mais alta feita contra ela até agora. Por isso, estava tão ansiosa. Por isso, nem mesmo a aula sobre Revos da Senhorita Lilian conseguiu desviar sua atenção do fato de que, se ela vencesse, ganharia muito dinheiro. Uma gota de suor escorreu da sua testa, pela bochecha até o pescoço, e nada tinha a ver com o calor dentro do capacete ao redor da cabeça.

A sala onde Alexandra faria sua próxima partida tinha sido especialmente preparada para recebê-la, em um dos escritórios do desafiante no Edifício Obliquon. Arsênio Obliquon era dono de uma megaempresa de programas de computador e possuía vários escritórios em edifícios espalhados pela cidade. Entre seus trabalhos mais famosos estavam, justamente, projetos ligados à jogos de xadrez online, dos quais, segundo diziam, o próprio Marechal Tigris era grande entusiasta. Foi levada por um funcionário até uma sala no final de um corredor de baias de escritórios, onde várias pessoas trabalhavam sem tirar os olhos dos monitores que brilhavam em seus rostos. Leona a acompanhava de perto.

Quando Alexandra entrou na sala, a televisão estava ligada em um telejornal que exibia imagens ao vivo de uma explosão e um carro sendo perseguido por viaturas brancas da Legião. A apresentadora do telejornal apareceu falando sobre a notícia, com o vídeo da perseguição diminuindo para o canto da tela:

“… a perseguição dos terroristas. Acredita-se que façam parte do mesmo grupo que vem invadindo laboratórios da Autocracia em diversas cidades dos Planaltos nos últimos meses. Fontes internas dizem que neste ataque eles teriam roubado uma perigosa arma experimental…”

Arsênio estava sentado em uma poltrona e desligou a tevê logo que Alexandra entrou. Havia uma poltrona vazia, esperando por ela, uma mesinha no centro com o tabuleiro posicionado, e um grupo de quatro seguranças posicionados ao redor, prontos para agir caso Alexandra atentasse contra o empresário. Arsênio segurava um cigarro entre os dedos, displicente quando o levava a boca para longos tragos, esparramado na poltrona.

— Ora, ora, fico feliz em ver que chegou bem — ele disse, soprando a fumaça. — Você está atrasada.

Alexandra se sentou na poltrona, com um sorriso cordial.

— Vou levar apenas quinze minutos.

Ele se empertigou do outro lado da mesinha.

— Você é bastante convencida para uma fedelha.

— Eu preciso de apenas 30 segundos para cada movimento.

Alexandra começou movendo um Peão no tabuleiro. Como jogadora das peças brancas, ela fazia o primeiro movimento.

Arsênio gargalhou.

— Você é corajosa, garota. Mas de todas as centenas de partidas que disputei, apenas perdi para uma única pessoa — ele se inclinou com um sorriso largo e confiante. — Sua Excelência, o Marechal Tigris.

Ele fez seu movimento e recostou na cadeira.

— Hoje, eu serei sua segunda derrota.

Ela moveu outra peça.

Arsênio Obliquon era conhecido pelas colunas sociais na imprensa. Acabara de celebrar 143 anos de idade com uma festa de proporções incalculáveis que reuniu nobres tarsilanos, celebridades e autocratas renomados. Até mesmo havia a expectativa de que o Marechal Tigris comparecesse à festa, o que não aconteceu. Era de conhecimento popular que o governador-geral não costumava participar de festas e comemorações, exceto quando envolviam a celebração de alguma vitória ou conquista de guerra. Era de conhecimento público também que Obliquon conquistara sua longevidade através de alterações hormonais constantes em seu metabolismo, realizadas nas melhores clínicas que sua fortuna poderia pagar. Ele viajava uma vez por ano para Möbius, a capital da Autocracia, para se submeter à cirurgias que reiniciavam seu código genético. O procedimento só era realizado em duas megacidades do mundo, Möbius e Kurogan, mas a capital da Autocracia sempre se mostrava mais convidativa para um megaempresário respeitado de uma colônia autocrata. Dizia-se nas ruas e na imprensa que o próprio Primordial Kadmos passava por sessões periódicas para prolongar a duração de sua vida. O processo, repetido à exaustão por anos a fio, retardara o envelhecimento de Obliquon ao ponto de transformá-lo em uma figura de gostos exóticos. Ele adorava se vestir de maneira espalhafatosa, com ternos sempre bem alinhados, feitos de algum material extravagante como penas de garça ou pele de girafa, sempre em cores berrantes.

