O Contista

Revolução 02. Oficina do Velho Galfre

Revolução

Não foi difícil para o espadachim encontrar a oficina indicada pela atendente. Após virar uma esquina e atravessar algumas ruas sem grandes complicações, chegou a um galpão de paredes sujas e danificadas, cercado por muros pintados de graffiti artístico, garagens e terrenos com pilhas de sucata e ferro-velho. Uma placa de metal na frente dizia “Sempre Aberta”, para qualquer cliente que precisasse de reparos em algum dispositivo, veículo ou arma.

Embora a tecnologia nos grandes centros urbanos tivesse alcançado avanços extraordinários, graças principalmente às megacorporações associadas à Autocracia, essa não era a realidade nas regiões mais pobres, especialmente em terras colonizadas que sofriam os efeitos de um mundo pós-guerra. Com o baixo nível de industrialização, o povo da periferia recorria a artífices autônomos, que fabricavam tudo manualmente, e quase todas as favelas tinham pelo menos meia dúzia de oficinas. Isso porque um equipamento criado por um artífice de rua só podia ser consertado pelo próprio ou por um de seus discípulos.

O Velho Galfre tinha cara de poucos amigos, e trabalhava em algum tipo de arma quando o espadachim entrou. Peças estavam espalhadas por todo o salão ou penduradas sobre a mesa de trabalho, além de latarias amassadas de carros, pedaços de motores, e uma motocicleta em processo de desmonte em uma das baias ao fundo. Cabos e fiações serpenteavam pelo chão e pelas paredes, conectados a um gerador a diesel barulhento, que fornecia energia extra para os equipamentos de trabalho do artífice. Ele usava uma chave de fenda para consertar o sistema de recarga automática da arma, que parecia ser um rifle.

O espadachim colocou um volt sobre o multímetro na bancada, junto a um pedaço de papel dobrado: — Preciso de um serviço de reparo.

O velho lhe lançou um olhar nada amistoso por cima dos óculos redondos, pegou o papel e leu o conteúdo. Ajeitou os óculos com o dedo, e grunhiu: — Ao lado das baias, no final do corredor, você vai encontrar o que precisa.

Sem mais palavras, o espadachim seguiu pelo corredor ao lado das baias até a porta no final. Estava entreaberta. Ele apenas a empurrou de leve e entrou, fechando-a atrás de si. Encontrou uma sala pequena, à meia-luz, o ambiente esfumaçado pelas guimbas de cigarro no cinzeiro sobre uma mesa no canto. Pelo menos três. Um maço pela metade e um isqueiro estavam ao lado do cinzeiro. O único ocupante da sala terminava o quarto cigarro, e como o espadachim bem o conhecia, dentro de alguns minutos acenderia outro.

— Velhos hábitos nunca morrem — o espadachim se aproximou e sentou-se à mesa, retirando a espada embainhada das costas e apoiando-a na parede ao lado.

O outro sorriu levemente, com o cigarro fumegante na boca, os olhos azuis sobressaíam mesmo nas sombras.

— Fico feliz em revê-lo também, Tyfon. Deixei algumas garrafas de cerveja naquela geladeira ali — ele apontou —, trouxe especialmente para você.

O espadachim sorriu de volta, levantou-se e foi até a pequena geladeira com sinais de ferrugem e decomposição nas laterais. Abriu e pegou uma garrafa de Riffenz, sua preferida, difícil de encontrar desde a redução drástica na produção após a fábrica decretar falência e ser comprada pelo conglomerado de cervejarias NiCerv. Só um amigo mesmo para se lembrar de seu gosto pessoal. Um dos poucos amigos que tinha. Pegou outra garrafa — havia quatro no total —, e levou-a consigo de volta para a mesa.

— Velhos hábitos nunca morrem mesmo — disse-lhe o amigo.

Marcos deu uma última tragada no cigarro e amassou o que restava no cinzeiro, apanhou a garrafa e abriu-a com a mão. O espadachim abriu a sua da mesma forma. Brindaram casco com casco e beberam goles fartos, direto do gargalo, deixando o líquido gelado escorrer pela garganta e refrescar seus corpos cansados. Ambos vinham de experiências extenuantes pelos Planaltos.

