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Com Amor, Van Gogh

Crítica Com Amor, Van Gogh

Nível Épico

A beleza da arte pela arte

(Loving Vincent) – Mistério. Reino Unido, 2017. De Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Com Douglas Booth, Saoirse Ronan, Jerome Flynn, Eleanor Tomlinson, Helen McCrory, Robert Gulaczyk e Aidan Turner. 1h34min. Distribuidora: Europa Filmes. Classificação: 12 anos.

Como escrever uma carta de amor? Mesmo para alguém que escreve todos os dias, é uma pergunta difícil de se responder. Os diretores Dorota Kobiela e Hugh Welchman começam a fazê-lo, curiosamente, pelo fim. Ou, no caso, pelo momento do fim. Com Amor, Van Gogh é uma obra que une projeto gráfico elaborado e bem pensado à busca por desvendar um mistério: o que aconteceu com Vincent van Gogh em seus últimos meses de vida? Enquanto transita por diversas respostas, revela-se uma experiência única em termos visuais e sensoriais.

Acompanhamos a jornada de Armand, filho do carteiro Roulin, que recebe do pai a tarefa de entregar a última carta de Vincent a seu irmão, Theo. A morte do pintor aconteceu há algum tempo e Roulin, que era um bom amigo de Van Gogh, tentou várias vezes encontrar o endereço de Theo para entregar a carta. Armand é relutante em ajudar, mas é convencido pelo pai. Durante a viagem, descobre que Theo também faleceu e decide ir até Auvres, o local onde Van Gogh passou por tratamento psiquiátrico após corta a orelha. Motivado pelo impacto emocional que cercava a história do pintor, Armand se torna uma espécie de detetive, tentando descobrir o mistério por trás do dia da morte de Vincent van Gogh.

A ideia é ousada por si só. Os realizadores trabalharam com mais de 100 artistas, escolhidos entre mais de 2.500 avaliados, para compor uma obra de mais de 65 mil quadros pintados a óleo, que levou seis anos para ser concluída em forma de filme animado. Cada peça de Com Amor, Van Gogh é inspirada nos trabalhos do pintor, nos enquadramentos que ele aplicava em suas pinturas e nas cartas que escrevia para o irmão, tudo reunido em uma história marcante e visualmente arrebatadora.

Não há como assistir ao filme e não ser envolvido por suas pinceladas ondulantes, seus brilhos floridos, suas noites estreladas. A natureza morta ganha vida em meio à nuvens selvagens e espirais solares. Retratos e autorretratos se transformam em pessoas reais. A visão de mundo de Van Gogh, o que ele via de belo e terrível, se torna a nossa visão enquanto público. Há um reencontro com as grandes pinturas, “Quarto em Arles”, “O Café à Noite”, “Campo de Trigo com Corvos”, ou a jovem ao piano, Marguerite Gachet, a filha do doutor Paul Gachet, que supervisionou Van Gogh no final de sua vida. O doutor também foi retratado, assim como o pai de Armand, o carteiro Joseph Roulin, provavelmente um dos poucos amigos verdadeiros que Van Gogh teve na vida. Armand Roulin, que assume o papel de protagonista, era também um dos retratados pelo artista. Todas as peças, mesmo as mais inesperadas, se encaixam lindamente para a construção do filme. Lugares, coisas e personagens se conectam em imagens que fazem sentido e possuem contexto. Pelo olhar de Com Amor, Van Gogh, conhecemos um pouco mais sobre o próprio Vincent van Gogh, que pintava a vida por onde passava, em uma maravilhosa jornada através de um universo de cores e emoções.

Para a narrativa em si, os cineastas usam um truque: todos os flashbacks, que mostram Vincent van Gogh no passado, ainda vivo, são desenhos em preto e branco, enquanto Armand e sua investigação estão em cores. É como se Armand estivesse inevitavelmente envolvido pela vida de Van Gogh. As passagens em preto e branco têm muito mais velocidade, são ricas em detalhes e mais introspectivas, enquanto as pinturas a óleo, vibrantes e multicoloridas, são mais autônomas e têm um efeito muito mais emocional.

A história do artista incompreendido, que foi considerado louco e fracassado enquanto era vivo, é universalmente conhecida, mas o filme não deseja apenas de desenhar uma biografia. Os fatos conhecidos são reinterpretados, como a amizade com o médico Gachet e sua filha, assim como as próprias pinturas do artista, que também possuem seu papel na interpretação. Na verdade, Kobiela e Welchman estão tentando entender o mistério da morte de Van Gogh que persiste até hoje, e que, provavelmente, persistirá sem ser desvendado. Continuará a ser parte do mito de um homem que se tornou mítico. Enquanto procuram por suas respostas, eles apenas escrevem sua carta de amor. E, à despeito do quão difícil possa ser, o fazem com uma beleza de arrancar lágrimas dos olhos.

Com Amor, Van Gogh Alan Barcelos



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