Enquanto trocavam movimentos de peças no tabuleiro, Alexandra o avaliava, não apenas para prever suas ações, mas também para entendê-lo a ponto de conseguir encontrar pontos fracos que pudesse explorar para ganhar a partida. Ele vestia um azul claro, com estrias rosas, brancas e amarelas que se misturavam no que parecia ser uma teia de aranha, e usava óculos de armação prateada e lentes sintéticas feitas de placas de fluorita vermelha. O espalhafato poderia tê-la desconcentrado se ela não se divertisse como a excentricidade exagerada. Demonstrava um tipo de arrogância velada que normalmente trabalhava a seu favor em suas disputas de xadrez contra nobres.

No final da partida, 14:27 minutos depois, Leona estava gargalhando, surpresa com a vitória da amiga após um roque bem sucedido contra o adversário. Alexandra saiu da sala com 10 volts, 1.245 orbos pagos em notas e uma Leona empolgada ao seu lado, como sempre ficava quando a acompanhava e podia assistir à partida. Conquistar um pagamento em volts sempre deixava Alexandra envaidecida por sua habilidade no xadrez.

— Sempre que vejo você jogar, me pergunto por que você não é assim na vida.

— Assim como? — perguntou Alexandra, dobrando o maço de dinheiro e colocando-o no bolso junto com as moedas de platina.

— Ousada.

Leona parou e se virou.

— Se você tivesse essa ousadia para lidar com aquelas escrotas que te atacam no Instituto, elas nunca mais mexeriam contigo.

— Aqui eu não seria espancada — Alexandra tentou não encolher os ombros, não quando estava tão enaltecida pela vitória.

Ela ergueu uma sobrancelha e se aproximou.

— Aqui você não teria como pagar… seria muito pior.

— Quanto tempo temos antes da aula da tarde? — Alexandra mudou de assunto.

Leona olhou o relógio no pulso.

— Uns 15 minutos.

— Você consegue chegar no Instituto a tempo?

— Claro que consigo — ela inflou o peito.

E imediatamente tossiu com a fumaça que o vento soprou em cima delas. Alexandra tossiu também. Escutou um estampido, o barulho de pneus arrastando no asfalto, tiros e uma explosão. Correu contra Leona e se jogou em direção ao chão, levando-a junto. Rolaram para o lado, buscando refúgio na fachada do Edifício Obliquon. Pilares de fumaça preta subiram ao céu, preenchendo a praça ao redor. Alexandra não parava de tossir. Levantou a camisa para cobrir a boca e o nariz, mas de pouco adiantou. Quando olhou para o lado, Leona estava desacordada. Colocou a mão levemente na nuca para levantá-la; os cabelos estavam molhados de sangue. Alexandra respirou fundo, tentando não enjoar com as manchas vermelhas em sua mão. Ouviu mais estampidos, então, o som de tiros estourando no metal. Colocou a amiga por sobre os ombros e a arrastou para longe dali, buscando uma rua interna que estivesse mais calma, embaixo de alguma passarela ou outro local que pudesse lhes fornecer cobertura. Comerciantes e donos de lojas fechavam as portas às pressas. Sirenes ressoavam por todos os lados, as viaturas brancas assumindo posições de cerco na área. Alexandra contornou virando uma esquina e se apoiando na porta metálica de uma loja que acabara de fechar na frente dela. Leona continuava desacordada, mas respirando, o que deu certo alívio. Alexandra inspirou e expirou profundamente, tentando retomar o fôlego.

Então, sua espinha gelou.

Ela viu um Biomak.