— Obrigado pela cerveja — Tyfon colocou a garrafa sobre a mesa.

— Encontrei em Garjia durante nossa passagem por lá, o atendente era turrão, mas me vendeu as quatro últimas por 82 orbos. Eu disse que era para o maior fã da cerveja nos Planaltos e ele não teve como recusar.

— Deve ser o carisma de músico, como sempre.

Eles riram. E beberam mais um gole.

— Como foi a viagem? — perguntou Tyfon.

— Terminei de escrever a música nova, sobre aquilo que tínhamos conversado antes da viagem. Ficou boa, conseguimos até gravar um videoclipe. Ryoma disponibilizou na WWW.

— Ainda não vi o vídeo, não tive muito acesso a computadores nos últimos meses, mas ouvi falar da música. Parece que vocês estão ficando famosos por aí.

— Essa é a ideia, é o que a gente queria desde o começo, certo?

Tyfon concordou acenando com a garrafa.

— Como estão os outros?

— Ansiosos pelo seu retorno. Leo só para de falar em você quando arruma namorada nova.

— Ele continua com aquela coisa de se apaixonar por uma mulher a cada duas semanas?

— Só piora com essa coisa de fama — Marcos sorriu. — Até o Leo que não pegava ninguém conseguiu algumas namoradas. O negócio é que toda a vez que termina ele diz que não estava dando certo, que ela não era o amor da vida dele, aquele blá, blá, blá de sempre — ele gesticulava com a mão curvada, abrindo e fechando os dedos como se estivesse simulando um tagarela. — Agora ele está um pouco mais quieto. Quase perdeu o pau com a última.

— O que aconteceu dessa vez?

— Ele se engraçou com a filha de um nobre e aceitou um convite para ir ao jantar de aniversário dela tocar cítara.

— Ele não sabe tocar cítara.

— Pois é.

Marcos ergueu as sobrancelhas com um misto de incredulidade e divertimento, como se não soubesse o que pensar sobre aquilo que estava contando: — Confesso que às vezes me pergunto se ele é muito ingênuo… ou muito burro.

Tyfon engasgou uma risada e tomou mais um gole de cerveja.

— Por falar em música nova, tenho algo para você.

Puxou do bolso um estojo de plástico desbotado e todo arranhado com uma fita cassete dentro, e entregou ao amigo. Ele pegou e abriu para ver a fita; tinha uma marca rasurada que ele reconheceria em qualquer lugar.

— PUTA QUE PARIU! — Marcos gritou, espantado, vasculhando a lateral da fita com os olhos, na esperança de encontrar o nome de registro, que estava ilegível de tão desgastado. — Você chegou a ouvir? É o que estou pensando?

— Não ouvi, ganhei de um moleque bergiano que me ajudou em um serviço. Ele disse que é uma das originais gravadas pelo Músico, só que ele deixou cair em uma privada durante uma bebedeira, então pode não tocar direito. Talvez Ryoma consiga dar um jeito nela ou regravar para você.

— É o que ele faz, não é? — os olhos do amigo brilhavam como se fosse uma criança ao ganhar um brinquedo novo. Ele adorava aquelas coisas e colecionava todas que encontrava, especialmente quando eram as raras originais gravadas pelo Músico. — Vou falar com ele quando a gente voltar.

Tyfon bebeu mais um gole da cerveja.

— Ele chamou de “Dorothy”.

Marcos quase caiu da cadeira.

— Tá de sacanagem?

— Eu sabia que você ia gostar.

— Sabe, é até irônico que tenha sido você a encontrá-la — ele sacudia a fita com a mão enquanto falava. — Uma vez, eu estava em um bar com o pessoal da banda, bebendo e comendo batatas fritas, quando fomos abordados por um sujeito meio lunático — Marcos girou o dedo próximo ao ouvido — que estava obcecado com a “Dorothy”. Ele tinha encontrado uma fita danificada e com muito custo conseguiu ouvir, mas não conseguia colocar as músicas em ordem, ou estabelecer conexões entre elas. Ele dizia que existia uma ordem, que aquelas músicas precisavam ser tocadas em uma ordem, e que uma banda como a nossa certamente saberia que ordem era essa. Na hora, só consegui pensar que era mais uma das excentricidades do Músico. Nunca entendi realmente por que aquele velho maluco só gravou uma versão dessa fita. Quase enlouqueci também pensando nisso, e olha que ele era meu pai. Imagina para um sujeito que mal entendia o que era música.