Ouvira falar daquela coisa experimental que a Autocracia vinha desenvolvendo para conter distúrbios e rebeliões, mas não acreditara que fosse verdadeiro. Ele surgiu de relance em meio à nuvem de fumaça, a carapaça metálica reluzindo entre reflexos escuros e alaranjados das chamas. Era uma máquina assassina de aspecto humanoide, composto por uma infinidade de sistemas mecatrônicos complexos, roldanas, tubos e engrenagens que, em pleno funcionamento, pareciam órgãos vitais dentro do exoesqueleto formado por uma liga quimicamente criada através da mistura de ouro, prata e titânio. Canhões balísticos saltavam de cavidades nos braços mecânicos e garras afiadas de tungstênio tomavam o lugar dos dedos. Alexandra tinha lido sobre eles em uma matéria sobre as recentes pesquisas tecnológicas da Autocracia. Sabia sobre eles pelo que tinha lido ou visto em imagens. Mas nunca havia chegado tão perto de um. E suas pernas tremiam só de pensar na possibilidade de virar alvo daquela bestialidade mecânica. Os olhos emitiam luzes vermelhas turvadas pela fumaça, e Alexandra quase acreditou que olhavam para ela enquanto o monstro avaliava os arredores em busca de seus alvos.

Outras pessoas corriam se arrastando pelas fachadas, escondendo-se em pontes entre edifícios, os corpos encurvados para evitar os soldados da Legião, as mãos trêmulas pela visão do Biomak. Edifícios fechavam suas portas de ligação entre passarelas, prendendo os cidadãos sobre elas do lado de fora, sem passagem ou saída, sitiados à dezenas de metros de distância do chão. Apenas alguns centros comerciais mantinham suas passagens abertas, permitindo o refúgio a quem conseguisse alcançá-los. Todos sabiam o que significava um cerco autocrata em busca de rebeldes e todos procuravam uma forma de escapar ou se esconder.

No nível da rua, Alexandra continuava com as costas espremidas na porta metálica, sem mover um músculo, sem sequer respirar direito, apertando Leona para o mais próximo possível dela. Helicópteros da imprensa sobrevoavam o local acompanhados de múltiplos zangões cibernéticos com câmeras apontadas para o caos abaixo. Eles eram sempre ávidos por transmissões que envolvessem a presença de um Biomak. O robô exterminador se afastou do campo de visão, levando sua busca para outra direção. Alexandra puxou a amiga desacordada e caminhou a passos largos, virando em uma rua interna que levava à Praça dos Sobrados, de onde talvez pudessem se afastar daquela zona de batalha. O problema era o lugar cercado por barricadas e viaturas militares.

Ao contornar à praça, Alexandra notou um grupo de pessoas entrando pela porta de um sobrado antigo. Pegou Leona e foi em direção ao local.

— Ei, por favor, ela machucou a cabeça! — gritou para uma pessoa que estava entrando. — Ajudem!

O homem se virou, gesticulando para que ela fosse rápido; ele olhou para dentro, hesitante, então saiu e veio ajudá-la. Alexandra agradeceu quando ele ergueu Leona sobre os ombros e eles a levaram para dentro. Cinco pessoas se encolhiam no interior do sobrado, entocadas perto de uma escadaria em ruínas, os olhos e ouvidos apreensivos pelos sons de tiros e confusão. As pessoas abriram um espaço e eles colocaram Leona no centro, deitada. Alexandra retirou a camisa do uniforme do Instituto, enrolou e dobrou como uma espécie de travesseiro embaixo da cabeça dela. Ficou com a blusa de manga longa preta que usava por baixo do uniforme.

— Algum de vocês é médico? — perguntou para as pessoas.

Eles a olharam com pesar, balançando a cabeça em negação; ou talvez por medo.

— Preciso encontrar ajuda — Alexandra olhava de um lado para o outro, procurando alguma coisa que não encontraria ali. Os passos acompanharam seus olhos, andando de um lado para o outro, incapaz de controlar o nervosismo.

O homem que a ajudou a carregar Leona segurou em seu braço.

— Calma! Não há nada que possamos fazer agora a não ser esperar.

— Ela está sangrando — Alexandra puxou o braço num reflexo involuntário. — Eu preciso encontrar ajuda — torceu para que, repetindo à exaustão, se tornasse uma realidade.

Foi em direção à saída, hesitou e olhou para trás.

Uma mulher de meia-idade estava olhando para ela, balançando a cabeça em um gesto gentil de anuência.

— Nós cuidaremos dela até você voltar — disse a mulher.

Alexandra respirou fundo e saiu correndo pela porta.


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