— E existe uma ordem?

— Não sei. Todo mundo fala do Músico como um bastião de sabedoria, conhecimento e etc., mas o que eu conhecia era bem diferente. Meu pai era uma pessoa difícil, como todos os visionários são talvez. Essa coisa que ele contava de vir de Outra Terra mexia muito com a cabeça dele. Ele estava sempre procurando um modo de voltar para esse mundo que ele chamava de casa. Por causa disso, ele acabou se envolvendo com gente perigosa e perdendo muito dinheiro em jogos de cartas. Foi assim que ele perdeu a “Dorothy” — o olhar de Marcos pareceu meio perdido. — Foi assim que ele perdeu minha mãe e meu irmão.

— Talvez um dia a gente consiga descobrir se existe mesmo essa Outra Terra que seu pai tanto falava, talvez essa fita ajude a entender.

— Quem sabe. Ele me ensinou tudo que sei sobre música e fitas cassete, e até hoje sinto que nunca o conheci de verdade. Ninguém conheceu, nem mesmo minha mãe.

Tyfon acenou com a garrafa, a cerveja quase no final: — Por isso ele se tornou uma lenda.

Com uma sacudida rápida no maço, Marcos levou outro cigarro à boca, sacou o isqueiro e depois de riscar algumas vezes a roldana, conseguiu acendê-lo. Deu uma tragada e soltou a fumaça: — E sua viagem, como foi?

— Turbulenta. A influência da Autocracia chegou a um ponto que pode não ter volta se não fizermos alguma coisa. As últimas cidades livres dos Planaltos estão caindo, e governantes que não são convertidos, desaparecem misteriosamente e são substituídos. Garjia está por um fio, e não sei quanto tempo levará até chegarem à Berges. Se as três megacidades caírem nas mãos da Autocracia, não vai demorar muito tempo até que todas as outras cidades dos Planaltos sucumbam também.

— Correm notícias de que eles iniciaram incursões contra as Terras Orientais. Parece que Kurogan declarou guerra.

— Estive em Kurogan durante um tempo, conheci uma garota lá.

— E?

— E nada. Ela apenas me ajudou a resolver um problema com um Revo mercenário que estava caçando artefatos antigos a serviço da Autocracia.

Marcos se inclinou com um sorriso torto.

— Suponho que você se livrou dele e ficou com a garota no final.

— Só me livrei dele.

— Qual é o seu problema, cara?

— Não tenho tempo para distrações, você sabe disso. Ela também sabia quando decidiu me ajudar.

— Você é um maldito ouriço, isso sim.

— Você sabe o porquê — uma sombra passou pelos olhos de Tyfon.

Marcos endireitou o corpo na cadeira, enquanto deixava que as cinzas do cigarro caíssem no cinzeiro. Fiapos loiros arrepiaram no cabelo e ficaram sobre a testa, marcando sombras finas nos vincos que se formaram pela preocupação. Ele passou a mão pela cabeça para ajeitar os fios para trás, um silêncio desconfortável tomando conta da sala.

— Encontramos o laboratório onde estão desenvolvendo o soro.

Sem perceber, o espadachim pressionou a garrafa com a mão e teve que se conter para não destruí-la.

Marcos continuou:

— Eles conseguiram produzir uma amostra bem sucedida e será testada nos próximos dias. Se tudo der certo e eles conseguirem replicar o processo, a Autocracia terá acesso a um poder incomparável.

— Precisamos nos apressar.

— E o que você pretende fazer?

— Vamos roubá-lo.

Os amigos se entreolharam.

O próximo passo estava traçado.

O soro mudaria tudo.


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